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Primeira chamada para o Oscar 2027

Hits estrangeiros como o drama franco-japonês 'O Sentido da Vida' e o épico espanhol 'A Bola Preta' podem ocupar espaços antes destinados aos EUA, que ataca com ode a Stallone

Por Rodrigo Fonseca - Especial para o Correio da Manhã

Tao Okamoto e a belga Virginie Efira no delicado 'O Sentido da Vida'

Sucessaço na Mostra de São Paulo, com sessões lotadas de cabo a rabo, "O Sentido da Vida" ("Soudain"), de Ryusuke Hamaguchi, terá sessão no Rio nesta sexta-feira (30), às 18h30, no Festival de Cinema Francês - embora seja parcialmente japonês -, atraindo olhares cariocas para um possível candidato ao Oscar em múltiplas frentes. Está chegando a temporada de premiações que rondam a festa da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood e o nome de Hamaguchi, assim como o de suas estrelas, Virginie Efira e Tao Okamoto, disparam na lista de especulações.

Um título já é dado como concorrente inefável na competição de 2027, que será realizada em 14 de março, no Dolby Theatre, em Los Angeles, mas anuncia seu rol de candidatos em 21 de janeiro: "A Odisseia" ("The Odissey"), Christopher Nolan. Com sua receita de US$ 1,8 bilhão, o diretor de "Oppenheimer" (2023) já é tratado com uma presença inquestionável, assim como duas de suas estrelas, Anne Hathaway e John Leguizamo, apostas quentes para as categorias de coadjuvantes. Há um desenho, contudo, que chama atenção nas previsões já em curso nas redes sociais, em portais especializados como o site Awards Daily: a presença expressiva (como jamais se viu) de artistas não anglo-saxônicos em categorias que antes o Oscar dominava.

O drama existencialista com Efira é um caso. Ela e Tao Okamoto dividiram o prêmio de Melhor Atriz em Cannes quando "O Sentido da Vida" passou lá, firmando-se como um ensaio multicultural sobre solidariedade. Na trama, Marie-Lou Fontaine (Efira), diretora de uma casa de repouso nos arredores de Paris, desafia as convenções ao adotar o método "Humanitude", apesar da resistência de sua equipe. Seu encontro com Mari Morisaki (Tao), uma dramaturga japonesa em estado terminal, muda a sua vida. Juntas, elas fazem da instituição um símbolo de resistência, numa narrativa envolvente do diretor de "Drive My Car", Oscar de Melhor Filme Internacional em 2022, hoje na MUBI.

Naquele ano, Hamaguchi concorreu ainda às estatuetas de Melhor Realização e de Roteiro Adaptado. Estima-se que pode voltar a concorrer, entre os cineastas - ao lado de figuras pop como Olivia Wilde, super badalada por "O Convite" - e entre os roteiristas.

Outro experimento autoral asiático que pode entrar na briga por roteiro, direção e atriz (via Jeon Do-yeon) é "Amor Possível" ("Possible Love"). Programado para estrear na Netflix no dia 6 de novembro, o exercício narrativo mais recente do artesão autoral sul-coreano Lee Chang-dong acompanha as relações entre dois casais que seguem caminhos sociais distintos e precisam lidar com desejos até então ocultos. Mi-ok (Jeon Do-yeon) leva uma vida modesta ao lado do marido desempregado, Ho-seok (Sul Kyung-gu), e do filho pequeno, Cheol. Um funeral, porém, coloca a família no caminho de Ye-ji (Cho Yeo-jeong), documentarista dedicada a registrar a realidade de trabalhadores demitidos, e de seu marido, Sang-woo (Zo In-sung), cuja vida abastada contrasta radicalmente com a deles. Quando Mi-ok aceita participar das filmagens do documentário, aproxima-se de Ye-ji e começa também a sentir uma desconfortável atração pelo indecifrável Sang-woo. Os mundos dos dois casais começam a se misturar, expondo fissuras afetivas.

Divulgação - Penélope Cruz é uma das apostas ao prêmio de coadjuvante por 'A Bola Preta'

Atração de abertura do Festival do Rio, o trator espanhol "A Bola Preta" ("La Bola Negra") pode ser o maior rival da safra indie dos EUA e para medalhões dos grandes estúdios estadunidenses na corrida pelas láureas de Hollywood. Este épico queer sobre três homens, em fases distintas da História espanhola, avassalados pela homofobia, venceu o People's Choice Award de Toronto, em setembro. A espetacular atuação de Penélope Cruz pode fazer dela a Melhor Coadjuvante, isso se o colegiado votante da Academia não cismar em indicar Glenn Close também. As duas vivem forças femininas (uma líder de bordel e a outra, uma teórica de Literatura) que abraçam a causa gay, numa viagem histórica que lapida a estética de Los Javis, os diretores Javier Ambrossi e Javier Calvo. Os dois devem ser indicados, aos prêmios de Direção e Roteiro Adaptado. O longa deles tem tudo para concorrer em frentes como Fotografia, Montagem, Som e Direção de Arte.

Uma outra surpresa que se espera da Academia, em 2027, é a presença de um documentário na lista de concorrentes de Melhor Filme: "Tudo Pode Ser Visto" ("You Can See Everything"), documentário de Nathan Fielder e Lance Oppenheim, produzido pela A24. Com uma receita estimada em US$ 50 milhões, o longa, de não ficção, acompanha os últimos dias de liberdade de Elizabeth Holmes, fundadora da empresa Theranos, condenada por fraude após prometer revolucionar os exames clínicos com uma tecnologia capaz de realizar testes a partir de uma única gota de sangue. Estreia aqui em 28 de novembro.

Claire Folger/Diamond Films - Anthony Impollito impressiona como o jovem Stallone em 'Eu Sou O Rocky'

Há de surpreender também a carreira de "Eu Sou O Rocky" ("I Play Rocky), de Peter Farrelly (de "Green Book - O Guia"), centrado no calvário de Sylvester Stallone para tirar do papel a saga do Garanhão da Filadélfia, há 50 anos. Com estreia no Brasil prevista para 19 de novembro, esse drama cinéfilo pode oscarizar Anthony Ippolito por sua atuação como o jovem Sly (apelido do eterno Balboa).

Sobre o nosso representante oficial, "Feito Pipa": o longa de Allan Deberton, sobre um craque de futebol mirim queer às voltas com a demências de sua amada avó, pode ser visto até quarta no Odeon, em duas projeções diárias, às 16h30 e às 19h. Há como encontra-lo ainda em pré-estreias no CineCarioca José Wilker e no UCI New York.