'Rosebush Pruning' poda a hipocrisia burguesa
Depois de uma passagem calorosa pelo Festival do Rio, há duas semanas, “Rosebush Pruning” chega neste fim de semana ao circuito brasileiro com a disposição de quem não veio ao mundo para aparar arestas, mas para arrancar pela raiz as convenções de uma família apodrecida por dentro. Apesar de se apresentar como um diálogo, no tempo, com “De Punhos Cerrados” (1965), cult do italiano Marco Bellocchio, o longa que pode dar ao cearense Karim Aïnouz o Urso de Ouro da 76ª edição do Festival de Berlim conversa mais — e melhor — com outro italiano, Pier Paolo Pasolini (1922-1975), e seu “Teorema” (1968). Marco de uma década que aprendeu a desconfiar das instituições e dos bons costumes, o filme de Pasolini mergulhava no lodaçal da família burguesa para revelar o quanto a moral pode ser uma encenação conveniente. Em “Rosebush Pruning”, o certo e o errado também trocam de lugar até que a dicotomia se converta numa salada mista, temperada por desejo, ressentimento e segredos de alcova.
Sem explicitar a mesma fúria política de Pasolini ou Bellocchio diante da acumulação de capital, Aïnouz instala seu teatro de perversões numa opulenta vila sob o sol da Catalunha e abre, com o pé na porta, um labirinto de incesto, traição e hipocrisia. O objetivo é tirar um retrato sem retoques de valores que sobrevivem para alimentar discursos autoritários, inclusive aqueles que se escondem atrás da defesa da família tradicional. O empenho em destroçar a fachada moral da alta classe média — e, por extensão, a de uma instituição que fez do amor um dever — resulta num espetáculo cálido, sensual e provocador, com algo da voltagem de “Motel Destino”, indicado à Palma de Ouro de Cannes em 2024. Karim não teme as curvas inesperadas nem as soluções dramatúrgicas mais selvagens. Neste caso, literalmente: há lobos à espreita nesse ecossistema em que a civilização parece funcionar apenas como disfarce para os instintos.
O cineasta reuniu um exército estelar: Callum Turner, Riley Keough, Jamie Bell, Lukas Gage, Elena Anaya, Elle Fanning, Pamela Anderson e Tracy Letts, dramaturgo e ator de destaque nos Estados Unidos. A diretora de casting Nina Gold faz desse conjunto de talentos um puzzle de encaixes precisos, no qual cada rosto parece carregar uma rachadura própria. Jamie Bell está estupendo, enquanto Elle Fanning surge em estado de graça e Pamela Anderson assume a dimensão de uma figura materna cuja ausência continua a assombrar a prole. A estrela maior, porém, talvez esteja atrás da câmera: Hélène Louvart, diretora de fotografia francesa que se tornou o braço direito e o olho esquerdo de Karim, parceira habitual do realizador desde “A Vida Invisível”, premiado com o troféu Un Certain Regard em Cannes, em 2019. Sua luz dionisíaca dá vigor à crônica satírica — e profundamente triste — que o filme compõe sobre uma família e um país.
A fotografia também potencializa o trabalho de direção de arte e design de produção de Rodrigo Martirena, os figurinos de Bina Daigeler — sobretudo os trajes de Pamela Anderson — e a maquiagem de Barbara Kreuzer. Essa combinação visual transforma a vila numa espécie de paraíso artificial, um cenário de luxo que esconde a decomposição dos vínculos afetivos. A beleza das imagens não suaviza o veneno da narrativa; ao contrário, torna mais perturbador o contraste entre a superfície impecável e o que apodrece por baixo dela.
É nesse território espanhol que Anna (Riley Keough) e seus irmãos, Jack (Jamie Bell), Ed (Callum Turner) e Robert (Lukas Gage), vivem entregues ao isolamento e ao tédio proporcionados pela fortuna da família. Sob a autoridade de um pai cego, interpretado por Letts, os quatro se mantêm numa espécie de redoma, atravessada pelo luto da morte da mãe (Pamela Anderson). O dinheiro os protege das necessidades do mundo, mas não os livra das pulsões que transformam a casa num campo minado. Quando Jack, o único integrante do clã que parece disposto a construir uma vida própria, anuncia que vai morar com a namorada, Martha (Elle Fanning), musicista, os laços de sangue começam a ceder. Ed, que vem de um flerte com um homem mais velho, passa a investigar as verdades escondidas naquele lar. As mentiras entre gerações se desmancham, e uma nova forma de predatismo começa a tomar corpo.
Aferrado a seu objeto mais precioso — o desejo —, Karim articula uma dinâmica de desenraizamento e pertença para examinar os resquícios de uma América apodrecida, refletida em cada vértice desse poliedro moral. Embora ambientado na Espanha, “Rosebush Pruning” carrega a inquietação de um retrato dos Estados Unidos, de suas hierarquias e de suas fantasias de superioridade. O thriller aparece como ferramenta de investigação, assim como em “Má Educação” (2004), de Pedro Almodóvar, e “Um Mergulho no Passado” (2015), de Luca Guadagnino. São parentes possíveis de uma obra que faz do segredo familiar uma porta de entrada para discutir poder, identidade e a violência escondida nos códigos de respeitabilidade.
Aïnouz já havia atravessado fronteiras para filmar em inglês com “O Jogo da Rainha” (“Firebrand”, 2023), drama histórico que trazia ecos de “Game of Thrones” ao revisitar a corte de Henrique VIII. “Rosebush Pruning” amplia esse percurso internacional sem diluir a inquietação de um autor interessado nas zonas de atrito entre corpo, desejo e opressão. O filme integra ainda uma trilogia informal sobre a toxicidade masculina e seu declínio, iniciada com “Motel Destino” e atravessada por “O Jogo da Rainha”. Se, no longa protagonizado por Fábio Assunção, o desejo acendia um barril de pólvora numa paisagem cearense, aqui a fortuna e o isolamento oferecem combustível para uma implosão doméstica. A figura paterna de Tracy Letts concentra parte dessa lógica de domínio, enquanto a ausência materna deixa à mostra a fragilidade de uma estrutura que se pretendia eterna.
A chegada de “Rosebush Pruning” aos cinemas brasileiros permite reencontrar, fora do ambiente dos festivais, um Karim Aïnouz disposto a levar sua investigação sobre a família e o poder a territórios cada vez mais incômodos. O resultado é um filme de beleza solar e alma sombria, no qual o luxo não redime ninguém e o parentesco está longe de representar uma garantia de afeto. Como em Pasolini, a crise não nasce da invasão de um elemento estranho, mas da revelação de que a podridão sempre esteve ali, escondida sob os rituais da normalidade.