Veias abertas que sangram em três países
Produtores brasileiros de 'Retorno a Buenos Aires', Patrick De Jongh, Cibele Amaral e André Ristum falam da parceria com o ítalo-chileno Marco Bechis, homenageado em SP
Aprimeira vez que Cibele Amaral viu "Garagem Olimpo" (1999), de Marco Bechis, foi numa sala de cinema italiana. A experiência deixou marcas: a atriz, cineasta e produtora reconheceu na história sobre a repressão argentina uma ferida também brasileira. Anos depois, ao receber o roteiro de Retorno a Buenos Aires (longa indicado ao Leão de Ouro do Festival de Veneza, em setembro passado), a diretora de "Momento Trágico" (2003) reencontrou a mesma urgência de olhar para as ditaduras sul-americanas e para as sequelas que persistem nas vidas dos sobreviventes. Com o sucesso desse drama na Mostra de São Paulo, lembranças eclodem.
"Para mim, era um filme brasileiro. Não importa que ele se passe na Argentina", resume Cibele, uma das três cabeças de produção de origem brasileira que embarcaram no projeto do realizador ítalo-chileno Marco Bechis, ao lado de Patrick De Jongh e André Ristum. Essa fina identificação com o script também passava por uma lacuna histórica: enquanto a Argentina realizou julgamentos de militares envolvidos na repressão, o Brasil não percorreu o mesmo caminho. Para Cibele, contar essa história "significava oferecer ao público brasileiro a oportunidade de confrontar uma experiência coletiva que permanece aberta".
Na tela, está o percurso de Mariano Guerra, personagem interpretado por Adriano Giannini, que retorna à Argentina após 33 anos na Itália para testemunhar no julgamento dos militares responsáveis por seu sequestro e tortura durante a ditadura. Uma juíza vivida pela paulista (de origem uruguaia) Paula Cohen analisa o caso na corte. Essa narrativa - que terá mais uma sessão na Mostra de São Paulo nesta quarta-feira, dia 28, às 18h30, no Cultura Artística - saiu de Veneza com o prêmio Francesco Pasinetti.
A parceria enfrentou o desafio de articular equipes e filmagens em três países, sem diluir a visão autoral do cineasta ítalo-chileno. Patrick De Jongh destaca a capacidade de Bechis de ouvir seus colaboradores, apesar de seu perfil autoral, e de incorporar contribuições em diferentes etapas do processo. "A gente olha realmente o que é importante para contar essa história", observa Patrick.
Mais do que cumprir uma equação financeira, a prioridade era preservar a unidade artística de um filme que atravessa diferentes territórios e períodos históricos. André Ristum também chama a atenção para a natureza coletiva desse esforço. Reunindo profissionais com experiência em direção, roteiro e outras áreas da realização cinematográfica, o grupo procurou compreender a lógica de Bechis e a linguagem que ele pretendia construir.
"A gente estava realizando uma obra de arte mesmo", afirma Ristum, lembrando que a compreensão plena das intenções do diretor só se completou quando os produtores assistiram ao filme pronto. O resultado, em sua avaliação, dependeu justamente da capacidade de manter essa sintonia entre equipes brasileiras e italianas.
Bechis explica ao Correio que a participação brasileira "foi decisiva, com cerca de 70 profissionais envolvidos nas filmagens em Porto Alegre", onde foi rodado aproximadamente 60% do material. "Embora nos documentos a coprodução possa aparecer definida de determinada maneira, o esforço brasileiro foi muito significativo. Sou profundamente grato aos meus parceiros", afirma Bechis, que recebeu na quinta-feira o Prêmio Humanidade da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. "Cada pessoa deposita no filme a sua percepção e a sua imaginação", explica o diretor. "Por isso, embora todos vejam as mesmas imagens e ouçam os mesmos sons, cada um acaba por construir o seu próprio filme. Esse processo pode enriquecer a humanidade de quem assiste".