☰
✕

O faroeste dos nativos da Austrália

Mais famoso cineasta de origem aborígene, Warwick Thornton reabre as feridas históricas de seu povo em 'Wolfram', épico de ação e indignação

Por POR RODRIGO FONSECA

'Wolfram' narra um choque de culturas na paisagem dos povos aborígenes da Austrália


Um dos filmes mais aplaudidos na disputa pelo Urso de Ouro da última Berlinale, "Wolfram" chega neste domingo à 50ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo com a missão de virar pelo avesso um dos gêneros fundadores do imaginário cinematográfico: o faroeste. Às 14h, na Sala Petrobras do Solar Fábio Prado, o australiano Warwick Thornton, mais conhecido realizador aborígene de sua pátria, retoma o território de su aclamado "Doce País" (2017) para narrar a colonização de seu país não pelos olhos dos conquistadores, mas pelos daqueles que tiveram suas terras, sua liberdade e sua identidade tomadas.

Egresso do povo Kaytetye, Thornton transformou a passagem de "Wolfram" pela Berlinale numa aula sobre a apropriação do western por povos historicamente relegados pelo gênero ao papel de inimigos. Na sessão para a imprensa alemã, uma longa sequência de confronto chegou a arrancar aplausos em plena projeção.

"Cresci em Alice Springs, onde só existiam duas salas de cinema e éramos obrigados a ver o que exibiam. O primeiro 'Star Wars', de 1977, por exemplo, só chegou dois anos depois da estreia nos EUA, numa cópia toda riscada. Depois veio o VHS e tivemos a oportunidade de ver o que queríamos, como se estivéssemos numa biblioteca, livres. Ali vimos todos os westerns possíveis. Os de Charles Bronson nunca falhavam", disse Thornton ao Correio da Manhã.

A relação afetiva com o gênero, porém, ganhou para ele uma dimensão política. "Cada vez que víamos um western, havia a sensação de que o cinema estava ali lamentando um tempo que acabou. A questão é: para Alice Springs, esse tempo não acabou. Eu era ainda jovem e via pessoas andando a cavalo pela cidade. O que mudou é o fato de agora termos um 'western aborígene', falando sobre a História a partir de outra perspectiva."

Situado na Austrália colonial da década de 1930, "Wolfram" acompanha três jovens aborígenes que fogem dos cruéis patrões brancos e atravessam as terras áridas da região central do país à procura de segurança. A narrativa se passa cinco anos depois dos acontecimentos de "Doce País", filme com o qual Thornton conquistou o Prêmio Especial do Júri no Festival de Veneza.

Com roteiro de Steven McGregor e David Tranter, "Wolfram" encontra no deserto uma geografia de opressão, mas também de resistência. O próprio Thornton assina a fotografia, explorando a paisagem não como simples cartão-postal, mas como território histórico. Deborah Mailman, Erroll Shand, Joe Bird, Thomas M. Wright e Ferdinand Hoang estão no elenco. "Tento procurar um sentido de estilo sem retratar minhas personagens como vítimas", explicou o diretor. "A redenção é o eixo de uma narrativa centrada na sobrevivência."

É justamente aí que "Wolfram" se distancia da tradição dos bangue-bangues que formaram Thornton como espectador. O revólver, o cavalo, a perseguição e a vastidão permanecem, mas o ponto de vista muda de mãos. No lugar da conquista do Oeste, o cineasta filma quem precisou sobreviver a ela.

"Wolfram" volta à programação da Mostra no dia 23, às 15h, no Cine Belas Artes 1, e no dia 28, às 21h40, no Cinesystem Belas Artes Frei Caneca - Sala 1.