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O direito de parar

Espetáculo transforma a rotina dos transportes públicos em pergunta sobre quem pode circular pela cidade

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'Paragem' explora, em sua coreografia, movimentos cotidianos das pessoas em deslocamento

Estreia na próxima quinta (8) no Multiuso do Sesc Copacabana, "Paragem", espetáculo inédito de dança contemporânea idealizado por Júlia Fernandez e Luna Leal e que questiona para quem, afinal, as cidades são construídas?

A matéria-prima de "Paragem" é algo que nuinguém considera arte: o trajeto. Caminhar, esperar, embarcar, atravessar, chegar. Ao transformar gestos cotidianos do ato de se deslocar em coreografia, o espetáculo aproxima dança, cidade e cidadania, e trata a mobilidade menos como possibilidade de ir de um ponto a outro e mais como direito que interfere no acesso ao trabalho, à educação, à saúde, à cultura e ao lazer.

Não por acaso, a discussão reencontra uma formulação clássica: o "direito à cidade", conceito cunhado pelo filósofo Henri Lefebvre nos anos 1960 e hoje central em qualquer debate sobre urbanismo e justiça social — a ideia de que a cidade pertence a todos que nela vivem, e não apenas a quem pode pagar por ela.A origem do trabalho remonta a "Central Deriva", projeto concebido para apresentações em plataformas de trem do estado do Rio de Janeiro. "Paragem" é esse material recompensado: as sensações, tensões e contradições de quem usa o transporte público agora ganham outros contornos na cena. Ao longo de sete cenas, a montagem transforma em movimento longos deslocamentos, esperas, barreiras físicas e sociais e as desigualdades no acesso aos diferentes territórios da cidade. Na produção, o corpo funciona ao mesmo tempo como território e instrumento de investigação.

"Em Paragem queremos recriar os estados, remontando histórias cotidianas que deslizam entre memória e esquecimento. Paragem é o sonho de Central Deriva, só que vindo depois. A proposta é enfatizar os estados de suspensão no meio da correria do dia a dia, aquele devaneio que surpreende e te pega no meio da passagem. O projeto de pesquisa começa a partir da nossa experiência nos transportes públicos. O deslocamento entre lugares, os passageiros que frequentam, os sons que preenchem esses espaços se tornam material, referência, para a criação das cenas e das coreografias", comenta Júlia.

A pesquisa procura se aproximar das performances cotidianas para a partir delas enfatizar a dança que já acontece. "A dança contemporânea como intermediária da expressão, que comunica ao espectador sem necessariamente a urgência de uma fala", completa.

A pergunta que organiza a montagem escorrega, cena a cena, para questões maiores. Quem consegue circular livremente? Quais corpos encontram mais barreiras? Quais regiões são mais acessíveis? Quanto da vida se gasta nos trajetos? São os desdobramentos que Luna Leal espera ver chegando ao público."Eu espero que Paragem chegue ao público como uma experiência de encontro e de reconhecimento.

"A cidade é atravessada por todos nós, mas cada corpo experimenta seus deslocamentos de uma maneira diferente. O espetáculo nasce desse olhar para os corpos que circulam, esperam, atravessam, disputam espaço e, por vezes, precisam parar. Paragem coloca em discussão como as desigualdades sociais também determinam quem pode circular, quanto tempo cada pessoa precisa gastar em seus deslocamentos e quais barreiras diferentes corpos encontram pelo caminho", reflete Luna.

Além de Libras e audiodescrição em todas as apresentações, o projeto prevê ações de mobilização e sensibilização voltadas especialmente às pessoas com deficiência — e, o mais raro, transporte para esse público. "Desejo que o espectador seja atravessado pelas questões levantadas, que acesse memórias, texturas, cheiros e sonhos. Paragem é um convite para sonhar", finaliza Luna.

SERVIÇO

PARAGEM

Sesc Copacabana (Rua Domingos Ferreira, 160)

De 8 a 18/10, de quinta-feira a domingo (19h), sábados e domingos (17h)

Ingressos: R$ 40, R$ 36 (conveniados), R$ 31 (conveniado empresário), R$ 28 (sócio Sesc), R$ 20 (meia) e grátis (PCG)