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Allan Deberton: 'Família não é uma estrutura natural e acabada; é uma construção diária'

Por Rodrigo Fonseca - Especial para o Correio da Manhã

O diretor Allan Deberton e Yuri Gomes no set de filmagens de 'Feito Pipa

Se você não aguenta de ansiedade para entender por que a Academia Brasileira de Cinema escolheu "Feito Pipa" para representar o Brasil na briga por uma vaga no Oscar, há dois jeitos de abrandar (logo) esse coração, já que a estreia dessa joia ficou para o próximo dia 5. Solução nº 1: estar às 17h, no CineSesc, para conferir a passagem desse rolo-compressor afetivo pela Mostra de São Paulo, que encerra nesta quinta a sua 50ª edição. Solução nº 2: às 21h, desta noite, o filme de Allan Deberton será exibido no Odeon, marcando a reabertura da sala de projeção mais tradicional da cidade. Até o dia 4 de novembro, esse bem-humorado drama familiar, pop como uma boa "Sessão da Tarde", vai ocupar o gigante audiovisual da Cinelândia, com duas sessões diárias (às 16h30 e às 19h) a um precinho camarada de R$ 12.

Empenhado em desbravar mundos, até chegar ao coração da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, o longa-metragem, chamado lá fora de "Gugu's World", abriu seus trabalhos em fevereiro, na Berlinale, onde conquistou o Urso de Cristal, concedido pelo Júri Infantil Generation Kplus, e o Grand Prix do Júri Internacional da Mostra Generation Kplus. No Brasil, "Feito Pipa" recebeu Kikitos de Melhor Direção, Melhor Atriz (Teca Pereira) e Melhor Ator Coadjuvante (Lázaro Ramos), menção honrosa para o astro mirim Yuri Gomes e a láurea do Júri Popular.

No mercado internacional, o longa tem vendas conduzidas pela M-Appeal, com acordos de distribuição na Dinamarca, Bélgica, Indonésia, Holanda, Espanha, Argentina e Colômbia.

Yuri é Gugu, um craque de bola, órfão de mãe, cuja identificação com a cultura queer gera homofobia em um ou outro coleguinha de escola, o que ele enfrenta à força de dribles memoráveis e na coragem de se afirmar. No geral, é querido em seu colégio. Mais querido ainda ele é por Dilma, sua avó, vivida por Teca Pereira, com quem mora, numa felicidade das mais plenas. Essa alegria só muda quando Dilma dá sinais de demência, o que obriga o menino a ir morar com seu pai, um caminhoneiro nada tolerante (Lázaro Ramos).

Premiadíssimo na década passada por "Pacarrete" (2019), Deberton, um símbolo da força estética do Ceará nas telas, parou uns minutinhos o processo de promoção internacional de "Feito Pipa" para explicar como fez dele a maior diversão. Na entrevista a seguir, ele ainda adianta ao Correio da Manhã detalhes de seu próximo longa, já no forno.

"Feito Pipa" tem ganhado corações pelo mundo e, no Brasil, vai reabrir o Odeon. O que há de simbólico nessa missão? O que significa passar na mais antiga e histórica casa de exibição do Rio? Em paralelo, o que a Mostra te dá?

Allan Deberton - É maravilhoso que o Gugu, com toda a sua irreverência, esteja na abertura de uma sala tão importante para o cinema brasileiro! O Odeon faz parte da nossa memória afetiva. Na Mostra de São Paulo , nossa estreia foi linda, muito emocionante, com cinema lotado! Depois de tantas viagens, estou muito feliz de finalmente compartilhar "Feito Pipa" com o público de casa e, sobretudo, de ouvir o que ele vai provocar aqui.

"Feito Pipa" foi escolhido pela Academia Brasileira de Cinema para representar o Brasil na corrida pelo Oscar. A partir dessa escolha começa outra batalha, que envolve campanha, exibições, conversas com votantes e a construção de visibilidade internacional. Qual é a estratégia que vocês desenharam para fazer o filme - cujo título lá fora é "Gugu's World" - circular entre os membros da Academia de Hollywood e o que você acha que ele tem de particular para se destacar numa disputa com produções de dezenas de países?

Estamos fazendo uma campanha intensa para que o filme seja visto. Temos uma equipe nos Estados Unidos, sessões em Los Angeles e Nova York, encontros com votantes, imprensa e muitas conversas. O nosso argumento: "Feito Pipa" é um filme com personalidade, humor, emoção e coragem para tratar de assuntos difíceis sem transformar tudo em discurso. O que mais nos anima é ver as pessoas saírem da sessão querendo conversar. A campanha serve para criar esses encontros e ampliar essa conversa. É uma experiência nova e muito intensa, mas estamos ocupando cada espaço possível e torcendo muito.

A carreira internacional do filme começou com uma consagração na Berlinale; passou por Gramado, onde recebeu cinco prêmios; ampliou seu prestígio no Festival do Rio; e busca os holofotes finais da Mostra de São Paulo - que termina hoje - antes da corrida pelo Oscar. O que você descobriu sobre "Feito Pipa" vendo públicos tão diferentes reagirem a Gugu? Existe alguma coisa nessa história tão brasileira, tão ligada ao Ceará e a Quixadá, que você percebeu ser absolutamente universal?

