O faroeste dos nativos da Austrália
Mais famoso cineasta de origem aborígene, Warwick Thornton reabre as feridas históricas de seu povo em 'Wolfram', épico de ação e indignação
Um dos filmes mais aplaudidos na disputa pelo Urso de Ouro da última Berlinale, "Wolfram" chega neste domingo à 50ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo com a missão de virar pelo avesso um dos gêneros fundadores do imaginário cinematográfico: o faroeste. Às 14h, na Sala Petrobras do Solar Fábio Prado, o australiano Warwick Thornton, mais conhecido realizador aborígene de sua pátria, retoma o território de su aclamado "Doce País" (2017) para narrar a colonização de seu país não pelos olhos dos conquistadores, mas pelos daqueles que tiveram suas terras, sua liberdade e sua identidade tomadas.
Egresso do povo Kaytetye, Thornton transformou a passagem de "Wolfram" pela Berlinale numa aula sobre a apropriação do western por povos historicamente relegados pelo gênero ao papel de inimigos. Na sessão para a imprensa alemã, uma longa sequência de confronto chegou a arrancar aplausos em plena projeção.
"Cresci em Alice Springs, onde só existiam duas salas de cinema e éramos obrigados a ver o que exibiam. O primeiro 'Star Wars', de 1977, por exemplo, só chegou dois anos depois da estreia nos EUA, numa cópia toda riscada. Depois veio o VHS e tivemos a oportunidade de ver o que queríamos, como se estivéssemos numa biblioteca, livres. Ali vimos todos os westerns possíveis. Os de Charles Bronson nunca falhavam", disse Thornton ao Correio da Manhã.
A relação afetiva com o gênero, porém, ganhou para ele uma dimensão política. "Cada vez que víamos um western, havia a sensação de que o cinema estava ali lamentando um tempo que acabou. A questão é: para Alice Springs, esse tempo não acabou. Eu era ainda jovem e via pessoas andando a cavalo pela cidade. O que mudou é o fato de agora termos um 'western aborígene', falando sobre a História a partir de outra perspectiva."
Situado na Austrália colonial da década de 1930, "Wolfram" acompanha três jovens aborígenes que fogem dos cruéis patrões brancos e atravessam as terras áridas da região central do país à procura de segurança. A narrativa se passa cinco anos depois dos acontecimentos de "Doce País", filme com o qual Thornton conquistou o Prêmio Especial do Júri no Festival de Veneza.
Com roteiro de Steven McGregor e David Tranter, "Wolfram" encontra no deserto uma geografia de opressão, mas também de resistência. O próprio Thornton assina a fotografia, explorando a paisagem não como simples cartão-postal, mas como território histórico. Deborah Mailman, Erroll Shand, Joe Bird, Thomas M. Wright e Ferdinand Hoang estão no elenco. "Tento procurar um sentido de estilo sem retratar minhas personagens como vítimas", explicou o diretor. "A redenção é o eixo de uma narrativa centrada na sobrevivência."
É justamente aí que "Wolfram" se distancia da tradição dos bangue-bangues que formaram Thornton como espectador. O revólver, o cavalo, a perseguição e a vastidão permanecem, mas o ponto de vista muda de mãos. No lugar da conquista do Oeste, o cineasta filma quem precisou sobreviver a ela.
"Wolfram" volta à programação da Mostra no dia 23, às 15h, no Cine Belas Artes 1, e no dia 28, às 21h40, no Cinesystem Belas Artes Frei Caneca - Sala 1.