Uma leoa dourada chamada May el-Toukhy
Cineasta dinamarquesa de origem egípcia superou intolerâncias ao vencer Veneza com 'Mulher Desconhecida', em cartaz na maratona paulista nesta quarta
Quem estiver às 21h30, no Cultura Artística, nesta quarta, terá a chance de conferir o Leão de Ouro de 2026 em tela grande, sob a delicada curadoria da Mostra de São Paulo: "Mulher Desconhecida" ("Kvinde Ukendt"). Dirigido pela dinamarquesa de origem egípcia May el-Toukhy, o drama (mundialmente chamado de "Woman Unknown") abocanhou a láurea mais cobiçada do 83° Festival de Veneza e também consagrou sua protagonista, Mathilde Arcel, com o troféu Copa Volpi de Melhor Atriz.
Coprodução da Dinamarca, Suécia e Letônia, o longa tem roteiro assinado pela própria realizadora em parceria com Maren Louise Käehne e reúne no elenco Carsten Bjørnlund, Thorbjørn Hedegaard e Marina Bouras. A equipe técnica inclui o diretor de fotografia Jasper J. Spanning, a designer de produção Sabine Hviid, o montador Rasmus Stensgaard Madsen e o compositor Mikkel Hess. É o terceiro longa de May, que chamou atenção internacional com "Rainha de Copas" (2019).
A trama se passa na Dinamarca, nos dias que sucedem a libertação da ocupação nazista, em maio de 1945. Marie (Arcel) é uma jovem babá e empregada doméstica prestes a se casar com Christian (Bjørnlund), o rico e mais velho viúvo para quem trabalha. A união parece oferecer a oportunidade de abandonar a condição de criada e conquistar uma posição social privilegiada, mas ela guarda um segredo: durante a guerra, manteve uma relação íntima com um soldado alemão. Com o fim da ocupação, a euforia da libertação convive com a perseguição às mulheres acusadas de se relacionar com os inimigos, muitas submetidas à humilhação pública e à violência. Ao abordar esse capítulo traumático da história europeia, May desloca o foco dos vencedores e dos grandes feitos militares para o corpo feminino, transformado em território de punição e disputa moral.
"O que está em questão aqui é o corpo feminino", afirmou a cineasta ao receber o Leão. Sua vitória ganhou dimensão política em uma edição de Veneza marcada pela discussão sobre a baixa presença de mulheres na competição principal. Quando a seleção foi anunciada, "Mulher Desconhecida" era o único dos filmes concorrentes dirigido por uma mulher em carreira solo; posteriormente, o documentário "NAZA", codirigido por Rachel Szor e Yuval Abraham, também entrou na disputa.
A escassez de realizadoras reacendeu críticas à desigualdade de oportunidades no circuito internacional, enquanto May denunciou o culto ao "gênio masculino" e as barreiras estruturais enfrentadas pelas cineastas. A passagem do filme pelo festival teve ainda um incidente técnico: durante a estreia mundial, a realizadora e o produtor Mikael Rieks interromperam a sessão após perceberem que as legendas em inglês estavam dessincronizadas. A projeção foi retomada cerca de 15 minutos antes do ponto da interrupção, para que o público e o júri pudessem acompanhar a história adequadamente. O episódio não impediu a consagração: a sessão terminou com uma ovação de aproximadamente sete minutos e meio, antes de o longa arrebatar a terra das gôndolas, mesmo apostando em uma estrutura narrativa visual convencional. O desempenho de Arcel é seu trunfo, ao lado de sua forma crua de recriar abusos sexistas disfarçados de justiçamento. O Brasil pode coroar o êxito da produção, que é a representante oficial da Dinamarca na briga para disputar o Oscar.