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Entre areias e telasdo Marrocos

Suntuoso e aberto à reflexão, o festival de Marrakech convoca Marion Cotillard para chefiar seu júri e faz a primeira chamada de vozes autorais para sua grade, incluindo Fellipe Barbosa

Por Rodrigo Fonseca

Gessica Généus em Marie 'Madeleine, Uma Mulher Livre'


Famoso por ter os júris mais estelares de todas as competições cinematográficas, o Festival de Marrakech, no Marrocos, abrirá uma vez mais suas telas para cineastas de verve autoral de 20 a 28 de novembro, a partir de uma comédia pilotada pelo ator Jesse Eisenberg que periga ganhar uma série de Oscars: "A Grande Estreia" ("The Debut"). O riso pontua a abertura da 23ª edição daquela maratona cinéfila anual. Dela constam 76 títulos de 39 países. Um dos destaques da seleção é a presença do brasileiro Fellipe Barbosa, que apresenta "Leila e a Noite" ("Leila et la nuit"), produção inspirada na vida da fotógrafa marroquina Leila Alaoui. O longa, protagonizado por Roschdy Zem e Marina Foïs, terá estreia mundial em mostra de gala.

Na briga por prêmios, o Haiti é uma das promessas, em campo com "Marie Madeleine, Uma Mulher Livre" (“Mary Magdalene), de Gessica Généus, que fez barulho no Festival do Rio, em outubro. Hábil na escrita, na direção e na atuação, sua realizadora, uma haitiana que também atua, arrebatou Cannes, em maio, com este retrato da resiliência feminina. Na cidade de Jacmel, a garota de programa Marie Madeleine (Gessica) vive de forma totalmente livre e marginalizada pelas regras rígidas da sociedade. Quando seus caminhos se cruzam com os de Joseph, um jovem e fervoroso crente evangélico, um laço profundamente intenso e improvável surge entre eles.

Envolvida nas comemorações dos 20 anos de "Piaf - Um Hino Ao Amor", que lhe rendeu um Oscar, em 2008, Marion Cotillard estará na presidência do time de juradas e jurados. A programação está repleta de potenciais sucessos de público e cults, alimentando parte de uma tradição histórica daquele recanto da África árabe, que sempre atiçou o imaginário de grandes estúdios planeta adentro.

O Marrocos cede seu território para sets de filmagem desde 1897, quando emissários dos Irmãos Lumière estiveram por lá. Até o fim da II Guerra muitos filmes estrangeiros foram rodados nos limites de suas fronteiras, especialmente na região de Ouarzazate, embora o título historicamente mais famoso a abordar sua geografia, "Casablanca" (1942), com Humphrey Bogart, seja uma produção captada em estúdios hollywoodianos. Muito do que se fazia lá, com o rótulo de "filme marroquino", era uma xerox do cinemão melodramático do Egito, sem identidade própria. Tudo mudou em 1970, quando o diretor Hamid Benani, hoje com 85 anos, filmou "Wechma" (também chamado de "Traces"), que inaugurou uma estética sintonizada com a cultura daquela pátria. Começou ali uma primavera cinematográfica que fez florescer cults de repercussão internacional como "Les Mille Et Une Mains" (1973), "El Chergui" (1976), o mítico documentário "Trances" (1981), "Amok" (1983), "Badis" (1988), "La Plage Des Enfants Perdus" (1991), "Quand Le Soleil Fait Tomber Les Moineaux" (1999) e "Marock", ímã de aplausos para a diretora Laïla Marrakchi, em Cannes, em 2005. As gerações que brotaram na década de 1970 deram frutos e inspiraram vozes autorais como Maryam Touzani, badalada por "O Caftan Azul", de 2022, e "Calle Málaga", com a espanhola Carmen Maura.


Inaugurado há 24 anos numa iniciativa do Rei Mohammed VI para fomentar intercâmbios culturais, a festa marroquina do cinema se articula com festivais do Cairo, de El Gouna e do Mar Vermelho a fim de mobilizar olhares (e mercados produtores e exibidores) do norte da África e do Oriente Médio. Em 2018, Robert De Niro foi homenageado lá e ganhou uma festa com direito a cupcakes decorados com o seu rosto esculpido no glacê. No ano seguinte, o mesmo se passou com Robert Redford. Em 2025, os mimos foram para Jodie Foster, com direito a uma palestra de Kleber Mendonça Filho na abertura do festival e presença de Karim Aïnouz como jurado.

Nesta 23ª edição, os tributos ainda serão anunciados. Além do filme de Fellipe Barbosa, as seções paralelas de Marrakech recebem John Turturro para badalar "O Último Batedor de Carteiras de Nova York" ("The Only Living Pickpocket in New York"), de Noah Segan, enquanto James Gray, que já presidiu júri lá, retorna ao festival com "Paper Tiger", thriller com elementos de drama familiar. Luca Guadagnino participa com "Artificial", sobre a ascensão de Sam Altman, fundador da OpenAI, interpretado por Andrew Garfield. Também está na seleção "Morangos" ("Strawberries"), de Laïla Marrakchi, escolhido pelo Marrocos para representar o país na corrida ao Oscar.

A mostra Horizontes reúne 21 produções e aposta na diversidade do cinema contemporâneo, com trabalhos de realizadores consagrados como Ryusuke Hamaguchi, Cristian Mungiu, Pawel Pawlikowski, Hirokazu Kore-eda e Nanni Moretti. O programa também abre espaço para produções árabes e africanas, incluindo "Cidadão Osama" ("Citizen Osama"), documentário de Ahmed Hassouna sobre Gaza, "Dao", de Alain Gomis, e "Clarissa", dos irmãos Arie Esiri e Chuko Esiri.

Os 14 filmes da competição oficial:
•"Alkebulan" — Yassine Marco Marroccu — Marrocos, Hungria e Catar.
•"Ben’imana" — Marie-Clémentine Dusabejambo — Ruanda, Gabão, França e Noruega.
•"Sombras do Cairo" ("Cairo Shadows") — Rani Massalha e Salem Massalha — França, Bélgica, Tunísia e Egito.
•"Crônicas dos Anos de Cerco" ("Chronicles from the Siege") — Abdallah Al-Khatib — Argélia, França e Palestina.
•"Garoto do Congo" ("Congo Boy") — Rafiki Fariala — República Centro-Africana, França, República Democrática do Congo e Itália.
•"Um Dia na Vida de Jo: Capítulo Phaedra" ("A Day in the Life of Jo: Chapter Phaedra") — Jacqueline Lentzou — Grécia, Alemanha e França.
•"Eklipse" — Manuel Wetscher — Áustria e Itália.
•"Fúrias" ("Furies") — Rami Kodeih — Líbano e Brasil.
•"A Casa do Vento" ("House of the Wind") — Auguste Bernard Kouemo Yanghu — Camarões, França, Bélgica, Benim, Arábia Saudita e Catar.
•"Marie Madeleine, Uma Mulher Livre" ("Marie Madeleine") — Gessica Généus — Haiti, França, Bélgica, Luxemburgo e Canadá.
•"Nossa Porção de Areia" ("Our Share of Sand") — Shalini Adnani — Reino Unido, Índia e Grécia.
•"Garotas Tristes" ("Sad Girlz") — Fernanda Tovar — México, Espanha e França.
•"Ondas de Silêncio" ("Waves of Silence") — Farzad Samsami — Noruega, Marrocos e Suécia.
•"O Mundo de Antes" ("The World Before") — Yoon Dan-bi — Coreia do Sul, Japão e França.