RETROSPECTIVA 2025: Algumas das melhores leituras do ano
Uma seleção de livros resenhados ao longo do ano no #CM2
Uma seleção de livros resenhados ao longo de 2025 no #CM2
Este ano, como muita gente, deixei de ler, ver, ouvir, descobrir muita coisa. A indústria cultural entope o público com tantos produtos novos que não há como viver e ler tudo o que aparece. É assim que justifico esta lista pessoal, parcial e, provavelmente, falha, por não contemplar muito do que se falou por aí. Ficaram de fora títulos muito comentados, que aguardam o momento certo para a leitura, ao longo dos próximos meses. Eis, então, alguns livros que me encantaram em 2025.
Em "Sinais de nós" (Relicário, R$ R$ 59,90), a chilena Lina Meruane recorda sua infância no Chile sob Pinochet, quando seus colegas do colégio particular britânico para crianças de classe média alta abandonam os estudos - por falta de recursos para pagar a escola ou problemas políticos das famílias. A violência "sem nos tocar, sem ferir os nossos" atinge até quem não se considera conivente com a ditadura, que afasta de seu território também os que nada fazem para combater o regime.
Um dos mais impressionantes relatos sobre o incesto e a violência sexual contra crianças, "Triste Tigre" (Amarcord/Record, R$ 69,90), da francesa Neige Sinno, apresenta o estupro de vulnerável na literatura e trata do trauma da autora, violentada pelo padrasto da infância até a adolescência. Aos 19 anos, depois de denunciar o agressor, processado e preso, ela entendeu que certos crimes recaem sobre as vítimas. Poucos vizinhos continuaram se dirigindo à família.
Finalista do prêmio Jabuti deste ano, Jefferson Tenório volta a abordar o racismo brasileiro em "De onde eles vêm" (Companhia das Letras, R$ 67,90), romance que acompanha a trajetória ficcional de um dos primeiros cotistas em universidade pública brasileira. Joaquim precisa enfrentar toda sorte de dificuldades financeiras e sociais para não desistir da graduação no curso de Letras e superar as críticas silenciosas de professores e colegas quanto à inadequação das políticas que tentam amenizar as desigualdades sociais.
"Diários de Gaza - A memória é uma casa indestrutível" (Tabla, R$ 64,90) reúne textos escritos nos três primeiros meses de ataques a Gaza, dois anos atrás. Médicos, escritores, jornalistas, cineastas, professores, estudantes, artistas relatam suas próprias experiências ou de outros que veem famílias dizimadas no cerco a uma população lentamente exterminada pelo Estado de Israel, sem apontar os culpados pela barbárie. Sobreviver em meio ao caos é o único objetivo dos que se apoiam nos escombros de uma cidade, enquanto enterram seus mortos.
"Ser sustentável" (Pirilampo, R$ 40), traz as contundentes crônicas da jornalista Amelia Gonzalez, publicadas em colunas no portal G1 e em seu blog, que emprestou o título para o livro. Entrevistas notáveis com o pensador Noam Chomsky e a ex-primeira-ministra da Noruega, Gro Brutland, criadora da expressão "desenvolvimento sustentável", também estão entre os deliciosos textos de Amelia, que apresenta as questões ambientais de forma muito pessoal, como se conversasse com o leitor, enquanto adverte para a crise que demoramos tanto para reconhecer e enfrentar.
"Kintsugi" (Rocco, R$ 59,90), da chilena María José Navia, conta a trajetória de uma família fragmentada, simbolizada pelo título da prática japonesa de restaurar peças de cerâmica ou porcelana usando laca e pó de ouro, prata ou platina, evidenciando as rachaduras, que se tornam novos componentes da história do objeto. Os diversos protagonistas revelam, cada qual em um capítulo, os traumas que estruturam uma família despedaçada ao longo de décadas, sem oferecer explicações claras para os motivos de tantas separações sequenciais. O recorte doloroso da silenciosa e reflexiva era da comunicação imediata traz reflexão para o momento em que o cotidiano se sustenta em pequenos acasos efêmeros.
Um surto de violência em uma pequena localidade turística na Patagônia, ocorrido depois da queda de um meteorito que emite energia, provocando delírios e agressividade generalizada são analisados em depoimentos dos sobreviventes por relatórios policiais e recordações pessoais em "O massacre" (Darkside, R$ 69,90), do argentino Luciano Lamberti. Qualquer metáfora com os regimes de força se apequena diante da trama, mais envolvente do que explicações e justificativas para a estupidez que domina a população de menos de cem pessoas. As reflexões depois da conclusão, no entanto, levam às culpas, aos temores, a tudo que se abre mão em prol da sobrevivência frente à violência extrema.
Único livro publicado em vida pela antilhana Françoise Ega, "O tempo da infância" (Todavia, R$ 68,50), traz recordações de sua meninice paupérrima, mas feliz, no início do século XX, em um lugarejo de subsistência básica, onde plantas ornamentais crescem na terra, sem ter as raízes "aprisionadas" em vasos - o que a menina vê pela primeira vez ao visitar parentes na capital da ilha. Em Morne-Rouge, na Martinica, ela aprende francês, deixando de lado o idioma local, antes de deixarem a ilha para viverem na França, onde ela se tornou uma importante militante dos direitos dos migrantes.
Intrigante desde a secreta identidade de seu autor, o youtuber japonês Ukatsu, que só se apresenta de máscara, os dois livros da série "Casas Estranhas" (Intrínseca, R$ 49, cada) têm tramas que poderiam ser transpostas para qualquer cidade grande do planeta. Analisando plantas de edificações cujos cômodos não obedecem a uma lógica arquitetônica, um escritor e seu amigo projetista investigam as histórias de ex-moradores de casas, a pedido, geralmente, de candidatos à compra dos imóveis. As narrativas tornam o leitor participante das pesquisas da dupla, que já venderam mais de 1,8 milhão de exemplares mundo afora.
Solidão em situações-limite salpicam os 18 contos de "O Buraco do Mundo" (Numa, R$ 60), de Maria Sílvia Camargo, até quando o realismo fantástico domina a narrativa. Desigualdade, violência urbana, decisões individuais se sucedem em cenários distintos que escondem rancores e revolta, com protagonistas sufocados pela angústia dos conflitos internos pautados na mesmice da contemporaneidade.
Em "Estrelas errantes" (Rocco, R$ 67,40), Tommy Orange retoma a temática do amordaçamento cultural dos indígenas norte-americanos através dos programas de "reeducação" de crianças, levadas para escolas onde aprendiam valores europeus, incluindo o cristianismo, e os massacres que reduziram as populações nativas de 25 milhões de indivíduos para 2 milhões de pessoas. Indicado ao Booker Prize, o romance mostra o quanto o genocídio das nações indígenas marcou seus descendentes que ainda sofrem toda a sorte de preconceitos, incorporando mais hábitos nocivos da sociedade branca, protestante e anglo-saxã, como o consumismo e o consumo de drogas.
Constrangido em conversar sobre desigualdade social com crianças que desconhecem tal realidade? "O prato vazio" (Ação Editora, R$ 73,90), de Adriana Falcão, com ilustrações de Bruno de Almeida, trata do incômodo tema pelo ponto de vista de um prato, que não vê sentido em estar vazio, nem que alguém sinta fome. Um dos primeiros títulos do recém-criado selo editorial da Ação para a Cidadania, o livro quer discutir questões do momento, entre elas o dilema entre pagar um crediário ou comprar comida, vivido pela mãe de uma menina que questiona se há mais valor na propriedade ou no atendimento às necessidades básicas da sobrevivência.
