É ver e crer... pra mudar
Surpresa de Gramado, 'Justino' desata amarras do fundamentalismo e celebra a maturidade de José Eduardo Belmonte na direção
Caixinha de surpresa, o prolífico cinema autoral do diretor José Eduardo Belmonte ("Alemão" e "Aurora") já rendeu ao cinema algumas joias ("Gorila", "Se Nada Mais Der Certo") em sua imparável produtividade, ao devassar os códigos (sobretudo morais) de uma sociedade que é craque em ser hipócrita. Só não se esperava que ele devassasse o neopentecostalismo brasileiro - indo aos intestinos do sistema digestivo das crenças evangélicas - com a contundência que faz em "Justino - Nos Bastidores do Reino". Há sessão dessa joia nesta terça-feira na Mostra de São Paulo, às 16h40, no Reserva Cultural 2.
É uma adaptação dos relatos literários do ex-pastor e escritor são-gonçalense Mário Justino (lançados em livro pela Geração Editorial). Esse pregador já descrente dos pregos do obscurantismo é bem interpretado por Christian Malheiros. O ator levou o Kikito para casa, quando o longa-metragem fez sua primeira projeção pública, no Festival de Gramado, atropelando a Serra Gaúcha. Belmonte dividiu com Ivan Finotti a merecida láurea de Melhor Montagem.
Mais frenético do que em seu discurso fílmico habitual, Belmonte usa um nome fictício para falar da Igreja Universal e transforma um Caio Blat na raia do assombro num alter ego de Edir Macedo. Ao cair nas lábias de servos de Cristo, num momento de selvagem segregação entre os racistas de sua escola e de cansaço em relação à brutalidade de seu pai (Antonio Pitanga), Justino encontra abrigo na Palavra de Nosso Senhor.
Seu erro foi se deixar encantar por uma pregação capitalista da Bíblia. Numa edição pautada à visceralidade, feita por Finotti e pelo próprio realizado, o longa encontra na figura da estrela de stand-up trans (mas chamada no roteiro de travesti) Danuza, personagem de Onna Silva, seu grande eixo de empatia. É uma presença que iluminou Gramado e saiu de lá com um prêmio especial. É a vez de ela iluminar SP.
Paralelamente à Mostra, Belmonte está lançando "Assalto À Brasileira", com Malheiros e Murilo Benício, que chega às telas no próximo dia 5. O enredonse passa na manhã de 10 de dezembro de 1987, no centro de Londrina, no Paraná. Por volta das 11h, sete homens armados e com os rostos encobertos invadiram a principal agência do Banestado, renderam os vigias e anunciaram um roubo. O que parecia ser mais uma ação criminosa se transformaria em um acontecimento político, acompanhado por milhares de pessoas nas ruas e marcado por um desfecho de deixar os cinemas boquiabertos.