Valor sentimental da liberdade
Sensação em Locarno, o longa 'Admirável Novo Amor', da norueguesa Maria Bäck, leva às telas paulistanas o olhar sobre desejo, culpa e dilemas femininos dos povos escandinavos
Narrativas escandinavas, de Bergman, a "Valor Sentimental", passando pelo "Dogma 95", sempre atearam fogo existencialista a tramas ligadas ao coração, como "Admirável Novo Amor" ("Fagre Nye Kærlighed"). Depois de disputar o Leopardo de Ouro no Festival de Locarno, na Suíça, o drama dinamarquês de Maria Bäck ganha duas sessões consecutivas nesta segunda-feira (19), às 13h, no Cinesystem Belas Artes Frei Caneca 1, e na terça-feira (20), às 17h10, no Espaço Petrobras de Cinema, sala 3. Haverá ainda uma exibição no dia 28, às 20h45, no Cine Satyros Bijou. O longa investiga os limites entre desejo, responsabilidade e culpa, numa narrativa sobre as contradições de uma sociedade que se orgulha de seu progressismo.
Duas estrelas da Noruega, Kathrine Thorborg Johansen e Anders Danielsen Lie, esbanjam talento nesse delicado estudo sobre a intimidade. Na trama, a hipnoterapeuta Kate (Kathrine, em atuação sublime) vive com o marido, Orla, e a filha, Athena, enquanto mantém um relacionamento secreto com Andreas (Anders). Uma gravidez inesperada, a culpa pela morte de um pássaro e pesquisas rituais envolvendo a mitologia grega ampliam seus conflitos.
"Acho que os escandinavos vivem um paradoxo bastante específico. Temos uma sociedade que se orgulha do modernismo, da igualdade de gênero e de uma espécie de perfeição estrutural. Sob essa superfície, existe uma herança cultural bastante arraigada de vergonha internalizada e uma compreensão conformista do que podemos nos permitir. Existe um tabu em torno de não estar satisfeito quando, aparentemente, se tem tudo: uma família amorosa, uma carreira, segurança. Mas os privilégios não eliminam a vergonha", disse Maria Bäck ao Correio da Manhã, por email.
Um dos títulos mais maduros da competição de Locarno no âmbito da montagem, "Admirável Novo Amor" atravessa o melodrama sem se render às suas convenções, alternando humor e sofrimento com surpreendente leveza.
"Eu queria que o filme fosse como Kate, que resistisse ativamente às convenções e agisse de maneira surpreendente", explica a realizadora. "A vida é riso ao lado de uma dor profunda. Luz e escuridão sempre coexistem. O dilema de Kate é muito humano e, em toda a sua falta de jeito, é ao mesmo tempo trágico e cômico. O oposto da morte é o amor".
Na construção da protagonista, Bäck encontrou em Kathrine uma parceira disposta a explorar as zonas mais desconfortáveis da experiência feminina. "Não nos preocupávamos tanto com a autenticidade cronológica, mas muito mais com a autenticidade emocional. Tivemos longas conversas, mergulhando nas múltiplas perspectivas de Kate em cada cena. Precisávamos lidar com nossa própria vergonha", recorda.
A fotografia de Maria von Hausswolff transforma as paisagens em extensões da subjetividade de Kate, numa elaboração visual nascida da cumplicidade de 15 anos entre as duas artistas.
"Passei muito tempo sozinha em Samos, andando de bicicleta e procurando lugares mágicos, brincando de ser Kate", conclui a diretora.