CRÍTICA / LIVROS: Sobrou para 2026

Por Olga de Mello - Especial para o Correio da Manhã

coluna livros

Se uma traça disser que devorou toda a quantidade de livros planejada para se banquetear durante um ano inteiro, tenha certeza: é mentira. Traças, esses leitores compulsivos, que acumulam montanhas de tsundokus, aqueles livros folheados, empilhados para uma leitura em futuro incerto e não sabido, jamais se organizam a tanto. Começam a ler um, abrem outro que chegou, pegam um terceiro - e por aí vai. Escapam do abandono parcial os que hipnotizam o leitor. Em 2026, uma das minhas metas é não comprar livros antes de ler os 87 - eu contei - que se equilibram em bancos e mesinhas de cabeceira no meu quarto.

É claro que a meta já está para ser desprezada nos próximos dias: vai sair um Camilleri inédito, "A pirâmide de lama" (Record, R$ 69,90), o vigésimo segundo caso do Comissário Montalbano, que chega às livrarias no fim de janeiro. Até lá, há um bocado de montanhas de volumes a ser desbastado...

No prefácio de "Nós, os Caserta" (Fósforo, R$ 68,71), da argentina Aurora Venturini, sua patrícia e romancista Claudia Piñeiro conta ter chegado à escritora "como grande parte de seus leitores, de modo tardio e entusiasmada" pela indicação da leitura. Venturini ganhou fama aos 86 anos, em 2007, ao vencer, sob pseudônimo, um concurso literário com o contundente "As primas". Era conhecida no meio por sua literatura, mas custou a obter popularidade. "Os Caserta", lançado em 1992, voltou a chamar atenção depois do prêmio, e conta a trajetória de uma menina superdotada, sem empatia sequer por sua família da alta burguesia local.

"Santos de Casa" (Bazar do Tempo, R$ 76), de Luiz Antônio Simas, é de 2022 - mas só agora abri essa delícia. Fala dos santos mais reverenciados no Brasil, as Senhoras de Aparecida, Nazaré, Fátima, São Jorge, São Francisco, São Sebastião e, claro, São Longuinho, aquele que encontra objetos perdidos e obriga o distraído a dar três pulinhos pela graça alcançada. O adorável texto de Simas traz as lendas sobre os milagres dos santos, as razões para a devoção e o sincretismo com entidades das religiões de matriz africana - base da cultura brasileira.

"Vera"(Todavia, R$ 69,90), de José Falero, se debruça sobre o cotidiano de uma empregada doméstica da periferia de Porto Alegre, nos anos 1990. Uma rotina que, aparentemente, sofreu poucas alterações e que pode ser transposta para todos os grandes centros urbanos do Brasil. Diariamente, a protagonista precisa fazer uma longa caminhada até pegar o ônibus para trabalhar. Como outras mulheres da família e da vizinhança, ela sonha com uma vida melhor para o filho, enquanto esquecem seus próprios desejos, sustentam as casas praticamente sozinhas e convivem com homens agressivos e machistas.

Para desanuviar, o divertido "Todo mundo neste trem é suspeito" (Intrínseca, 76,90), do australiano Benjamim Stevenson, traz o protagonista de seu thriller anterior, Ernest Cunningham, que escreveu um true crime sobre a própria família, sofrendo pressão da editora para produzir outro best-seller. Ao participar de uma viagem com outros escritores de suspense, de trem, pela Austrália, ele e os outros romancistas investigam o assassinato de um dos passageiros.

Verão exige leitura de muitos thrillers. "Aquela terrível confusão na Via Merulana"(Harper Collins, R$ 69,90), único policial escrito pelo celebrado erudito Carlo Emilio Gadda, tornou-se um clássico do gênero na Itália. Publicado nos anos 1950, mas ambientado em 1930, no início do fascismo, essa sátira ao regime totalitário inovou por usar quatro dialetos - o vêneto, o de Roma, o napolitano e o abruzzese - para caracterizar personagens diferentes, que também se destacavam pela expressão de termos da botânica, teologia, engenharia mecânica (profissão original do autor), medicina e astronomia. A série de crimes em um prédio da Via Merulana é pretexto para uma crítica afiada às convenções e censura incorporadas por uma nação multifacetada, formada por diferentes pequenas nações.

"Dança de enganos" (Companhia das Letras, R$ 79,90) é o último livro da trilogia "O lugar mais sombrio", de Milton Hatoun, que acompanha a trajetória sofrida do jovem Martin, nos anos 1960-70. Desta vez é a mãe do protagonista, Lina, que vai mostrar seus motivos para se distanciar do filho, no momento em que a opressão política é contestada por uma nova ordem social, rejeitando uniões formais e redimensionando os laços de família.

Um destino ainda raro em viagens turísticas, o Djibuti foi dominado pela França de meados do século XIX até 1977. Ponto de convergência entre África e Ásia no estreito que liga o Mar Vermelho ao Golfo de Áden, o país sofreu sucessivas intrusões de governos estrangeiros, cobiçando o território por sua localização estratégica, maior fonte de divisas econômicas. Nos 17 contos de "O país sem sombra" (Tabla, R$ 67,90), Abdourahman A. Waberi, escritor nascido no Djibuti, mas hoje vivendo entre França e Estados Unidos, apresenta aspectos diversos da realidade de seu país, em textos fragmentados sobre a identidade nacional, a intensa luta pela sobrevivência, além da relação entre história, política e rica cultura local.

Um 2026 de boas leituras, de preferência, enroscados numa rede, recebendo a brisa da tarde!

Bom ano novo!

Divulgação - Coluna livros 2/1/2026