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Eryk Rocha: 'Estamos numa encruzilhada da História'

Por Rodrigo Fonseca - Especial para o Correio da Manhã

Eryk Rocha no tapete vermelho do Festival do Rio após a estreia de seu .doc 'Elza'

Segunda-feira, dia em que o Brasil pode amanhecer sob a luz da democracia ou soterrado nas trevas conservadoras, a depender das urnas, neste 25 de outubro, "Elza" vai tomar a 50ª Mostra de São Paulo de assalto. Tem projeção às 21h25, no Espaço Petrobras 1 e volta a ter sessão na quarta, às 16h45, no Cinesystem Belas Artes Frei Caneca. Ele está em Portugal agora, a exibir no DocLisboa, o filme que lhe rendeu o troféu Redentor de Melhor Documentário e menção honrosa no prêmio Olhar Brasil do Correio da Manhã no Festival do Rio. Volta sábado... para votar (marcando o L).

"Estamos diante de um novo fascismo que se chama ultra neoliberalismo. Desde que levei o 'Elza' para o Festival de Roma, na semana passada, noto que a Europa vive um clima similar ao do Maio de 68, num combate generalizado ao avanço das extremas-direitas, que hoje põem o Brasil em risco. A música de Elza Soares, neste contexto, é um chamado à democracia", diz o realizador de cults como "Rocha Que Voa" (2002) e "Cinema Novo", ganhador do Prix L'Oeil d'Or de Cannes, em 2016.

Seu documentário sobre Elza Soares (1930-2022) é um coro vivo de pleitos antirracistas e antissexistas. Bota plateias de joelho, por onde passa, com a exuberância de seu fluxo, em sons e imagens. Na entrevista a seguir, Eryk clama por consciência na hora de votar: "A cada risco que a gente tem de retroceder, a voz da Elza nos guia à luta. Hoje o que pode puxar a virada do Lula é menos a campanha dele e mais a mobilização popular, a juventude", diz o cineasta.

O Brasil está às portas de uma eleição decisiva. Como você enxerga o nascimento de "Elza" nesse momento de tanta tensão política?

Eryk Rocha - O filme nasce num momento muito forte. O Brasil está em carne viva, à flor da pele. Estamos numa encruzilhada da História. Precisamos decidir se continuamos sendo uma nação ou se voltamos a ser uma colônia. É essa a escolha que está presente nessas eleições. A voz da Elza, inclassificável, única, é um chamado à democracia, à igualdade social e à justiça. Ela sempre projetou a possibilidade de um país mais justo, igualitário, democrático e amoroso.

A voz dela parece ultrapassar a experiência individual e incorporar uma coletividade. Como o filme constrói essa passagem da biografia para o retrato de um país?

A Elza é um corpo coletivo, um corpo Brasil. Ela se deixa coletivizar no filme. É um espelhamento das muitas Elzas espalhadas pela nação... de muitas mulheres, das pessoas negras, das pessoas LGBTQIPA , das gentes das periferias e de tantas outras vivências que nem sempre encontram espaço para expressar sua voz. A trajetória dela nos permite olhar para essas experiências. Por isso, acredito que o filme provoca uma emoção coletiva: a gente não está apenas contando a vida de uma artista, mas reconhecendo nela uma multidão.

Logo após sua primeira projeção, no Festival do Rio, "Elza" recebeu menção honrosa na primeira edição do prêmio Olhar Brasil, criado pelo Correio da Manhã. Que importância esse reconhecimento teve para você?

Foi muito legal, porque foi o primeiro prêmio do filme. É emocionante ver que ele está conseguindo se comunicar com o público. Talvez seja um dos meus filmes mais populares, no sentido de conseguir alcançar uma audiência muito ampla. Na Itália, por exemplo, encontrei pessoas que nunca tinham ouvido falar da Elza Soares e que saíram emocionadas, querendo conhecer mais aquela mulher e ouvir sua música. Esse era o meu desejo.

Você acaba de voltar do Festival de Roma, com um filme em que Elza Soares canta em italiano. Que simbolismo há nessa troca geopolítica com a pátria do neorrealismo?

A Elza foi morar na Itália, com o Garricha, depois de ser exilada na ditadura, quando teve a sua casa metralhada. Abri essa discussão, com ela cantando em italiano, naquele que, junto com a França, é o país do cinema. A tradição que ajudou a me formar foi a filmografia de Antonioni, de Rossellini, de Pasolini, de Carmelo Bene. A projeção lá foi uma catarse.

Que diálogo histórico - e estético - você buscou ao calçar os relatos de Elza com signos potentes da história do cinema brasileiro, especialmente em diálogo com "Rio, Zona Norte" (1957), de Nelson Pereira dos Santos, na figura do sambista vivido por Grande Otelo?

Não é só Grande Otelo. Tem Ruth de Souza. Tem Zezé Motta. Meu intuito era trazer uma camada de arquivos que dialogasse com a cinematografia brasileira e latino-americana. Esse espelhamento permite que a Elza apareça em relação com outros atores e atrizes negros, com outras histórias e imagens que também fazem parte da nossa formação. Quando ela partiu, em 2022, eu estava começando a montagem e pensei que não conseguiria continuar apenas com o material que havia filmado. Retomei o trabalho dois anos depois, ampliando o filme com a pesquisa de arquivos. Queria que as novas gerações conhecessem a origem daquela mulher que se tornou uma artista do mundo, mas também que as gerações mais velhas descobrissem outras dimensões dela. As primeiras críticas que saíram na imprensa da Itália, após a projeção no Festival de Roma, identificaram que a palavra mais recorrente no filme é "luta". Fiz esse filme para o Brasil, para mim e para a Elza, ao lado de mulheres brasileiras e mulheres negras. Se as pessoas saírem de "Elza" inspiradas e fortalecidas para continuar as suas lutas... para continuar sonhando e sonhando longe... esse será o meu grande prêmio.