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Jordan Peele faz a Tela Quente ferver

Por Rodrigo Fonseca

Os irmãos Emerald (Keke Palmer) e OJ (Daniel Kaluuya) encaram as forças do espaço... e do racismo

Com uma bilheteria estimada em US$ 171 milhões, acumulada ao longo de sua trajetória em cartaz num mundo ainda pandêmico, “Não! Não Olhe!” (“Nope”) é, até hoje, a produção mais cara (cerca de US$ 68 milhões) dirigida pelo ator, produtor, roteirista ganhador do Oscar e cineasta Jordan Peele. Nesta segunda-feira, às 23h15, o longa chega à programação da "Tela Quente", da Globo, oferecendo ao público uma oportunidade de revisitar uma das experiências mais inventivas do cinema de horror recente. É um filme de monstro, numa certa medida. Uma medida crítica ao American Way of Life, política como tudo o que Peele faz. Há um chimpanzé raivoso e destrutivo que, em distintos momentos da narrativa, deixa a plateia enervada. Mas ele é apenas um detalhe de um passado que assombra um dos personagens. Ou não. Mais assustadoras são as criaturas que lembram um ser marinho, uma espécie de caravela, e surgem do espaço, a partir de nuvens carregadas, ameaçando a paz de um rancho e levando para o alto — ou sabe-se lá para onde — os animais de uma dupla de treinadores de cavalos: Emerald (Keke Palmer, em atuação genial) e seu irmão OJ (Daniel Kaluuya, igualmente impecável). Os dois testemunham horrores diversos. Mas nenhum deles sobrepuja a monstruosidade da injúria racial na sociedade americana. Ou seja, estamos diante de uma sociologia do assombro.

Um dos mais precisos cronistas cinematográficos da Era Donald Trump — tão preciso que escolheu o terror como seu gênero de expressão —, o nova-iorquino Jordan Peele fabrica alegorias fazendo da exclusão seu objeto de análise. Seus protagonistas - áses de farto talento das populações pretas dos EUA - estabelecem uma ponte evolutiva com a tradição aberta por George A. Romero em “A Noite dos Mortos-Vivos” (1968). “Corra!” (“Get Out”, 2017), produção de US$ 4,5 milhões cuja bilheteria beirou US$ 255 milhões, deu a ele uma estatueta da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, na categoria de Melhor Roteiro Original. Era um exercício sociológico disfarçado de thriller de horror, no qual denunciava os mecanismos de estruturação do racismo numa América pautada pelo conservadorismo e pela intolerância. Esse estudo das dinâmicas sociais voltou em “Nós” (2019), seu segundo longa-metragem, com uma potência formal amplificada em relação ao sucesso anterior. Custou US$ 20 milhões e faturou cerca de US$ 255 milhões. Sua engenharia sonora era mais refinada, a montagem apresentava maior precisão na cadência do suspense e os sustos eram mais generosos — e arrepiantes.

Universal Pictures - Jordan Peele age nas franjas do terror

Trump deixou a Casa Branca, Joe Biden assumiu a Presidência, a pandemia confinou o mundo, mas o racismo seguiu — e segue — em metástase. Daí a relevância de “Não! Não Olhe!”, que acompanha a evolução formal do realizador e se apresenta, em certa medida, como seu longa mais cinéfilo. Sua inspiração remonta a uma série de fotografias animadas produzidas em 1878, considerada um dos primeiros experimentos de registro de imagens em movimento da História: “Sallie Gardner at a Gallop”. O título faz referência ao nome de um cavalo. Os dois jóqueis retratados são C. Marvin e G. Domm, cavaleiros associados às corridas de Kentucky Derby. Na trama, Emerald reivindica um dos jóqueis como ancestral e menciona a experiência visual do fotógrafo e pioneiro da imagem cinematográfica Eadweard Muybridge (1830-1904), responsável por aquelas fotografias in motion. É uma referência direta à história da representação, à objetificação dos corpos e à invisibilidade histórica da população negra na construção da indústria do entretenimento.

Emerald e OJ costumam ser contratados por estúdios que necessitam de cavalos treinados, mas nem sempre recebem o respeito devido aos profissionais que mantêm viva uma tradição familiar. Prestam serviços também ao parque temático rural de um ex-ator, uma espécie de Beto Carrero chamado Jupe (Steven Yeun, de “Minari”). Ele é a conexão com o chimpanzé mencionado no início desta história, um animal que aparece como signo do descontrole e da violência que irrompe quando a exploração do espetáculo ultrapassa todos os limites. A mesma perda de controle se manifesta quando uma estranha presença alienígena começa a rondar o rancho dos irmãos. Peele articula essas duas experiências de horror, aparentemente distintas, para investigar a relação entre entretenimento, exploração e violência. O que acontece quando a necessidade de transformar tudo em espetáculo se sobrepõe à própria vida?

Na contramão do que se vê aos borbotões no cinema-pipoca, OJ e Emerald não querem matar a criatura extraterrestre. Querem apenas provar que ela existe, registrá-la, incorporá-la à memória de seu mundo. Daí a importância do cinema, representado pela figura de um diretor de fotografia nada convencional, interpretado espetacularmente por Michael Wincott, ator canadense que assombrou os anos 1990 como o vilão de “O Corvo” (1994). Sua câmera é sua verdade. É também uma ferramenta de inclusão, numa narrativa que transforma o próprio ato de filmar em instrumento de resistência. Peele idealizou “Não! Não Olhe!” em reação às crises que o cinema enfrentava desde o boom da Covid-19, mas sua investigação vai muito além da sobrevivência das salas de exibição: trata da necessidade humana de testemunhar, registrar e compartilhar aquilo que parece impossível de acreditar.

Artesão do suspense, Peele usa a música para incitar o medo, como Alfred Hitchcock fazia, põe em xeque aquilo que as imagens mostram, à maneira de Brian De Palma, e sugere em vez de escancarar, numa estratégia que evoca M. Night Shyamalan. Seu objetivo é alimentar nossos fantasmas internos. Há momentos de horror gráfico explícito, arquitetados com eficiência, sem que o diretor precise pesar a mão ou perder o timbre do espanto. Em “Não! Não Olhe!”, o espetáculo é simultaneamente uma promessa e uma armadilha. A criatura que ocupa o céu pode ser a grande atração, mas o verdadeiro monstro está na maneira como uma sociedade transforma a violência em entretenimento e o sofrimento alheio em mercadoria. Agora, enquanto trabalha na concepção de um novo longa-metragem, ainda sem título, Peele reafirma sua posição singular no cinema americano: a de um realizador que usa o horror para olhar de frente aquilo que os Estados Unidos prefeririam não enxergar. A exibição na Tela Quente recupera um filme que, quatro anos depois de sua chegada aos cinemas, permanece assustadoramente atual.