'Queremos ajudar as pessoas a compreender melhor o mundo'
Rodrigo Fonseca
Especial para o Correio da Manhã
Assim que o papo sobre os 35 anos do Arte (grafa-se, em geral, ARTE) envereda pela natureza televisiva desse conglomerado de mídia, seu diretor, Olivier Père, faz questão de desentubar sua engenhoca de fabricação de narrativas e livrá-la da caixa (antes cúbica, hoje, cada vez mais retangular) da TV. O futuro da teledramaturgia passa, cada vez mais, pela capacidade de existir fora da própria televisão. É essa a estratégia defendida pelo executivo nascido em Marselha e radicado em Paris, que falou sobre meios de comunicação no 17° Festival de Cinema Francês do Brasil. O grupo franco-alemão que mantém presença na telinha, vem ampliando sua atuação digital, com parcerias em diferentes territórios europeus e uma política de distribuição que inclui plataformas, redes sociais e YouTube. Em conversa com o Correio da Manhã, Père fala sobre a disputa pela atenção das novas gerações, a defesa do cinema de autor e a aproximação do Arte com a produção brasileira.
O Arte nasceu de uma cooperação cultural entre França e Alemanha. Hoje, diante das transformações do audiovisual e da concorrência das plataformas, que televisão vocês pretendem construir?
OLIVIER PÈRE - O Arte continua presente nesses dois países, mas desenvolvemos, nos últimos anos, uma oferta digital muito forte, estabelecendo parcerias com diversas televisões europeias. Já alcançamos cinco ou seis territórios e esperamos chegar a outros nos próximos anos. Nossa vocação é mostrar a cultura como algo que aproxima os povos, algo que temos em comum e que desejamos compartilhar. O Arte oferece cinema, documentários, ficção, reportagens e informação. Queremos ajudar as pessoas a compreender melhor o mundo, sua complexidade e suas ambiguidades, inclusive os desafios políticos, geopolíticos e sociais, sem simplificações e sempre procurando trabalhar com nuances. É uma programação concebida e escolhida por pessoas, por uma equipe que deseja compartilhar conhecimento e despertar curiosidade - uma proposta profundamente humanista.
As novas gerações descobrem filmes e conteúdos audiovisuais pelo Instagram, TikTok, YouTube e outras plataformas. Como uma emissora cultural pode alcançar esse público sem perder identidade?
É por isso que já não pensamos no Arte apenas como um canal de TV. Nosso objetivo é distribuir nossos programas de maneira mais ampla, não apenas em uma tela de televisão, mas também nas plataformas digitais, nas redes sociais e no YouTube, onde temos nosso próprio canal. Sabemos que o público da televisão é hoje formado, em grande parte, por pessoas mais velhas, de 50, 60 ou 70 anos. É mais difícil atrair os jovens para esse meio. Por isso, precisamos estar presentes nos outros suportes de imagem e, algumas vezes, adaptar os programas aos formatos dessas plataformas. É uma maneira de encontrar novas audiências e ampliar nosso público. Também adquirimos direitos para disponibilizar filmes legalmente no YouTube. Assim, podemos apresentar obras de autor, filmes antigos, raros ou muito radicais a uma geração que talvez nunca os procurasse na televisão.
O Brasil vem ganhando espaço nas coproduções internacionais do canal. Como o senhor avalia essa aproximação?
Temos desenvolvido relações muito fortes com produtores e realizadores brasileiros nos últimos anos. Tivemos a oportunidade de apoiar filmes importantes de Kleber Mendonça Filho, como "Bacurau" e "O Agente Secreto", além de "Ainda Estou Aqui", de Walter Salles. Também estamos envolvidos em novos projetos brasileiros. Assumimos um compromisso com o próximo filme de Maya Da-Rin, "Chanson de nuit", cuja filmagem começa na próxima semana, e com o primeiro longa-metragem de animação de Wesley Rodrigues, "O Reino dos Pássaros". Essa aproximação tem relação com acontecimentos importantes da história política e social brasileira. São cineastas que mantêm uma relação forte com seu país e com o presente. Isso nos interessa.
O Arte também tem uma tradição de apoio ao cinema de autor, inclusive a realizadores que, no começo da carreira, dificilmente encontrariam espaço em outras emissoras. Essa ainda é uma missão central?
Quando o Arte foi criado, tornou-se rapidamente parceiro do cinema de autor. Naquela época, a emissora era pequena e não tinha ambições comerciais. Não precisávamos procurar apenas filmes que tivessem potencial de sucesso. Isso nos permitiu apoiar autores muito jovens ou radicais, que construíram parte de suas trajetórias em colaboração conosco. Bruno Dumont é um exemplo: naquele momento, o Arte era praticamente a única emissora que poderia apoiar um cinema tão radical, porque as outras não se interessavam por esse tipo de trabalho. Participamos do nascimento de grandes cineastas e continuamos atentos tanto aos realizadores consagrados quanto aos que estão começando. Acompanhamos, por exemplo, a geração de Céline Sciamma e hoje procuramos descobrir novas vozes. Damos importância aos primeiros filmes, na França e em outros países.
A parceria com Ryusuke Hamaguchi em "O Sentido da Vida", exibido na Mostra de SP e hoje presente no Festival do Cinema Francês é outro exemplo dessa vocação internacional. Como se deu a parceria com esse artesão autoral japonês?
Conhecemos Hamaguchi como um dos grandes nomes do cinema japonês contemporâneo, especialmente depois de "Drive My Car". Ele teve a ideia de contar uma história sobre duas mulheres, um diálogo filosófico e uma amizade em torno de temas fundamentais, como a vida e a morte. Uma produtora francesa, a Cine France, já vinha trabalhando com a proposta de trazer realizadores japoneses para filmar na França. A empresa havia produzido filmes de outros cineastas japoneses no país e apresentou a possibilidade a Hamaguchi. Ele decidiu desenvolver a história na França. Quando li o roteiro, achei-o muito forte. Havia um risco: um grande realizador poderia sentir-se deslocado trabalhando em outro país e numa língua que não é a sua, sobretudo porque a palavra e o diálogo são muito importantes em seu cinema. Mas essa relação entre Japão e França já estava incorporada à própria história, que aproxima uma mulher francesa e uma japonesa. Foi exibido em Cannes e teve uma recepção muito positiva.
O que o público pode esperar do Arte em 2027? Há novos projetos e iniciativas para os próximos anos?
Já estamos comprometidos com filmes que poderão ser lançados no próximo ano e exibidos em festivais como Berlim, Cannes e Veneza. Acredito que teremos trabalhos extraordinários. Estamos aguardando os novos filmes de Miguel Gomes, Albert Serra, Bertrand Bonello e de vários outros grandes realizadores, além de projetos de cineastas mais jovens que certamente vão surgir. Acho que será um ano muito forte para o cinema da Arte e para o cinema mundial. Nos próximos anos, também vamos preparar o aniversário de 35 anos e desenvolver ainda mais iniciativas para acompanhar os artistas, dialogar com eles e encontrar o público.