Farofa com gosto da 'Sessão da Tarde' dos anos 1980 e 90
Depois do nado de braçada de Mônica Martelli e Ingrid Guimarães em "Minha Melhor Amiga" - e seus 6 milhões de pagantes -, voltou a se abrir o oceano das possibilidades de sucesso para a comédia nacional, antes represado pelas barreiras das patrulhas ideológicas politicamente castradoras. Não foi só aqui, aliás. A vitória de "Todo Mundo Em Pânico", ao derrotar o modo woke de He-Man no vergonhoso "Mestres do Universo" de Travis Knight, provou que o riso livre e feroz pode ser a maior diversão. Junte a ele o êxito espantoso de "O Diabo Veste Prada 2", ao faturar US$ 693 milhões. O sinal alarmante do momento é: uma filmografia plural como a nossa não pode subsistir com um só blockbuster ao ano, pois isso viria a distorcer o pouco equilíbrio de mercado que temos. Assim, o desafio agora é encontrar outro arrasa-quarteirão e, nesse sentido, o diretor Roberto Santucci é uma grife. Seu nome aparece nove vezes na lista de longas-metragens nacionais com mais de um milhão de espectadores, feita pela Ancine e pelo portal Filme B. Duas dessas inclusões são fruto da cinessérie "Os Farofeiros", gestada por ele à luz da sagacidade irônica de Paulo Cursino, roteirista pole position do país quando o papo é dar lucro.
O primeiro, de 2018, vendeu 2.604.733 entradas; e o segundo, de 2024, levou 1.880.324 cinéfilos a multiplex. A parte 3 - a mais hilária da saga - acaba de chegar. Veio para desopilar os ânimos de um país polarizado, contando com uma direção de arte estonteante, que eleva o prestígio de Fabiana Egrejas.
O humor de "Os Farofeiros" não é pra quem quer... é pra quem pode... rir, livremente, apesar da foice dos patrulhamentos diversos que hoje assombram a gargalhada. Esse terceiro - e mais afetuoso longa da trilogia, sentimental até o limite de não embotar a tiração de sarro - explora melhor o conceito de aliança entre seus personagens. Conceito que parece refletir a conexão de seus criadores, por trás das câmeras (na direção de fotografia marota de Marcelo Brasil).
Unidos durante a feitura do êxito comercial "De Pernas Pro Ar", em 2010, Santucci e Cursino fundaram universos franquiados (sobretudo o ótimo "Até Que A Sorte Nos Separe", que hoje tem um quarto título no forno), consagraram nas telonas estrelas já famosas na TV (o colosso Leandro Hassum, sobretudo) e emplacaram via streaming o filme de Boas Festas mais bem acolhido (e mais encantador) de nosso audiovisual: "Tudo Bem No Natal Que Vem" (2020). Fizeram tudo isso sempre peitando interditos morais, numa estrutura classificada com uma expressão por vezes indigesta na indústria: a "neochanchada".
O termo, cunhado em 2012, refere-se a longas-metragens de humor que retratam as subjetividades das classes que "emergiram" no Brasil (ou seja, ampliaram seu poder de consumo) nos últimos 24 anos, desde a primeira eleição de Lula, invertendo o cogito cartesiano de "Penso, logo, existo" para "Consumo, logo, sou... logo, posso").
A dinâmica consumista, numa bolha de crédito, num engatilhar contínuo do Pix, empoderou quem antes era só um número de CPF. Classes que passaram a ter nome e sobrenome (não do Cerasa, mas no expediente de compra de grandes lojas), pagando sua autonomia individual a crédito, em dezes vezes sem juros, passaram a exigir uma dramaturgia que as singularizasse.
Era preciso um de ficção que desse conta dos perrengues das contas a pagar e dos rearranjos que emergir socialmente assegurava. Cursino e Santucci sacaram essa demanda e satisfizeram com traços de humanismo, dignos do melhor da screwball comedy dos EUA, trocando o cinismo das crônicas de costume por risadas em formato varejão, com heróis do lúmpen... e farofa.
Seu Exército de Brancaleone agora vai para o Caribe, tendo a figura de Rocha como eixo de movimentação, e não só pelo fato de seu intérprete, Charles Paraventi, estar incorporado com os antigos espíritos de Aristófanes, fazendo a gente rachar o bico a cada aparição. Desta vez, Rocha decide bancar o casamento da filha, na ilha caribenha fictícia de San Martinez. Vanete (o cartum humano Elisa Pinheiro, sempre inventiva), sua companheira, parece feliz, mas tem lá suas apreensões. Todo pimpão, o pai casamenteiro convida seus fiéis parceiros de trabalho Alexandre (Antônio Fragoso, num timming impecável), Lima (o pinball vivo Maurício Manfrini, de gogó certeiro) e Diguinho (Nilton Bicudo, o Jerry Lewis do rolê). Chama ainda as consortes respectivas de cada um, Renata (Danielle Winits), Jussara (Cacau Protásio) e Ellen (Aline Campos, a Goldie Hawn do Brasil, mais afiada a cada filme). Vai geral para a celebração, e o melhor: com tudo pago. O cenário é idílico. A previsão do tempo é de sol a granel. Há promessas de praia azul-turquesa, drinks com guarda-chuva, resort de luxo e uma linda cerimônia à beira-mar. Contudo, dado o histórico das férias anteriores do grupo, é recomendada cautela. O voo já é o engasgo que precede o esporro. A montagem de Vicente Kubrusly encontra o frenesi certo.
Por "certo", leia-se uma mistura singular da brasilidade "chanchadística" (à moda Oscarito, Zé Trindade e Grande Otelo) com a "Sessão da tarde" dos anos 1980 e 90, em que a gente via Dan Aycroyd, John Candy e Steve Martin repensarem o sentido da vida... pela dinâmica da amizade. Santucci e Cursino encontraram uma ponte única entre a comicidade (bem) dublada pela BKS, a Herbert Richers e a Telecine com um espírito carnavalesco que constitui essa nação.
Por vezes, o uso de certos termos e representações hoje "cancelados" pode irritar alguns, em parte por Cursino e Santucci operarem nas raias da provocação. Estão bem escudados num elenco em plena covalência, que, unido, ressalta o quanto Danielle Winits virou um reator nuclear de piadas a cada gesto, num amadurecimento - entre o teatro e a telona - que faz dela a Dercy Gonçalves da hora, sem palavrões, na graciosidade de sua graça iluminada.
Rodrigo Fonseca é o crítico de cinema do Correio da Manhã