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Da vida para as telas

Nova produção Disney Brasil, '100 Dias' traz Filipe Bragança na pele do navegador Amyr Klink, que atravessou o Atlântico Sul em um barco a remo

Por PEDRO SOBREIRO

'100 dias' narra a saga do navegador Amyr Klink e sua corajosa e revolucionária travessia do Atlântico Sul, em 1984; Um feito que ninguém havia conseguido antes

O Brasil tem muitos heróis anônimos. Pessoas normais com feitos extraordinários que, seja por falta de divulgação, seja pela incômoda e persistente síndrome de vira-latas, parecem não obter o merecido reconhecimento. Com direção do consagrado Carlos Saldanha, o longa "100 Dias" chega aos cinemas para contar a história de Amyr Klink, o navegador amador que atendeu ao chamado da aventura e se lançou mar adentro, tornando-se o primeiro ser humano a atravessar o Atlântico Sul em um barco a remo, partindo da Namíbia, na África, até a Bahia.

A aventura de Amyr é de 1984. Desde então, o navegador entrou de corpo e alma neste universo, sendo tratado como referência de navegação mundo afora. Seu livro, "Cem Dias entre o Céu e o Mar", tornou-se best-seller e serviu como inspiração para o roteiro de Elena Soárez e Thais Tavares, que deram foco aos dilemas pessoais e familiares de Amyr Klink, além dos desafios físicos e logísticos que assombraram e motivaram o navegador durante os 100 dias em alto-mar.

A convite da Disney Brasil, o Correio da Manhã conversou com o diretor do filme, Carlos Saldanha, e com integrantes do elenco, como Filipe Bragança, que interpreta Amyr; Felipe Camargo, que deu vida ao pai de Amyr, Jamil; e a estrela internacional Philippine Leroy-Beaulieu, que interpretou, em português, a mãe do protagonista, Asa Frieberg Klink.

Fabio Braga/Pivô Audiovisual - Amyr (Filipe Bragança) teve na mãe Asa (Philippine Leroy-Beaulieu) sua mais importante parceira no projeto

Para Saldanha, criador e diretor de projetos que exaltam e propagam a cultura brasileira mundo afora - a animação "Rio" (2011) e a série "How to Be a Carioca" (2023) - a ideia de "100 Dias" era realmente contar essa história fantástica de um grande feito nacional. Para ele, se o cinema americano pode faz isso com frequência, por que o cinema brasileiro deve fechar os olhos para grandes personagens da vida real?

"Este filme me desperta o lado emocional de poder trazer para as telas a garra de um brasileiro que realizou um feito único há muito tempo. Consumimos muito do que vem de fora, dos filmes de outros países, mas não olhamos para dentro", argumenta o realizador. "Moro há 35 anos fora do Brasil e, quando fiz 'Rio' e outros filmes, sempre tive vontade de mostrar que existem histórias interessantes vindas do Brasil, sem perder nossa identidade: histórias universais com temáticas brasileiras, daquelas que você não precisa ser brasileiro para se identificar. Acho que esta é uma delas", destaca.

Fabio Braga/Pivô Audiovisual - Carlos Saldanha e a réplica do Paraty no set de filmagens: interesse em destacar personagens brasileiros e suas histórias

Saldanha também abriu o coração sobre a maneira como o filme dialogou com ele em nível pessoal. "A parte com que mais me identifico nesta história são as travessias, as travessias de vida. As decisões que você toma puxam você para um extremo que, às vezes, você não estava esperando. Fiz a minha travessia para Nova York quando decidi estudar cinema e animação, e é uma travessia difícil: você passa por vários obstáculos ao longo do caminho. Fazer este projeto também foi uma travessia em si: demorou 3 mil dias para ser concluído. Mas acho que faz parte do nosso processo de vida, do crescimento, buscar sempre novas travessias, como Amyr fez", afirmou.

100 dias sozinho no mar

Um dos grandes desafios do filme, que se passa 90% no mar, com Amyr tendo de lidar com as dificuldades do oceano, foi contar essa história de forma que a trama não ficasse repetitiva e enfadonha. Para Saldanha, o grande mérito está no roteiro, que foi trabalhado por anos. "Quando planejamos o roteiro, trabalhamos muito. Foram dois anos fazendo esse roteiro, com a missão de criar o arco emocional da história do personagem dentro do contexto da própria viagem. Cada cena foi pensada assim. Não é só uma cena de baleia: é uma cena de baleia que tem um aprendizado. Não é só a cena do tubarão. Os ensinamentos, os aprendizados emocionais de cada momento que ele passa estão lá", explica.

Adriano Vozoni/Pivô Audiovisual - Filipe Bragança precisou dominar técnicas de remo em mar aberto para representar o navegador

O ator Filipe Bragança, que deu vida a Amyr Klink, exaltou a decupagem do filme como recurso para evitar as repetições na trama. "Foi um processo bem minucioso. Grande parte das rubricas do roteiro era 'Amyr rema': 'Amyr rema cansado', 'Amyr rema alegre', 'Amyr rema virtuoso', 'Amyr rema, rema, rema'. Poderia ser um filme bastante repetitivo, e eu não acho que seja, sendo muito sincero. Às vezes, a repetição em um filme ou em qualquer outra obra pode ser uma virtude, mas, neste caso, não ficou enfadonho", conta. "Entendi exatamente qual era a travessia interior do personagem e consegui defini-la a partir de cada um dos momentos pessoais dele, com muita delicadeza, dando a cada um o seu universo particular", pontua ao ator.

