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Pinceladas de excelência

Ana Carolina, pilar da força feminina no cinema latino, dá à mostra paulistana sua 1ª obra-prima desta edição: o experimento 'Di Cavalcanti'

Por Rodrigo Fonseca - Especial para o Correio da Manhã

Narrativa anfíbia de ficção, documentário, jogral e aula de História da Arte marca a volta de Ana Carolina às telas

Aberta no último dia 14, com o congraçamento da cinefilia brasileira com o bamba indie dos EUA James Gray e seu "Tigre de Papel" ("Paper Tiger"), a 50ª Mostra de São Paulo tem já uma obra-prima para chamar de sua... e ela se passa no Rio, embora flerte com a Pauliceia da Semana de Arte Moderna de 1922, com Recife, com Lisboa e com um tempo de afirmação das artes plásticas e visuais do país: "Di Cavalcanti".

A autoria pertence à maior cineasta viva (em atividade) da América Latina nas telas: Ana Carolina (Teixeira Soares). Quatro anos atrás, ela deixou o Festival de Roterdã de queixo caído com "Paixões Recorrentes". Agora é a vez de mobilizar as plateias de sua São Paulo natal com um filme híbrido, que tem um quarto de documentário, outro quarto de ficção, com um quadrante de recital jogralesco e outro de aula de História da Arte. Júlio Adrião é a força da natureza que amarra isso tudo. Há mais duas sessões do longa na Mostra: nesta quarta-feira (21), às 22h20, no Reserva Cultural - Sala 2, e no dia 26, às 16h, no Cinesystem Belas Artes Frei Caneca 5.

Em tempos tóxicos, Ana Carolina faz da palavra um corpo fílmico e convoca Emiliano Di Cavalcanti (1897-1976), um dos pilares do Modernismo brasileiro, para um embate sobre identidade, liberdade e democracia. O pintor, ilustrador, caricaturista e militante comunista que ajudou a conceber a Semana de 1922 construiu uma iconografia nacional com mulheres, trabalhadores, sambistas e personagens populares. Longe da reverência de museu, apoiado na luz do fotógrafo Luís Abramo, a cineasta transforma esse legado numa provocação política de rara insolência, em que a criação artística se mistura à poesia, à performance e à disputa pelos rumos do país.

No enredo, um sujeito falido, radicado na Zona Sul, gravita pelos bairros cariocas, entre divagações, papos, paqueras (com uma amada de outrora, vivida por Tuna Dwuek), chopinhos e consultas a um relojeiro exótico (papel que Luiz Octávio Moraes devora), sempre falando do amigo famoso de seu tio. O tal amigo é Di.

Fazendo da fala um aríete, Adrião empresta ao filme sua presença vulcânica para encarnar uma figura em permanente combustão, entre o transe empolado dos parnasianos e a molecagem modernista. A picardia da atriz Tuna Dwek ajuda a compor essa experiência anfíbia, que dialoga diretamente com "Gregório de Mattos" (2003), outro experimento em modo jogral de Ana Carolina, no qual a língua também se converte em arena. Há, ainda, uma conexão saborosa com a história do próprio Correio da Manhã: Di Cavalcanti trabalhou no jornal como ilustrador antes de ser demitido, episódio que aproxima a trajetória do artista da relação entre imprensa, política e representação pública.

De "Mar de Rosas" (1978) a "Das Tripas Coração" (1982), passando pelo colossal "Paixões Recorrentes", Ana Carolina fez da ironia uma ferramenta para confrontar as convenções sociais e a intolerância. Em "Di Cavalcanti", percorre as ruas cariocas com a esperança ébria dos trovadores, como quem se recusa a aceitar a polarização e a pasmaceira ideológica como destinos nacionais. A cineasta transforma a memória de um artista em matéria viva, reafirmando que imaginar um país livre também é um ato de criação.