Pedra fundamental para o Brasil moderno
Ao resgatar em livro a trajetória de crítico do diretor Linduarte Noronha, o pesquisador Lúcio Vilar relembra a importância do filme 'Aruanda' para a fundação da imagem do Nordeste
Rodrigo Fonseca
Especial para o Correio da Manhã
Disponível para ser visto na íntegra no portal portacurtas.org.br e no YouTube oficial do Centro Técnico do Audiovisual (CTAv), "Aruanda" (1960) costuma ser descrito por pesquisadores entre os filmes que ensinaram o cinema vindo do Nordeste - a região que acaba de ganhar o Globo de Ouro com "O Agente Secreto" - a ser moderno. Isso depois das experiências renovadoras da realidade brasileira de Nelson Pereira dos Santos ("Rio 40 Graus" e "Rio Zona Norte") e Roberto Santos ("O Grande Momento") nas paragens do Sudeste. Pilotada por Linduarte Noronha (1930-2012), a produção - encarada como uma centelha do projeto cinemanovista de Glauber Rocha, Joaquim Pedro de Andrade, Cacá Diegues e cia. - conta a história dos remanescentes de um quilombo, Olho d´Água da Serra do Talhado, em Santana do Sabugi, na Paraíba. Aquele espaço de resistência surgiu em meados do século passado, quando um escravizado já alforriado, o madeireiro Zé Bento, partiu com a família à procura da terra de ninguém. O curta-metragem que lá se fez mostra o cotidiano dos moradores, a partir de jornadas de plantio e feitos de cerâmica. Seu roteiro trazia um componente ficcional, com habitantes da região representando os próprios antepassados, partindo da encenação para promover uma investigação sobre as muitas contradições sociais de populações excluídas pelo Estado. Esta noite, quando o curador e organizador do Fest Aruanda, o documentarista e professor da UFPB Lúcio Vilar, estiver no Estação NET Botafogo, a autografar exemplares de "Luz, Cinefilia... Crítica!", da editora A União, a partir das 19h, centelhas daquele filme seminal ganharão novos holofotes no imaginário poético.
A publicação é um trabalho arqueológico de resgate de memória que reencontra (e revisita) textos publicados por Linduarte entre 1956-1967, como resenhas de títulos de sucesso, até de Hollywood. Clássicos são tema de resenhas de tom poético nesses achados. Vilar fala de Linduarte em filme também. O .doc "O Homem Por Trás do Cinema Novo", previsto para 2026, traz imagens de Serra Talhada, no sertão paraibano. Ali revive-se a rodagem de "Aruanda".
"Linduarte fez a travessia do papel à câmera, como outros grandes nomes que começaram como críticos e se tornaram cineastas — a exemplo de Godard, na França, ou Walter Lima Jr., no Brasil. Sua vivência no cineclubismo e sua condição de crítico de cinema do jornal 'A União' foram fundamentais nessa transição", explica Vilar ao Correio da Manhã. "Com 'Aruanda', ele não apenas filma o sertão, mas inventa uma nova forma de vê-lo: uma linguagem que mistura o real com a ficção, o sol como luz dramática, a crueza como estética. Ele é, de fato, o primeiro que ousou filmar o chamado Brasil profundo - o sertão nordestino - usando o sol como aliado. Com isso, junto com seu fotógrafo, Rucker Vieira, vão gerar uma fotografia e uma narrativa anticanônicas, por excelência, para as convenções do cinema documental até então instituídas. Inaugura, segundo Glauber Rocha, o moderno documentário brasileiro'.
Segundo Vilar, "Aruanda" não é só um filme; é uma revolução visual e conceitual. Em sua juventude, o mago da não ficção Vladimir Carvalho (1935-2024), diretor de "O País de São Saruê" (1971), integrou a equipe desse mítico curta-metragem que promoveu uma revisão crítica da representação do Brasil nas telas.
Num de seus derradeiros depoimentos ao Correio da manhã, Carvalho explicou que "Aruanda" de fato abriu caminhos:
"Penso sempre que a frase 'uma ideia na cabeça e uma câmara na mão', atribuída a Glauber Rocha, nasceu no momento em que o baiano assistiu na salinha do laboratório Líder a primeira cópia do filme ainda quentinha. Saiu dali direto para a máquina de escrever e, de um jorro só, veio o texto consagrador que o 'Caderno B', do 'Jornal do Brasil', publicou. Outros corifeus vieram se juntar ao grito de Glauber. Paulo Emílio, Jean-Claude Bernardet, Alex Viany e outros. Até Celso Furtado foi tocado e mandou exibir o filme no plenário da Sudene, que na época, 1960, era uma espécie de parlamento nordestino".
Vladimir sempre defendeu que "Aruanda" trazia a face de um Brasil profundo, na rudeza de sua luz abrasadora. Nunca mais o nosso cinema, mesmo o de ficção, seria o mesmo depois dele. Tanto que o chamado Cinema Novo acolheu célere a experiência.
"Basta dizer, para frisar o pioneirismo do filme paraibano, que 'Vidas Secas' e 'Deus e o Diabo na Terra do Sol', de três anos depois, seguiriam na picada aberta por Rucker Vieira, o fotógrafo de Linduarte", orgulhava-se Vladimir, definindo a empreitada de Linduarte como sendo uma escola da arte de documentar. "O papel do documentário é o de observador atento e, sobretudo, livre de pré-conceitos, o que equivale a deixar uma janela aberta ao outro. Se você sai de casa já com uma ideia preconcebida em busca de um aval vai se ferrar".