O Gugu conquista as pessoas porque não tenta explicar quem ele é. Ele simplesmente vive: brinca, joga futebol, se maquia, dança, fica com a avó. As crianças entendem isso imediatamente. Já os adultos tendem a transformar cada gesto em diagnóstico, conflito ou previsão de futuro. Muitas vezes, crianças e adultos assistem a filmes diferentes dentro da mesma sessão. E isso me interessa muito.

Gugu sonha em se tornar jogador de futebol, mas o filme parece interessado menos no esporte propriamente dito do que naquilo que esse sonho revela sobre um menino tentando descobrir que homem deseja ser. Como você trabalhou essa ideia de masculinidade a partir de uma criança que ainda tem a liberdade de experimentar o mundo antes que os adultos lhe imponham definitivamente seus códigos?

O Gugu gosta de futebol, mas também gosta de se maquiar, dançar e experimentar. Para ele, não existe contradição. A contradição é inventada pelos adultos. A infância ainda não aceitou as regras estreitas que a sociedade impõe aos meninos. O futebol aparece como uma tentativa de se aproximar do pai, de encontrar uma linguagem comum, mas não define o menino. O pai, por sua vez, foi educado dentro de um modelo de masculinidade rígido, em que afeto e vulnerabilidade parecem ameaças.

Há uma disputa afetiva muito bonita entre a liberdade que Gugu encontra ao lado da avó e a relação mais difícil que mantém com o pai. Até que ponto "Feito Pipa" é também um filme sobre diferentes maneiras de exercer cuidado, autoridade e amor dentro de uma família — e sobre a possibilidade de uma criança escolher, ou pelo menos reivindicar, a família na qual se sente acolhida?

A relação entre Dilma e Gugu é uma cumplicidade entre duas crianças. Ela dá a ele liberdade; ele devolve a ela alegria e presença. Mas essa relação também carrega uma inversão dolorosa: o menino começa a cuidar de quem sempre cuidou dele. É aí que a infância deixa de ser protegida e passa a carregar um peso que não deveria ser seu. O pai tenta cuidar por meio da autoridade, mas muitas vezes confunde proteção com controle. Não queríamos - André Araújo, o roteirista, e eu - um pai vilão, nem uma avó idealizada. Queríamos pessoas reais, limitadas, tentando amar com as ferramentas que têm. No centro está Gugu, tentando descobrir em quem confiar.

Você filma Quixadá sem transformá-la simplesmente em cartão-postal do Ceará. A paisagem parece interferir na formação de Gugu, na liberdade do corpo dele e até no ritmo da narrativa. O que aquela geografia ofereceu à dramaturgia que você talvez não tivesse encontrado se essa mesma história fosse filmada numa grande cidade?

Quixadá dá força do filme. Os monólitos, a luz e a imensidão dão ao mundo do Gugu uma dimensão quase fantástica. Ao mesmo tempo, a paisagem imensa contrasta com a fragilidade crescente daquela família. Eu não queria filmar um sertão turístico ou decorativo. Queria que Quixadá fosse vivido pelos personagens, com sua beleza, sua dureza e seu cotidiano. O Ceará que me interessa é justamente esse lugar em que o extraordinário não precisa ser anunciado: ele está ali, convivendo com o banal.

O elenco junta nomes muito experientes, como Lázaro Ramos e Teca Pereira, a Yuri Gomes, que carrega uma parcela enorme da emoção do filme. Como foi dirigir Yuri sem tirar dele aquilo que existe de espontâneo na infância? E em que medida os atores adultos tiveram também de ajustar seus tempos e seus métodos ao tempo particular dele?

O Yuri é um ator extraordinário. Ele tem uma energia própria, uma inteligência muito aguda e uma capacidade rara de passar do humor à emoção sem perder a espontaneidade. A Teca e o Lázaro entenderam isso desde o início. Apesar da experiência enorme, entraram no universo do Yuri com generosidade e escuta. Não existe uma hierarquia entre eles. Os três se deixam afetar uns pelos outros, e é isso que torna a relação tão verdadeira. Tenho um orgulho imenso desse elenco.

Você já prepara um novo filme, agora centrado na adoção. O que esse projeto herda de "Feito Pipa"? Existe uma continuidade na sua vontade de investigar famílias que escapam ao modelo convencional e, do ponto de vista da forma, esse novo longa conserva alguma coisa da liberdade, da escala íntima e do olhar sobre a infância que você encontrou em "Gugu's World", ou a adoção está levando seu cinema para uma linguagem diferente?

"Feito Pipa" e "A Adoção", meu próximo longa, tem uma inquietação em comum: família não é uma estrutura natural e acabada; é uma construção diária, feita de escolhas, conflitos e responsabilidade. O que me interessa é acompanhar pessoas que insistem em existir de maneira própria, mesmo quando o mundo tenta enquadrá-las. Não quero repetir uma fórmula nem fazer o mesmo filme de novo. Quero continuar investigando família, desejo, liberdade e pertencimento por caminhos diferentes. Cada filme é um grande desafio e acho muito bom não ter respostas fáceis.