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Corpo celeste

Aclamado na Europa e em Hollywood pela habilidade de desafiar padrões, Denis Ménochet enfrenta dilemas éticos no thriller político 'Júpiter', sensação de Festival de Cinema Francês

Por Rodrigo Fonseca - Especial para o Correio da Manhã

Ménochet, aos 50 anos, encarna o líder político da França

"Todo corpo tem vez" é o lema a que Denis Ménochet, um dos atores franceses de visibilidade mais cosmopolita no cinema nas duas últimas décadas, agarrou-se ao desafiar a gordofobia e o algoritmo de beleza padrão, sem esconder o abdome sarado à custa de vinho e cerveja. Aos 50 anos, ele se esquiva do arquétipo do bonachão de cintura GG a que o cinema popular costuma confinar quem pesa mais de cem quilos e empresta carisma a anti-heróis e vilões plurais. Em "Júpiter", thriller político de Alexandre Smia que integra a programação do Festival de Cinema Francês, o ator troca o campo de batalha das relações humanas pelo bunker antinuclear de onde pode partir uma ordem capaz de mudar o destino da humanidade.

No filme, selecionado para a programação do Festival de Veneza, Ménochet interpreta Paul Archambault, presidente recém-eleito da França convocado ao Posto de Comando Júpiter, instalado sob o Palácio do Eliseu. O país enfrenta uma crise internacional depois que o presidente russo sobrevive a uma tentativa de assassinato, atribui o atentado aos ucranianos e ameaça retaliar. Sob pressão dos Estados Unidos, Archambault precisa decidir como reagir à escalada militar, cercado por conselheiros políticos e militares e pela perspectiva de uma catástrofe nuclear.

O título remete a um lugar real, revestido de uma aura quase mitológica, onde o chefe de Estado francês pode tomar, em absoluto sigilo, decisões de segurança nacional. Alexandre Smia, que assina o roteiro com Thomas Finkielkraut, quis explorar a tensão desse espaço fechado sem abrir mão do realismo. Segundo o diretor, num comunicado oficial no site de Veneza, "não é apenas um filme-catástrofe, mas uma investigação sobre o significado de ter nas próprias mãos o poder de destruir o mundo".

Divulgação - O jovem Ménochet com Christoph Waltz na icônica abertura de 'Bastardos Inglórios', de 2009

A escolha de Ménochet para encarnar o presidente dá ao suspense uma dimensão humana. O ator tem o dom de transformar a tensão em matéria física, fazendo com que o espectador perceba as fissuras de um personagem mesmo quando ele tenta preservar a aparência de controle. Foi assim em "Bastardos Inglórios" (2009), de Quentin Tarantino, no qual sua atuação como o fazendeiro francês Perrier LaPadite, submetido a um interrogatório nazista, converteu uma longa sequência de diálogo numa demonstração de suspense e terror. Também foi assim em "As Bestas" (2012), de Rodrigo Sorogoyen, drama que lhe rendeu o Goya de Melhor Ator e o colocou diante de um homem acuado pela hostilidade da comunidade onde tenta se recriar.

"Antes de tudo, vem a parceria com grandes colegas e a possibilidade de dimensionar as formas como posso me encaixar na pesquisa que diretores e elenco fazem da cena", disse Ménochet ao Correio Da Manhã, em Paris, ao refletir sobre seu trabalho. "Virei ator sem nunca ter feito teatro, de uma maneira inusitada. Fui a uma banca comprar seda para enrolar um baseado e vi um anúncio de um curso de interpretação. Fui lá, fiquei e acabei fazendo 'Bastardos Inglórios'", recordou.

Divulgação - O ator encarou a gordofobia de fernte nas cenas de nudez de 'Peter von Kant', de 2022

Depois da experiência com Tarantino, vieram papéis em produções de diferentes dimensões e linguagens, incluindo "Peter von Kant" (2022), de François Ozon, e "Beau Tem Medo" (2023), de Ari Aster, no qual contracenou com Joaquin Phoenix. "Logo depois do período mais crônico da pandemia, passei 11 meses da minha vida acordando e dormindo com as palavras 'ação' e 'corta' no ouvido. A solução foi se retirar por algum tempo para uma casa na Bretanha, na companhia de dois golden retrievers. O descanso não durou muito. Mas logo retomei o trabalho. Não dá para parar", disse Ménochet ao Correio em Berlim.

Esse artista polífico também tem uma relação direta com a questão dos padrões físicos impostos pelo audiovisual. Ao aparecer nu em "Peter von Kant", tomou consciência de detalhes do próprio corpo que nunca havia observado daquela maneira. "Quando me vi sem roupa, tomei um susto, pois nunca tinha visto o quanto a minha bunda estava grande. Apesar disso, estou nas telas. Todo corpo tem vez." Para ele, a continuidade do trabalho depende menos da adequação a um modelo corporal do que da confiança e da capacidade de oferecer algo singular às personagens. "Boas coisas entraram em convergência na minha vida por eu ter confiança em mim e por agir como um skatista que se lança numa rampa em busca do movimento perfeito, mas curtindo o movimento. No fim das contas, o cinema é uma fogueira que acende toda a indústria cultural pop que nos cerca. É bacana saber que a gente tem diversidade."

O ator destaca a pluralidade de cineastas e modelos de produção como uma das forças do país, citando François Ozon e Céline Sciamma. Em "Júpiter", essa diversidade de olhares desemboca numa questão política que dispensa respostas fáceis: como decidir quando qualquer escolha pode precipitar uma tragédia? Ao colocar Ménochet diante de um cenário em que a autoridade presidencial se confunde com a responsabilidade sobre milhões de vidas, Alexandre Smia transforma um thriller de tensão nuclear numa reflexão sobre poder, medo e os limites da ação humana. O filme tem sessões no Festival de Cinema Francês no Rio de Janeiro nesta sexta-feira, 30 de outubro, às 16h05, no Estação Claro Rio; no sábado, 31, às 15h25, no Estação Claro Gávea; e no domingo, 1º de novembro, às 15h45, novamente no Estação Claro Rio.

Num outro terreno político, a sororidade, o Festival de Cinema Francês brinda plateias brasileiras neste fim de semana com "A Casa das Mulheres" ("La Maison Des Femmes"), de Melisa Godet. Longa-metragem de estreia da escritora do romance "Les Augustines" na direção. Karin Viard e Latetita Dosch são parceiras valiosas em sua entrada no cinema. Ela narra o dia de um lar de acolhimento onde cuidam-se mulheres vítimas de violência. Se em outros lugares elas são ameaçadas, agredidas, violadas, mutiladas e têm o seu sofrimento ignorado, naquele espaço são ouvidas, apoiadas, ajudadas e acreditadas. Um time de profissionais irá ampará-las até que possam se reerguer, em equipe, mesmo que isso signifique arriscar o próprio equilíbrio pessoal. Tem sessões dele nesta sexta, no CineCarioca José Wilker, às 14h20; no Estação Claro Rio, às 14h; e no Kinoplex Leblon, às 18h. Domingo, essa pepita tem projeção às 15h50, no José Wilker. Segunda, às 15h55, ele passa no complexo da Voluntários da Pátria 35. É uma aula de inclusão.