'A Mostra ajudou a levar o nome de São Paulo para o mundo'
À frente da Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, que chega à 50ª edição, Renata de Almeida lança livro de memórias e recorda encontros, crises e descobertas de uma trajetória iniciada em 1989. O título que escolheu sintetiza a arte de reviver saudades: "Antes Que Eu Me Esqueça: Um Ensaio de Lembranças". Ela viveu alegrias infinitas no evento, que nos últimos anos, recebeu titãs como Francis Ford Coppola e Jafar Panahi, além de ter aberto a carreira comercial de "Ainda Estou Aqui" (2024), de Walter Salles, no país.
O cinquentenário de seu evento enche a mente da cinefilia nacional de flashes nostálgicos de seu fundador, o crítico Leon Cakoff (pseudônimo de Leon Chadarevian). De origem armênia e naturalizado brasileiro, ele nasceu em 1948 e sia família se refugiou no Brasil durante sua infância. Se tornou resenhista e repórter, e passou a dirigir o departamento de cinema do MASP em 1974, onde organizava sessões no auditório.
Em comemoração aos 30 anos do museu, Leon Cakoff fez a primeira Mostra, ainda sob a Censura. Renata, sua parceira de lutas e de vida, nunca deixou que seu legado se apagasse, mesmo seguindo sua própria (e bela) trilha curatorial, juntando pepitas para a Pauliceia ano após ano, desde que Leon partiu, em 2011.
O papo a seguir revisita suas primeiras memórias numa sala de cinema, a crise provocada pelo sucateamento da Embrafilme na Era Collor, a visita de James Gray — que abriu a edição comemorativa, na última quarta, com "Tigre de Papel" e assina o cartaz deste ano —, a homenagem ao produtor português Paulo Branco e os sete meses que passou mergulhada nas próprias lembranças.
A Mostra completa 50 anos indissociável de São Paulo. O que existe na personalidade da cidade que ajudou o festival a tornar-se aquilo que é hoje?
Renata Almeida - São Paulo oferece anonimato. Isso tem um lado bom, pois recebe muito bem os outros lugares do país. Não por acaso, foi um espaço de muita imigração. O próprio Leon Cakoff, criador da Mostra (e finado companheiro de Renata), era um imigrante.
Sua relação com o cinema começou muito antes da Mostra. Quais são suas primeiras lembranças como espectadora?
Eu nasci na Rua Coriolano, na Lapa. Lembro-me de, quando criança, ter ido ver uma sessão com vários desenhos de "Tom e Jerry". Minhas irmãs não aguentavam, queriam sair, mas eu não. Também me lembro de meus pais me levarem para ver "Dersu Uzala", "Tempo de Inocência", "A Gaiola das Loucas" e "A Pantera Cor-de-Rosa".
O Rio de Janeiro tem uma imagem cinematográfica exportada há décadas. São Paulo precisou construir a sua. De que forma Mostra ajudou nesse processo?
São Paulo tem uma desvantagem em relação ao Rio de Janeiro, que é não ter a mesma beleza. A gente não tem praia aqui. Mas, de certa maneira, por conta do trabalho que a Mostra tem feito ao longo destas últimas cinco décadas, as pessoas do universo do audiovisual ouvem falar bem do festival e, a partir dele, interessam-se em conhecer a cidade. A verdade é que a Mostra levou o nome de São Paulo para o mundo e também para outros lugares do país. O Rio de Janeiro está no imaginário do planeta por suas praias. Copacabana é tema de vários filmes. São Paulo não. Com a ajuda da Mostra, conseguimos exportar uma visão da cidade para vários lugares. A Mostra colaborou muito para isso.
Você entrou na Mostra em 1989, justamente quando o cinema brasileiro se aproximava de uma de suas maiores crises institucionais. Como foi atravessar aquele momento?
Entrei na 13ª edição, em 1989. Peguei logo de cara a ressaca do Collor, o fim da Embrafilme.
Quando olha para trás, que encontros condensam para você essa capacidade da Mostra de aproximar diferentes gerações e cinematografias?
Eu me lembro, na 19ª Mostra, de um encontro de Manoel de Oliveira com Gabriel Figueroa. Lembro-me também de uma abertura com Almodóvar.
James Gray abriu esta 50ª edição, na quarta-feira, com "Tigre de Papel", e é também o autor do cartaz comemorativo da Mostra. O que faz dele um cineasta tão importante para esta celebração?
James Gray é cinema. Foi e é um dos grandes da atualidade. Ele consegue ser clássico e rigoroso, mas sempre pessoal. É um cinema que pensa, é um cinema de valorização da estética. Ele é um diretor da mise-en-scène que pensa o papel da família.
Outro homenageado desta edição é Paulo Branco, figura decisiva da produção europeia e especialmente do cinema português, mas também conhecido pelo temperamento combativo. Por que homenageá-lo agora?
Paulo Branco fez uns 300 filmes. Ele teve um filme na segunda Mostra e passou por grandes trabalhos. Produziu Raúl Ruiz, produziu David Cronenberg. É um produtor que briga e que processou Cannes. Essa personalidade difícil, que para muitos é difícil, fez com que ele fosse subvalorizado. Nunca foi homenageado fora de Portugal. Chegou a me mandar um emoji quando soube da homenagem. O cinema português tem outros produtores, mas ele é um dos responsáveis pelo cinema português existir, além de ser distribuidor e exibidor. Ou seja, ataca em muitas frentes.
Leon Cakoff escreveu um livro quando a Mostra chegou aos 30 anos. Em que momento você percebeu que os 50 anos pediam que a história fosse contada agora pelas suas lembranças?
O Leon escreveu um aos 30 anos da Mostra, e todo mundo me cobrava: "Você não vai fazer um quando a Mostra chegar aos 50?". Pensei que teria sentido eu fazer e acabei gostando quando fui escrever.
Foi difícil transformar quase quatro décadas de experiências numa narrativa pessoal?
Foram sete meses de trabalho e fiquei feliz com o resultado, pois muitas memórias estão lá. Acho que ficou gostoso de ler. Trabalhei muito buscando aquilo que poderia fazer algum sentido, revivendo memórias.