O Dorian Gray dos balõezinhos
Depois da vergonha que passou com "Supergirl", o pior filme do ano (até agora), a DC sofre abalos em seu projeto de rivalizar - para além do mercado editorial - com a Marvel, apostando no cinema como uma arena paralela. Quer, de todo jeito, disputar hegemonia no imaginário das HQs, no qual o Cara-de-Barro sempre foi um vilão secundário.
Como a ideia de explorar a fauna de tipos maus de Gotham City já rendeu à Warner Bros. um cult de bilheteria bilionária vencedor de Oscars ("Coringa", ganhador do Leão de Ouro de Veneza, em 2019), não haveria razão de dar adeus ao projeto de levar os inimigos do Homem-Morcego às telonas. Só não se esperava que o trabalho do cineasta James Watkins, ao moldar uma narrativa minimamente digna com um criminoso de feições maleáveis, saísse tão sofisticado.
"Clayface" funciona como thriller (cheio de suspense), tem estilo requintado de filme noir clássico e ainda cai como uma luva nesta época do ano na qual a festa de Halloween (o 31 de outubro) convida o audiovisual a lançar narrativas horroríficas. Temos aqui algo que dá aflição... e medo... num debate moral.
O Cara-de-Barro que quadrinhófilos conhecem surgiu em 1940, com ecos de "O Fantasma da Ópera", inspirado em atores da caracterização sombria como Lon Chaney, Boris Karloff e Basil Rathbone. Seu nome era Basil Karlo e seu intuito era copiar tramas de terror para assustar o povo de Gotham. Mais adiante, em 1961, o codinome do personagem foi aplicado a Matt Hagen, um sujeito capaz de alterar a própria forma.
Recentemente, a Panini Comics publicou no Brasil o álbum gráfico "Um Dia Ruim", pilotado por artistas como Collin Kelly, Jackson Lanzing e Xermanico, combinando os perfis de Hagen e Karlo. Pautado numa montagem febril, o longa de Watkins (realizador de "A Mulher de Preto" e "Atentado em Paris") investe nessa mesma combinação, mapeando os bastidores da indústria do audiovisual sem puderes da cultura woke
Seu Matt Hagen é o dionisíaco Tom Rhys Harries (em inspirada atuação). Astro em ascensão, ele sofre uma brutal retaliação de um mafioso e vê sua beleza apolínea ir pro brejo, ao tomar uma coça. Com zero chance de voltar a atuar, recorre às pesquisas dermatológicas e carnais de uma cientista, a Dra. Caitlyn (Naomi Ackie), a fim de restaurar seu look angelical. O pacto que decide travar com o saber científico vai custar algo além de sua alma. Qual um Dorian Gray pós-moderno, ele perde a lucidez. Essa perda é galvanizada pela habilidade que adquire de metamorfosear sua aparência. Trocar de rosto é apenas uma fração de seu desejo de esculpir um novo destino, o que deflagra um comportamento nas raias da vilania. O Cara-de-Barro nos assusta, em especial pela estrutura de body horror à la "A Substância" (2024) no qual Watkins investe, para banhar a telona de sangue, com olhos rasgados e sede de vingança. O capricho com a direção de arte evoca a riqueza visual das revistinhas da DC, como há tempos não se via.