A potência do corpo maduro
Em cartaz no Espaço Tápias, remontagem de 'Cinco Coreógrafos em um Corpo' reúne solos de criadores brasileiros e internacionais
Em cartaz no Espaço Tápias, remontagem de 'Cinco Coreógrafos em um Corpo' reúne solos de criadores brasileiros e internacionais
Vinte anos separam a criação original de "Cinco Coreógrafos em um Corpo" de seu retorno aos palcos. Nesse intervalo, a obra que marcou a trajetória de Flávia Tápias ganhou novos significados — deixou de ser apenas um experimento estético para se tornar um manifesto contra o apagamento do corpo envelhecido nos palcos de dança contemporânea.
A remontagem, que encerra sua temporada neste fim de semana na Sala Maria Thereza Tápias. confronta qestões urgentes sobre etarismo e invisibilidade. Quando Flávia afirma que "existe uma potência no corpo maduro que precisa ser vista e celebrada", ela não está sendo poética — está sendo política.
Criado em 2006 para a bailarina e coreógrafa, o projeto original já trazia uma proposta radical: diferentes olhares coreográficos dialogando com um único corpo. Foram duas versões: uma com cinco coreógrafos brasileiros, outra com cinco criadores internacionais. O resultado consolidou o Grupo Tápias como ponte entre a dança brasileira e os circuitos europeus — especialmente França, Bélgica e Alemanha.
A nova montagem reúne dez solos, cinco nacionais e cinco internacionais, apresentados em composições distintas a cada noite.
Entre os nomes remontados estão criadores de expressão na cena contemporânea. Pol Coussement (Bélgica) com "Light Piece / Copy That", investigação sobre luz e percepção onde o vídeo vira matéria coreográfica. Stéphanie Thiersch (Alemanha) apresenta "Living Room", que tensiona sonho e confinamento em um espaço íntimo. Rami Levi (Israel) traz um solo inspirado em fisicalidade animal. Thomas Lebrun (França) oferece "On ne se connaît pas encore mais", inspirado em Carmen Miranda e suas contradições entre exuberância pública e melancolia.
No eixo nacional, Giselle Tápias (co-diretora do Espaço Tápias) criou "Rede", transformando símbolo cultural brasileiro em dramaturgia corporal. Paulo de Moraes contribui com "Da Família dos Crocodilos", obra de forte densidade que integra o repertório histórico da companhia. Henrique Rodovalho reinterpretou "Semelhante" em 2025, tensionando estrutura musical e liberdade do gesto.
Flávia Tápias estará no palco no dia 28. No dia 29, quem apresentará cinco solos será Letícia Xavier, bailarina de São Gonçalo, descoberta em audição e integrante da companhia desde o projeto "Café Não é Só uma Xícara". O mesmo material coreográfico atravessando corpos de gerações distintas revela transformações, permanências e deslocamentos.
Inaugurado em 2022 na Barra da Tijuca, o Espaço Tápias é um importante núcleo de criação, pesquisa e circulação da dança contemporânea no Brasil. Sob direção de Giselle e Flávia Tápias, nomes reconhecidos nacional e internacionalmente, o centro oferece salas para aulas, ensaios e a Sala Maria Thereza Tápias, dedicada a espetáculos e apresentações. O espaço também acolhe artistas independentes, fomentando ambiente colaborativo de experimentação.
SERVIÇO
CINCO COERÓGRAFOS EM UM CORPO
Sala Maria Thereza Tápias - Espaço Tápias (Av. Armando Lombardi, 175 - 2º andar, Barra da Tijuca)
28 e 29/3, às 19h
Ingressos: R$ 40 e R$ 20 (meia)