Bragança teve, ainda, a oportunidade de conhecer o próprio Amyr Klink. Para ele, essas interações ajudaram a entender melhor quem era o personagem e permitiram que ele fizesse a melhor interpretação possível, sem parecer uma imitação. "A relação foi excelente. Amyr não interferiu criativamente no filme, mas estava sempre presente e muito disposto, com muita generosidade e gentileza, a responder todas as minhas perguntas e tirar todas as minhas dúvidas. Tivemos, desde o início, uma relação de troca muito proveitosa para mim, porque ele era a referência que eu tinha para interpretar o personagem", diz. "Meu trabalho não é uma imitação de Amyr, mas sim uma interpretação desse personagem neste roteiro específico. Precisei observá-lo muito para entender como ele falava, como era o sotaque, como se comportava. Ele tem um tom de voz e um sotaque, e foi muito importante tê-lo ali, inclusive para me ensinar algumas coisas: como fazia os cálculos, como entendia onde estava na carta náutica, como funcionava o sextante. Tudo isso contribuiu muito para a minha performance. Foi uma pesquisa muito complexa", comemora Bragança.

De Paris a Paraty

Estrela do fenômeno mundial do streaming "Emily em Paris", a atriz francesa Philippine Leroy-Beaulieu rouba a cena no filme atuando em português, em um trabalho impecável, para dar vida à mãe de Amyr, Asa Klink. O desempenho foi tão impressionante que chegou a emocionar o navegador, que disse ter revisto, em cena, a própria família. "Me emociona muito saber que ele (Amyr) gostou, porque eu sentia muita responsabilidade. Teve um dia em que ele veio visitar o set, e eu estava lá, mas não quis encontrá-lo, porque tinha um pouco de medo da reação que ele poderia ter. É muito sensível interpretar uma mãe, principalmente uma mãe que tinha esse papel especial na vida dele. É um papel bonito. Retrata uma mãe com um amor muito generoso, altruísta, profundo", defende.

Fabio Braga/Pivô Audiovisual - Bastidores de cena filmada em estúdio, reproduzinbdo condições adversas do mar

No filme, Asa é retratada como um farol na viagem de Amyr, que mantém a comunicação via rádio com a matriarca, que acompanha sua jornada diretamente de Paraty. Para Philippine, esse papel foi interessante porque deu a ela a chance de interpretar uma mãe que reconheceu e respeitou o objetivo de um filho, mesmo sabendo dos riscos que envolviam essa viagem.

"Acho que a mãe é um farol para Amyr, sim, mas também é ela que diz para ele: 'Vai se encontrar, meu filho! Você não vai ficar aqui, na sombra do pai, a quem eu amo, mas que tem tantos problemas. Você tem que ir'. E ela sabe disso, mesmo tendo muito medo. Claro que é difícil para ela, mas gostei muito dessa mãe. Ela me ensinou muito também", afirma.

Já Felipe Camargo, no papel do pai de Amyr, tem uma função narrativa interessante. Ele é retratado como um antagonista, mas, conforme a trama avança, é possível ver que Amyr tem muitas semelhanças com o patriarca. Para o ator, seu trabalho fala de um amor mal traduzido pelas relações humanas. "Conversamos muito sobre o amor, um amor louco, até mágico, e mal traduzido. Acho que tudo o que Jamil queria era ajoelhar aos pés do filho e falar: 'Não faça isso, não vá!'. E ele brigava, enfraquecia o filho dizendo que não ia conseguir, que ele não sabia nadar. Só que teve um efeito inverso, porque, quando um cara quer muito uma coisa, quanto mais alguém diz para não fazer, mais isso o fortalece. Ele é uma pessoa inteligente e, ao fazer algo com muita determinação, se prepara muito para a viagem. Quanto mais ele ouvia isso do pai, mais sabia que ia conseguir. Eram esses dois motores diferentes que estavam ali o tempo todo com ele: um anjo, quase uma Ave Maria, na figura da mãe acolhedora, e o pai, naquela coisa de ser durão. Ele se liberta dos dois e vai para a vida", reflete.

Philippine revelou também que as cenas da família, que se passam em Paraty, foram as primeiras a serem gravadas, e que isso foi uma estratégia de Carlos Saldanha para que Bragança pudesse fazer as cenas de estúdio e as de alto-mar tendo em mente a imagem da família e da saudade.

"Começamos com todas as cenas da família. Então, quando Filipe ficou sozinho, teria essa primeira parte da filmagem com a família, porque depois teria essa memória. Ele podia nos carregar com ele para as filmagens no barco. Foi uma escolha muito inteligente do Carlos, que lhe deu a oportunidade de carregar na cabeça e no coração tudo o que tinha vivido com a gente em Paraty. Acho que isso foi muito lindo para ele", diz.