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Tigre nova-iorquino com listras brasileiras

Thriller de James Gray abre nesta quarta-feira a 50ª Mostra de São Paulo, com produção de Rodrigo Teixeira, astros de Hollywood e uma reflexão sobre a transformação do capitalismo

Por Rodrigo Fonseca - Especial para o Correio da Manhã

Em 'Paper Tiger', novo longa de james Gray (abaixo), Adam Driver é um ex-policial que põe sua família num negócio ilícito

Um dos mais prestigiados cineastas americanos da atualidade vai dar o pontapé inicial nas celebrações dos 50 anos da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, nesta quarta-feira (14), às 19h, na Sala São Paulo, com um tigre nova-iorquino que tem listras brasileiras. É "Tigre de Papel" ("Paper Tiger"), thriller de James Gray produzido pela RT Features, do carioca Rodrigo Teixeira, com Adam Driver, Scarlett Johansson e Miles Teller no elenco.

Egresso da competição pela Palma de Ouro do último Festival de Cannes, o longa-metragem será exibido na abertura da histórica edição do evento paulista, ao lado do curta-metragem "Sul de Teerã", de Kleber Mendonça Filho, sobre o cineasta iraniano Jafar Panahi. A sessão contará com a presença de Gray, que receberá o Prêmio Leon Cakoff, será homenageado com uma retrospectiva e assina ainda a arte do cartaz comemorativo da Mostra.

Dono de uma obra cinematográfica consagrada pela investigação da obstinação, da lealdade e das fraturas familiares, Gray encontra na RT uma aliada de peso. A produtora brasileira, envolvida na conquista do Oscar de "Ainda Estou Aqui" (2024), de Walter Salles, já havia trabalhado com o realizador em "Ad Astra: Rumo às Estrelas" (2019), com Brad Pitt, e em "Armageddon Time" (2022), com Anthony Hopkins e Anne Hathaway. A parceria transformou-se numa amizade alimentada pela cinefilia.

Christina House/Divulgação - James Gray

"Qualquer troca com Gray é uma aula de cinema, pois ele tem um conhecimento absurdo", diz Rodrigo Teixeira, que não esconde o entusiasmo pela colaboração. "Trabalhar com James Gray é muito prazeroso. Eu sempre fui fã dele como cineasta e hoje posso dizer que ele se tornou um grande amigo e um parceiro cinematográfico."

A nova parceria tem como cenário a Nova York dos anos 1980, período em que, segundo Gray, o capitalismo deixou de ser apenas um sistema económico para assumir proporções quase religiosas. A narrativa acompanha os irmãos Pearl, Irwin (Adam Driver), um engenheiro que constituiu família com Hester (Scarlett Johansson), e Gary (Miles Teller), que seguiu carreira na polícia. Quando Gary apresenta ao irmão uma oportunidade de negócio aparentemente irresistível, ambos acabam envolvidos num esquema criminoso ligado à máfia russa. A promessa de prosperidade transforma-se numa armadilha, enquanto os laços familiares começam a desfazer-se sob o peso da ambição e da violência.

"Estive na URSS em 1984 e era uma confusão. Depois, em 1986, após Chernobyl, a União Soviética acabou por se dissolver e, nesse momento, a década de 1980 tornou-se o período em que o mercado passou a ser um deus. Até o carácter começou a ser monetizado", explicou Gray durante a conferência de imprensa de "Paper Tiger" em Cannes, onde concorreu pela sexta vez à Palma de Ouro.

A relação entre capital e afeto é uma das marcas da sua filmografia. Reconhecido mundialmente pela precisão cirúrgica dos enquadramentos, Gray afirmou-se no início dos anos 1990 ao conquistar o Leão de Prata do Festival de Veneza com "Fuga para Odessa" ("Little Odessa", 1994), protagonizado por Tim Roth e Vanessa Redgrave. Depois vieram "Caminho sem Volta" ("The Yards", 2000), "Os Donos da Noite" ("We Own the Night", 2007), "Amantes" ("Two Lovers", 2008) e "Era Uma Vez em Nova York" ("The Immigrant", 2013), títulos nos quais as relações de parentesco e os códigos de fidelidade frequentemente se transformam em tragédias. Em "Z: A Cidade Perdida" (2016), o realizador deslocou essa inquietação para a selva amazónica. Já em "Ad Astra", levou-a ao espaço sideral, numa ficção científica protagonizada por Brad Pitt, na pele de um astronauta que procura o pai desaparecido, interpretado por Tommy Lee Jones. A produção disputou o Leão de Ouro em Veneza e recebeu uma indicação ao Oscar de Melhor Mixagem de Som.

"Gosto do efeito plástico e, em certa medida, existencial, que as viagens, no espaço ou no tempo, geram. Creio que foi o realizador Edwin S. Porter, em 'The Great Train Robbery', quem fundou a percpeção de que os grandes planos podem decifrar a alma humana e revelar muito sobre a nossa essência apenas com imagens. E o cinema existe para isso", disse Gray ao Correio da Manhã durante o Festival de Veneza. "Todo o mito, como toda a grande narrativa, parte de um microcosmo", afirmou.

Essa ideia ajuda a compreender a insistência de Gray em regressar aos conflitos familiares, mesmo quando altera radicalmente a escala dos seus filmes. Em "Tigre de Papel", o microcosmo é novamente o de dois irmãos, mas o horizonte histórico é o de uma sociedade que passa a medir o valor humano pela capacidade de produzir riqueza.

"Um dos maiores elogios que posso receber é ouvir que o meu cinema tem coerência. Se há algo a expressar, isso vai repetir-se. Será sempre o mesmo filme, de certa forma. Não sei se amadureci como outros cineastas, porque continuo muito ligado ao que faço", reconheceu o realizador em Cannes.

Para Rodrigo Teixeira, essa coerência é um dos maiores trunfos de Gray. Carioca radicado em São Paulo, o produtor transformou a RT Features numa das empresas brasileiras de maior circulação internacional, associada a obras como "Me Chame Pelo Seu Nome" ("Call Me by Your Name", 2017), "O Farol" ("The Lighthouse", 2019) e "A Vida Invisível" (2019), de Karim Aïnouz. A sua relação com Gray prolonga uma estratégia de coproduções que aproxima o Brasil de alguns dos principais nomes do cinema de autor contemporâneo.

A 50ª Mostra reservará ainda ao cineasta uma retrospectiva com "Fuga para Odessa", "Caminho sem Volta", "Os Donos da Noite", "Era Uma Vez em Nova York" e "Armageddon Time". Na quinta-feira, dia 15, Gray participará de uma conversa com Walter Salles, depois de nova exibição de "Tigre de Papel", às 19h, na Sala Petrobras, instalada no Solar Fábio Prado.

Além da sessão inaugural desta quarta-feira, "Tigre de Papel" terá outras três projeções na programação: quinta-feira, dia 15, às 19h, no Solar Sala Petrobras; sexta-feira, dia 16, às 18h45, no Espaço Petrobras de Cinema, sala 1; e terça-feira, dia 27, às 21h, no Cultura Artística.