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Hong Sang-soo ao quadrado

Por Rodrigo Fonseca

"O Dia em que Ela Volta" ("Geunyeoga Doraon Nal") tem sessão neste sábado, às 15h, no Reserva Cultural

Como de praxe, o sul-coreano Hong Sang-soo, de 65 anos, volta a ocupar os holofotes da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo com dois longas na programação: “O Dia em que Ela Volta” (“Geunyeoga Doraon Nal”) e “Onde Repousar Meus Olhos” (“Nun Dul Dega Eomne”). Um dos realizadores mais prolíficos do cinema contemporâneo, Hong construiu uma filmografia marcada pela observação minuciosa das relações humanas, pela espontaneidade dos diálogos e pela capacidade de encontrar dramas complexos em situações aparentemente banais. Sua produção de tom existencialista também se distingue pela autonomia criativa: ele dirige, escreve, fotografa, monta e compõe a trilha sonora de seus filmes, realizados por meio da Jeonwonsa Film, sua própria produtora. O método de trabalho, baseado em equipes enxutas (de três ou quatro pessoas), orçamentos modestos (US$ 100 mil) e filmagens ágeis (cinco dias), permite que o cineasta mantenha uma regularidade incomum, com exercícios autorais que frequentemente se encontram em festivais internacionais poucos meses depois de sua realização.
Os dois títulos apresentados em São Paulo chegam credenciados por passagens por importantes festivais europeus. “O Dia em que Ela Volta”, filmado em preto e branco, foi exibido na seção Panorama do Festival de Berlim, em fevereiro. “Onde Repousar Meus Olhos”, por sua vez, passou pelo Festival de Locarno, em agosto, de onde saiu com três distinções: Melhor Direção para Hong, Melhor Interpretação para Kim Min-hee e o Prêmio do Júri Ecumênico. Os reconhecimentos reforçam a presença de um cineasta que, mesmo trabalhando longe dos padrões industriais de produção, permanece no centro do circuito internacional de cinema de autor.
Em “O Dia em que Ela Volta”, Hong acompanha uma mulher que abandonou a carreira de atriz depois de se casar e que, após o divórcio, decide retomar a profissão. Ela consegue protagonizar um filme independente e, às vésperas do lançamento, enfrenta uma rodada de entrevistas para divulgar o trabalho. Já na meia-idade, a personagem volta a se expor publicamente depois de um longo período afastada dos holofotes. Ao longo de três conversas, separadas por intervalos de meia hora, tenta responder às perguntas com a maior sinceridade possível. Mais tarde, seu preparador de atuação pede que ela reproduza as entrevistas. É nesse exercício de repetição que alguma coisa escapa: quando chega aos trechos mais importantes, ela não consegue se lembrar do que disse. Cansada, querendo apenas voltar para casa, onde a filha a espera, a protagonista se vê diante dos limites da memória, da representação e da própria capacidade de narrar a experiência.
A premissa oferece a Hong um terreno fértil para explorar as fronteiras entre a vida e a interpretação, um dos temas recorrentes de sua filmografia. A atriz precisa reaprender a ocupar um espaço público, mas também parece confrontada com a dificuldade de reconhecer, nas palavras que pronuncia, uma expressão autêntica de si mesma. A repetição das entrevistas, longe de funcionar como simples exercício profissional, transforma-se num mecanismo de estranhamento: quanto mais ela tenta reproduzir o que viveu, mais a experiência parece escapar. O cinema de Hong encontra nesse pequeno impasse cotidiano uma maneira de abordar as fragilidades da identidade, as convenções sociais e o desgaste provocado pela necessidade de explicar a própria existência aos outros.

Berlinale - Hong Sang-soo na Berlinale


Já “Onde Repousar Meus Olhos” desloca a investigação para o ambiente familiar. Acompanhada do irmão, Sanghee visita a mãe na ilha de Jeju, na Coreia do Sul, dez anos depois de sua última passagem pelo local. O restaurante materno tornou-se um empreendimento de sucesso, e a rotina do estabelecimento contrasta com a distância acumulada entre os integrantes da família. O padrasto está realizando um filme sobre um “túmulo de grama”, enquanto a filha dele acaba de começar a pintar. Entre refeições, conversas e reencontros, circulam informações desconhecidas, conselhos que ninguém pediu e elogios que parecem não dizer muita coisa. Na manhã da partida de Sanghee, os demais familiares assistem a um dos filmes realizados por ela, gesto que introduz outra camada de observação e expõe a maneira como cada um interpreta a vida dos outros.
A visita, que poderia representar uma oportunidade de reconciliação, converte-se numa sucessão de pequenos desencontros. A passagem de uma década não eliminou as distâncias; apenas permitiu que cada personagem construísse uma narrativa particular sobre a própria vida e a dos demais. O restaurante bem-sucedido da mãe, o projeto cinematográfico do padrasto e a descoberta tardia da pintura pela filha dele surgem como sinais de trajetórias que seguiram adiante sem necessariamente se tornarem mais compreensíveis. Hong não precisa recorrer a grandes conflitos para expor essas fraturas. Em sua obra, a intimidade é frequentemente atravessada por constrangimentos, mal-entendidos e palavras que, sob a aparência da cordialidade, escondem desconfortos mais profundos.
A presença de Kim Min-hee, premiada em Locarno, reforça a continuidade da colaboração entre a atriz e o realizador, uma das parcerias mais importantes do cinema sul-coreano recente. Em “Onde Repousar Meus Olhos”, a dinâmica familiar e a observação dos comportamentos cotidianos dão forma a uma narrativa na qual os silêncios podem dizer tanto quanto as falas. O Prêmio do Júri Ecumênico acrescenta outra dimensão ao reconhecimento internacional do longa, cuja atenção aos vínculos, à escuta e às dificuldades de convivência se articula sem recorrer a julgamentos simplificadores.
Ao reunir os dois filmes, a Mostra de São Paulo oferece um recorte significativo da fase atual de Hong Sang-soo. Em um título, uma atriz tenta reconstruir verbalmente uma experiência que já não consegue recuperar por inteiro; no outro, uma mulher retorna ao convívio familiar e descobre que dez anos de afastamento não bastam para tornar transparentes as relações entre as pessoas. Ambos se aproximam pelo interesse na distância entre aquilo que os indivíduos dizem, aquilo que recordam e aquilo que efetivamente conseguem compreender uns dos outros.
A produtividade de Hong, nesse contexto, não deve ser confundida com repetição automática. Seu cinema trabalha por variações: situações, personagens e conversas são reorganizados para revelar novas contradições, como se cada filme testasse uma hipótese sobre o comportamento humano. Ao assumir praticamente todas as etapas da criação — da direção ao roteiro, da fotografia à montagem, passando pela música —, o cineasta preserva uma liberdade formal que lhe permite investigar essas pequenas turbulências com precisão e leveza. Na programação paulistana, “O Dia em que Ela Volta” e “Onde Repousar Meus Olhos” confirmam a vitalidade de uma obra que encontra, na aparente simplicidade do cotidiano, um universo inesgotável de dúvidas, desejos e afetos mal resolvidos.