Ilya Khrzhanovsky: 'O Mal existe dentro de nós, e é lá que precisamos combatê-lo'
Uma espécie de "Oppenheimer" russo de proporções colossais volta às telas cariocas nesta quarta-feira, às 15h, no Estação Claro Gávea 5, na prorrogação do Festival do Rio. Com 217 minutos, "DAU", de Ilya Khrzhanovsky, toma como figura central Lev Landau, vencedor do Nobel de Física e um dos maiores nomes da ciência soviética, para atravessar quatro décadas, de 1928 a 1968. Acompanhando o cientista dentro de um instituto de pesquisa secreto da União Soviética, envolvido no desenvolvimento da bomba atômica, o longa observa como os mecanismos de vigilância e coerção do Estado infiltram-se nas relações, nos desejos e nas escolhas mais íntimas.
Premiado com o Leão de Prata de Melhor Direção no Festival de Veneza de 2026, Khrzhanovsky nasceu em Moscou, em 1975, numa família profundamente ligada às artes. É filho de Andrei Khrzhanovsky, um dos mais importantes diretores da animação russa, e neto do artista e ator Yury Khrzhanovsky. Estudou na Academia de Belas Artes de Bonn e no Instituto Gerasimov de Cinematografia e cresceu cercado por artistas que experimentaram diretamente a repressão soviética.
Sua relação com a Rússia contemporânea transformou essa memória em posição política. Depois de divergências com o governo de Vladimir Putin, Khrzhanovsky abriu mão da cidadania russa e já estabeleceu relações entre os mecanismos de poder examinados em "DAU" e a Rússia de hoje. Para ele, entretanto, a força do filme não reside apenas na História. Está no mistério: na possibilidade de o cinema tornar visível aquilo que não sabemos explicar.
"DAU" fala da União Soviética, mas é um filme sobre o passado?
ILYA KHRZHANOVSKY - Fiz este filme sobre o presente e sobre o futuro. Usei uma moldura histórica porque é o material que conheço: conheço o material soviético. Não conheço, por exemplo, o período da ditadura no Brasil, mas tenho certeza de que existem muitas coisas em comum. A máquina totalitária, o comportamento humano, as escolhas, o perigo, os desejos, os talentos. Não podemos escolher onde nem em que momento da História vamos nascer.
O que o senhor lembra da União Soviética de sua infância?
Minha principal sensação era o medo. O cinza. E as filas. A União Soviética acabou quando eu tinha 16 anos. Meu pai era um conhecido diretor de animação e uma espécie de dissidente. Seus melhores amigos eram artistas dissidentes, artistas proibidos, pessoas que não podiam trabalhar. Tenho uma reação quase alérgica quando vejo uma fila, porque sinto que passei semanas ou meses da minha vida nelas. As crianças eram mandadas para as filas para conseguir pão, carne, qualquer coisa. Para mim, isso se tornou uma espécie de trauma.
Putin é consequência dessa história soviética?
Claro. Acho que o grande problema é que, depois do colapso da União Soviética, a transição foi suave demais. A estrutura anterior nunca foi realmente enfrentada. Na Praça Vermelha ainda existe o túmulo de Stalin, onde se podem colocar flores, e o corpo de Lenin continua lá. O KGB e o Partido Comunista nunca passaram por um verdadeiro processo de responsabilização. Imagine se, na Alemanha, ainda houvesse um túmulo de Hitler onde fosse possível levar flores. Seria inimaginável.
O sofrimento é necessário para produzir grande arte?
Na Rússia, aprendemos a acreditar que o sofrimento é uma parte necessária da condição do artista. Não acho que seja verdade. Kandinsky não teve uma vida marcada por esse tipo de sofrimento. Picasso também não. Mozart não. Marc Chagall não. Fellini, Antonioni... Há uma lista enorme. Claro que existem artistas que sofreram profundamente, mas não acredito que isso seja condição para alguém ser um verdadeiro artista.
Então por que fazer cinema?
A arte não consegue mudar a vida, mas pode fazer alguém sentir alguma coisa que não conseguimos explicar em palavras. E isso pode ajudar uma pessoa a tomar decisões capazes de manter o mundo um pouco melhor. Penso naquela ideia da borboleta e do movimento de suas asas. Todos os artistas tentam ser essa borboleta: com o movimento das nossas asas, queremos manter este mundo mais bonito e seguro. Mas isso não significa falar apenas de coisas positivas. É preciso saber que o mal não existe somente em algum lugar distante. O Mal existe dentro de nós, e é lá que precisamos combatê-lo.