Sabrina Fidalgo: 'Sentir culpa não significa abrir mão de privilégios'
Convite ao desmanche da lógica preconceituosa que fez do racismo um dos pavimentos do colonialismo, "O Projeto" abre as telas da Mostra de São Paulo, nesta quinta-feira, para uma das diretoras mais corajosas da América Latina no combate à microfísica da intolerância: Sabrina Fidalgo. Uma imagem icônica - ela própria, com um pregador no nariz, para afinar os traços de sua herança ancestral africana, em prol de um histórico de embranquecimento da população preta deste país - vem imortalizando esse documentário desde sua primeira projeção oficial: em agosto no Festival de Gramado.
Qual lava vulcânica, o debate gerado pela realizadora de "Alfazema" (2019) e seu parceiro, o fotógrafo suíço Yvan Rodic (chamado Face Hunter), faz arder temperaturas de qualquer sala de projeção onde é exibido ao expor ranços escravocratas... e não só os do Brasil. É um road .doc no qual Sabrina escuta, registra e inflama. Quem estiver esta noite em solo paulistano pode conferir a força de "O Projeto" no Espaço Petrobras 2, às 21h10. Passa outra vez no dia 27, às 17h40, no Cinesystem Frei Caneca 2.
De que forma "O Projeto" desafia o cânone da representação do racismo no cinema, pois, mais do que flagrar práticas racistas, seu filme mostra como a intolerância se disfarça para poder se perpetuar?
Sabrina Fidalgo - Acho que o deslocamento fundamental de "O Projeto" está no objeto de estudo: a branquitude. Mais do que falar sobre a experiência do racismo vivida por pessoas pretas e outras populações racializadas, o filme observa a culpa, as fragilidades, as contradições e a mentalidade dos herdeiros de um sistema que inventou a hierarquia racial para justificar seus próprios privilégios. Um projeto de mundo construído em benefício de alguns, à custa da exploração de outros e da destruição de outras possibilidades de existência. Quem costuma observar passa a ser observado. Interessa entender como essas pessoas se relacionam com o que herdaram, o que conseguem reconhecer e o que continuam reproduzindo, inclusive quando se consideram esclarecidas ou bem-intencionadas. A culpa pode aparecer, mas sentir culpa não significa abrir mão de privilégios.
De que maneira o desenho de viagem que você traça no filme foi se estruturando no roteiro?
Num primeiro momento, esse desenho nasceu das possibilidades logísticas que surgiam no coração da pandemia. A primeira viagem aconteceu no final de 2020, numa pequena brecha em que conseguimos atravessar o oceano. Viajávamos de máscara, fazendo testes a cada conexão nos aeroportos, em pleno inverno europeu. Filmamos em Vevey e St. Gallen, na Suíça, e depois seguimos para Berlim. Lembro de chegarmos... e irmos a um bar em Kreuzberg, tomar Glühwein na rua... num frio abaixo de zero. Era dezembro, e as pessoas estavam animadas com a possibilidade de sair de casa e voltar a se encontrar. Nós, que tínhamos cruzado o oceano para filmar, estávamos mais animados ainda. No dia seguinte veio a notícia de um novo confinamento. Foram momentos muito difíceis, e essa instabilidade atravessou a construção do filme. O roteiro foi ganhando corpo no encontro entre aquilo que queríamos investigar e aquilo que o mundo nos permitia fazer.
Qual foi a maior descoberta sobre a prática do racismo que o filme te trouxe?
Eu começaria questionando a ideia de "prática do racismo", porque ela pode dar a impressão de que estamos falando apenas de atos pontuais, identificáveis, cometidos por determinadas pessoas. O racismo também é uma maneira de ver e organizar o mundo, transmitida de geração em geração. Está naquilo que se aprende a reconhecer como bonito, competente, civilizado, confiável ou digno de ocupar uma posição de poder. A hierarquia racial que sustenta esse sistema foi construída pelo projeto colonial europeu para legitimar a exploração, a escravização e a morte. E ela não desaparece quando alguém se declara contrário ao racismo. É preciso um trabalho constante de percepção e desmantelamento, sobretudo por parte de quem herdou as vantagens dessa estrutura. Na América Latina, isso ganha contornos muito particulares. Não somos a Europa, mas continuamos distribuindo oportunidades, prestígio e legitimidade segundo marcadores coloniais de cor, fenótipo, origem e patrimônio. Até os padrões de beleza merecem ser interrogados.
O que você descobriu de mais inusitado sobre sua própria identidade como mulher preta?
Quanto a mim, a descoberta foi afirmar minha liberdade de existir como indivíduo. Sou uma mulher preta, e isso atravessa minha experiência, mas quero ser livre para fazer o que desejo, criar, me contradizer, experimentar. Quero poder me colocar no mundo sem que raça e gênero funcionem como um roteiro prévio do que esperam de mim. Minha identidade também está nessa liberdade.
De que maneira o cinema brasileiro feito por populações pretas hoje dribla o racismo?
A gente dribla o racismo o tempo inteiro, inclusive depois que o filme está pronto. A disputa continua na circulação, na crítica, nos festivais, na distribuição e na construção da memória do cinema brasileiro. Fazer um filme não significa que ele será reconhecido como parte dessa História. Outro dia vi uma publicação de uma revista independente de esquerda, uma revista que considero ótima, sobre cinema brasileiro. Os filmes destacados eram quase todos de diretores brancos. Havia um único homem preto. Essas escolhas também constroem um imaginário sobre quem produz pensamento e linguagem no país. É essa naturalização que me incomoda. O modelo colonial pode continuar funcionando sob uma roupagem progressista.
Em que caminhos está o seu primeiro longa de ficção?
Meu primeiro longa de ficção é "Karnaval", uma coprodução da Coqueirão Pictures, Fidalgo Produções e Gullane, com distribuição da Gullane . Estamos trabalhando no desenvolvimento e na estruturação financeira do projeto, buscando também parcerias internacionais. É uma etapa de aprofundar o roteiro e reunir as condições artísticas e de produção para realizar o filme com a força que ele pede. Tenho muito desejo de fazer esse longa. A ficção já faz parte da minha trajetória nos curtas e médias, e "Karnaval" é a oportunidade de ampliar essa experiência numa outra escala, com toda a liberdade de criação que venho buscando no meu cinema.