☰
✕

Efeito Bardem

Com sessões no sábado e domingo na Mostra de SP, 'El Ser Querido' amplia a chance de o astro espanhol concorrer ao Oscar, aumentando a fama audiovisual de sua pátria

Por Rodrigo Fonseca - Especial para o Correio da Manhã

Javier Bardem interpreta um irascível diretor em 'El Ser Querido', sensação de Cannes


Considerada a mais forte aposta para o Oscar de Melhor Filme Internacional de 2027 (pelo menos até o nosso "Feito Pipa" começar a exportar seus encantos), a Espanha emplacou um fenômeno comercial com "A Bola Preta" ("La Bola Negra"), épico queer exibido na abertura do Festival do Rio, no último dia 1º. Sua receita caminha para US$ 30 milhões, um número que, em terras ibéricos, só Pedro Almodóvar faz. Não por acaso, a El Deseo, produtora que ele tem com o irmão, Agustín Almodóvar, é quem ajudou a viabilizar a saga de Javier Ambrossi e Javier Calvo sobre três homens gays em diferentes momentos da História espanhola.

Há, contudo, um segundo acontecimento gestado entre Madri e Barcelona e que também periga chegar à festa de Hollywood, só que na categoria Melhor Ator, coroando um outro Javier, o Bardem. "El Ser Querido", de Rodrigo Sorogoyen, virou sensação em Cannes, onde disputou a Palma de Ouro, e chega agora à Mostra de São Paulo. Bardem vai tomar o Reserva Cultural paulistano para si neste sábado, às 17h30. No domingo, dá tempo de votar com folga para ver essa joia na maratona da Pauliceia: sua sessão rola às 16h, no Cultura Artística.

Num desempenho colossal, Bardem interpreta Esteban Martínez, cineasta renomado que reencontra a filha atriz durante as filmagens de um longa e é obrigado a confrontar décadas de ressentimentos familiares.

A produção abriu um dos debates mais acalorados da Croisette neste ano. O reencontro entre pai e filha transforma-se numa investigação emocional sobre orgulho, afeto e reconhecimento. Ao lado de Victoria Luengo, Bardem conduz uma batalha interpretativa que confirma a sintonia entre o ator e uma geração de realizadores espanhóis interessados em explorar as fissuras da identidade contemporânea.

Foi durante a divulgação do filme que o ator voltou a usar sua visibilidade para tratar de questões políticas. Fiel a uma trajetória marcada pelo ativismo, ele reiterou seu posicionamento sobre a guerra em Gaza. "Estou a tentar ser mais empático a cada dia. Estou a ficar mais velho e noto que certos factos não mudam. O genocídio em Gaza é um facto. Posso ajudar de forma humilde trazendo esse assunto à baila. A mobilização muda situações. É importante poder olhar ao espelho e estar afinado com a sua ética", afirmou diante da imprensa internacional.

A disposição para o confronto público acompanha Bardem desde os tempos em que se consolidou como um dos rostos mais importantes do cinema europeu. Filho da atriz Pilar Bardem e integrante de uma das famílias mais tradicionais das artes espanholas, ele construiu uma carreira guiada por escolhas arriscadas. Foi indicado ao Oscar por "Antes que Anoiteça", recebeu nova nomeação por "Biutiful", venceu em Cannes por esse mesmo filme em 2010 e entrou definitivamente para a história da Academia ao conquistar a estatueta por "Onde os Fracos Não Têm Vez", dos irmãos Coen, em 2008.

No fim deste ano, Bardem regressará aos cinemas em "Duna: Parte Três", conclusão da trilogia de Denis Villeneuve inspirada na obra de Frank Herbert. O ator volta ao papel de Stilgar, líder fremen que se tornou uma das figuras mais carismáticas da saga