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Primeiro gol de Waltinho após o Oscar

Realizador de 'Ainda Estou Aqui' leva à Mostra dois episódios, com versão inacabada, da série 'Sócrates Brasileiro', sobre o craque intelectual da Seleção

Por Rodrigo Fonseca - Especial para o Correio da Manhã

Dois dos cinco episódios de 'Sócrates Brasileiro' vão mobilizar o Espaço Petrobras nesta sexta, em SP

Cerca de seis meses de se tornar o único diretor brasileiro a ter um Oscar no currículo, Walter Salles foi ao Festival de San Sebastián, na Espanha, buscar um outro mimo inédito para o nosso cinema, o Grand Prix Fipresci, dado ao mesmo longa-metragem que fez Hollywood premiar sua estética politicamente crítica: "Ainda Estou Aqui". Num papo com o Correio da Manhã, ele se mostrou apressado e atribuiu a falta de tempo a seu empenho com um projeto que pode ser tornar a maior sensação da 50ª Mostra de São Paulo: a série documental "Sócrates Brasileiro", ainda em finalização.

Dois episódios, totalizando 140 min, mas ainda em fase de finalização)=, vão ser projetados no Espaço Petrobras nesta sexta. Há uma sessão na sala 2, às 17h45, e uma na sala 3, às 18h.

Somos levados ao Brasil de 1954, com foco numa reflexão de Waltinho (apelido do cineasta): que país era esse em que jovens pais autodidatas, ambos funcionários públicos, nomearam seu primeiro filho "Sócrates Brasileiro Sampaio de Souza Vieira de Oliveira"? Esse é o ponto de partida do seriado, previsto para novembro, no Globoplay, com fotografia de Pablo Baião. É um retrato afetivo de um dos personagens mais fascinantes da história recente do país — um jogador de futebol de biografia singular, que foi médico e ativista político. Essa série percorre, em cinco episódios, a trajetória de Sócrates (1954-2011) e sua conexão reflexiva e ativa com a realidade social do Brasil.

O episódio 01 se chama "Raio de Ouro", que, ao percorrer a infância e adolescência de Sócrates - de Belém a Ribeirão Preto, com raízes no Ceará -, fala da migração interna brasileira e do sonho de construção de um país livre no final dos anos 1950, interrompido pelo golpe de 1964. Na sequência, o Episódio 02 ("Ganhar ou perder, mas sempre com democracia") apresenta a sua chegada ao Corinthians em 1978 e, a partir do encontro com Wladimir, Zé Maria, Casagrande e Zenon, traça a epopeia que levou à criação da Democracia Corinthiana em plena ditadura militar.

A Mostra tem uma relação longeva com Waltinho, que lançou por lá o .doc "Jia Zhangke, um Homem de Fenyang" (2014), feito num período onde sua principal conexão com a ficção se deu pelo curta "Quando a Terra Treme". Antes de se debruçar sobre "Ainda Estou Aqui" e de esmiuçar arquivos de Sócrates, ele trabalhou ativamente como produtor e assinou os créditos do documentário "Marinheiro das Montanhas", de Karim Aïnouz, e da animação "Arca de Noé", de Sergio Machado e Alois Di Leo.

Plataformas digitais hoje mantêm seu legado ativo, com destaque para "Central do Brasil", que deu a ele o Urso de Ouro da Berlinale, em 1998, e concorreu ao Oscar em 1999, com indicação ainda para a diva Fernanda Montenegro (mãe de Torres, que divide com ela o papel de Eunice, em "Ainda Estou Aqui"). Há 28 anos, a produção centrada na jornada da escrevinhadora de cartas Dora vendeu 1.186.859 entradas em sua carreira comercial e faturou cerca de US$ 22 milhões mundialmente. Hoje pode ser visto na Netflix. Sua forma de mesclar melodrama com procedimentos documentais, amparado num olhar sobre as urgências e carências do Brasil da década de 1990 deflagrou o movimento chamado de A Nova Onda Latino-Americana, que revelou autoralidades (Lucrecia Martel, Pablo Trapero, Fernando Meirelles, Alejandro González Iñárritu) em variadas latitudes do continente.