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Arcos do triunfo

Num ano pouco inspirado para seus longas nas bilheterias e nos festivais, a França tenta virar o jogo... pelo menos no Brasil... ocupando nossas telas com um festival de filmaços

Por Rodrigo Fonseca - Especial para o Correio da Manhã

Com 'O Beijo Elétrico', a França recarrega as baterias

Não tem sido um ano de grandes conquistas pra França nos principais festivais internacionais, tampouco nas bilheterias, embora a pátria de Emmanuel Macron tenha marcado um golaço, mas só em seus próprios gramados, com a comédia "Marsupilami: Confusão a Bordo". Esse é o principal fenômeno comercial daquela pátria em 2026, com cerca de seis milhões de ingressos vendidos. Nas mostras competitivas de primeira grandeza da Europa, seus reconhecimentos mais expressivos vieram na categoria de roteiro, com prêmios conquistados por "Um Pequeno Bom Soldado", de Stéphane Brizé, em Veneza, e por "Um Homem de Seu Tempo", de Emmanuel Marre, em Cannes.

É nesse cenário, de contas em reestruturação e de redesenho de rotas, que começa, nesta quinta-feira o 17º Festival de Cinema Francês do Brasil, com programação em salas de mais de 50 cidades até 11 de novembro. Esta noite, já tem um evento para convidados, no Estação Claro Gávea, para deixar zarpar uma esquadra de peso.

Com 21 títulos, sendo 19 produções recentes e inéditas e dois clássicos, a mostra - outrora chamada de Varilux - oferece um retrato da diversidade da cinematografia francesa, reunindo filmes que circularam por Locarno, pelo Lido, pela Croisette e pelo festival de comédias de l'Alpe d'Huez. Um dos principais chamarizes é o díptico "De Gaulle: A França Livre", de Antonin Baudry, exibido fora de competição em Cannes e responsável por levar mais de cinco milhões de espectadores aos cinemas franceses. Protagonizada por Simon Abkarian, Simon Russell Beale e Florian Lesieur, com participação de Benoît Magimel, a produção revisita junho de 1940, quando a ocupação nazista leva o general Charles de Gaulle a partir para Londres e organizar a resistência. Sua narrativa febril tem lotado salas europeias.

Há uma promessa de que "O Beijo Elétrico", de Pierre Salvadori, vire a delicinha do ano no Festival de Cinema Francês. Em sua terra natal, ela explodiu no gosto do povão. Desde a pandemia, quando o musical "Annette", de Leos Carax, abriu o Festival de Cannes de 2021, diante de uma plateia mascarada, separada pelos códigos do distanciamento social, a França tomou para si a tarefa de abrir seu maior (e mais pomposo) evento cinematográfico, de modo a estampar sua saúde criativa no audiovisual para o mundo. Teve até ganhador de Oscar nessa função: Michel Hazanavicius (de "O Artista"). Ele inaugurou a programação de 2002 com "Corta!" ("Coupez!", uma comédia de zumbis. Esse trabalho, em 2026, foi confiado ao diretor Pierre Salvadori, com a comédia em clima (e graça) de vaudeville "La Vénus Électrique", exibida na última terça-feira. Foi uma consagração para sua estrela, a atriz Anaïs Demoustier, que esteve no fenômeno de bilheteria "O Conde de Monte Cristo", em 2024.

Salvadori, um prolífico roteirista nascido na Tunísia, ficou conhecido entre as plateias do Brasil com "Uma Doce Mentira" (2010) e "Em Um Pátio De Paris" (2014). Em "La Vénus Électrique", ele nos leva até a Paris de 1928, onde o jovem pintor Antoine Balestro (Pio Marmaï) lamenta a morte de sua esposa Irène, pela qual se culpa e que o fez perder a motivação para pintar. Refém do álcool, ele tenta entrar em contato com a esposa por meio de uma médium certa noite. Uma jovem trabalhadora de parque de diversões chamada Suzanne (Anaïs Demoustier), que havia entrado furtivamente no trailer apenas para roubar comida, finge ser uma clarividente para Antoine. O negociante de arte do artista, o marchand Armand (Gilles Lellouche), está desesperado para que seu cliente continue pintando, então convence Suzanne a manter a farsa em troca do pagamento de suas dívidas. Ela começa a encenar sessões espíritas improvisadas para Antoine, nas quais finge canalizar Irène. À medida que Antoine melhora gradualmente, Suzanne se vê se apaixonada pelo homem que está manipulando. Anaïs apaixonou a Croisette inteira com o seu jeitinho sagaz de atuar.

Muito se espera de "O Que é o Amor?", de Fabien Gorgeart, transforma a tentativa de anular um casamento religioso numa viagem a Roma que reúne ex-cônjuges, filhos e novos parceiros. O filme conquistou o Grande Prêmio do Festival de Comédia de l'Alpe d'Huez, onde Laure Calamy também recebeu uma distinção por sua atuação. Outra atração é "A Ilustre Desconhecida", de Marc Fitoussi, com Isabelle Huppert como uma figurante que sonha em conquistar um papel de protagonista.

Julien Panié/Cinefrance Studios - 'O Sentido da Vida' levou a belga Virginie Efira a filmar no Japão

A programação do Festival Frances buscou ainda "O Sentido da Vida", de Ryusuke Hamaguchi, que concorreu à Palma de Ouro em Cannes e rendeu um prêmio duplo de interpretação feminina a Virginie Efira e Tao Okamoto. Há outras joias em campo além dessa. No thriller político "Júpiter", de Alexandre Smia, Denis Ménochet, André Dussollier e Reda Kateb vivem personagens envolvidos numa crise internacional que ameaça desencadear uma escalada nuclear. Já "A Casa das Mulheres", de Mélisa Godet, acompanha o trabalho de uma equipe dedicada a acolher vítimas de violência e ajudá-las a reconstruir suas vidas. A preocupação ambiental ganha espaço com "O Canto da Floresta", de Vincent Munier, vencedor de dois prêmios César — melhor documentário e melhor som —, que acompanha três gerações de uma família em imersão nas florestas dos Vosges.

Chifoumi Productions - Denis Ménochet vive um presidente em cerco político em 'Júpiter'

Entre os encontros com a memória cinematográfica está o resgate de "A Grande Escapada", de Gérard Oury, com Bourvil e Louis de Funès, comédia que completa 60 anos e ultrapassou 17 milhões de espectadores na França. Resgata-se ainda a animação "O Rei e o Pássaro", de Paul Grimault, que celebra oito décadas de história. A edição também traz o curta "Duas Pessoas Trocando Saliva", de Natalie Musteata e Alexandre Singh, vencedor do Oscar de melhor curta-metragem em live action deste ano.

No Rio e em São Paulo, sete integrantes da delegação artística — entre eles os atores Laure Calamy, Alexandra Lamy, Pauline Clément e Benoît Magimel, além dos diretores Fabien Gorgeart, Marc Fitoussi e Pierre Salvadori — participam de sessões e conversas com o público. Ao longo de suas edições, o festival já reuniu mais de 2,5 milhões de espectadores no Brasil, consolidando-se como a principal vitrine nacional dedicada ao cinema francês.