Depois de Xangai e do Redentor, Alan Minas vai à Pauliceia
Diretor comemora na maratona paulistana as vitória de seu 'O Deserto de Luiza' no Festival do Rio e a recepção da China a uma saga sobre uma adolescente em crise familiar
Uns quatro meses antes de conquistar a láurea de júri popular da seção Novos Rumos do 28º Festival do Rio, "O Deserto de Luiza", do carioca Allan Minas, cruzou o mundo e foi competir em Xangai, exportando a força poética do cinema brasileiro para a China. Realizador do doce "A Família Dionti" (2015), Minas encantou plateias asiáticas com seu retrato para a luta de uma adolescente que cresce num contexto de saúde mental em quebra.
Com produção de Daniela Vitorino, sua trama segue Luiza (Nina Prado), uma jovem tímida, apaixonada por desenho, que entra no grupo de graffiti da escola e vivencia o primeiro amor. Quando a mãe dela sofre um surto psicótico, sua família desmorona. Na tentativa de reconstruí-la, Luiza terá de enfrentar o medo, a solidão e o preconceito, além de descobrir seu próprio caminho para ser feliz. Nina foi eleita Melhor Atriz por seu desempenho, na Première Brasil, levando um troféu Redentor para casa. Nesta sexta, às 16h10, o Espaço Petrobras 3 há de assegurar os aplausos da 50ª Mostra de São Paulo para essa estrela e seu realizador.
"Logo no primeiro ensaio, com Dani Fontan e Nina Prado, soube que estava diante de duas atrizes maravilhosas", explica Alan Minas ao Correio da Manhã. "Construímos um território de confiança, para depois aprofundarmos nas questões da narrativa, às experimentações. Assim, seguras, uma com a companhia da outra, as atrizes atravessavam a fronteira entre a lucidez e a loucura. Corriam riscos. Criou-se um senso de interdependência entre elas, espelhando, de certo modo, a relação que também acontecia na narrativa. Um jogo empolgante sempre em busca de descobertas, de emoções profundas. A catarse nos rondava, era um objetivo constante, apesar de utópico".
Segundo o cineasta, Luiza, em seus 15 anos de idade, representa uma parcela de jovens que, em seu movimento de descoberta do mundo, precisa também confrontar fantasmas e desafios dentro da própria casa.
"A elaboração da personagem Luiza pode ser corroborada pela imagem de um quebra-cabeça, em que, a cada peça que eu colocava à mesa, a atriz buscava outra a encaixar. Eram memórias e sentimentos que, juntos, perscrutamos para, aos poucos, darmos um sentido amplo, uma configuração total à narrativa", explica Alan Minas. "Como num quebra-cabeça, a elaboração não foi linear, experimentamos lampejos de conexões e sentidos. Assim, o filme ia, aos poucos, ganhando tamanho, erigindo-se dentro dela".
Ele lembra com orgulho da viagem por circuitos chineses: "Foi uma grande estreia fazer parte da competição principal do 28º Shanghai International Film Festival. A curiosidade de saber como uma plateia, do outro lado do mundo, reagiria, se transformou em uma experiência marcante", diz Alan Minas. "O público acolheu às sensíveis nuances que o filme traz, reagindo com emoção aos traços oníricos e poéticos desse nosso filme. Foi uma experiência única, que transcende o campo cinematográfico, seguirá para sempre vívida em mim".