Redentor para a ancestralidade das lutas de sempre
Em meio a expressões autorais multidisciplinares, a competição da Première Brasil coroou 'A Margem do Rio' e 'Elza', dois retratos da força do povo preto deste país, onde fé vira garrote
Entre os modos de ser (brasileiro) mais radicais, no âmbito do cinema, que o 28º Festival do Rio projetou ao longo de seus onze dias - abertos pelo épico espanhol "A Bola Preta" e encerrados na batida techno da dramédia made in USA "Club Kid" - houve uma expressão de serenidade e teve um gesto de picardia que se unem no discurso transmídia.
"Overman", de Tomás Portella, é tira de quadrinho da Laerte em estado vivo, na forma de longa-metragem. Tem Caco Ciocler em modo Michael Keaton (vide "Birdman"), como um super-herói falido, desdenhado pela Gotham City que sempre chamou de lar. Do outro lado, está "Pitico - Hermes Ayres Azevedo (1881-1959) - Historiador da Província, um Julio Bressane entre a literatura memorial e o arquivo epistolar do passado.
Hoje octogenário, o mestre da realização que nos deu "O Anjo Nasceu" (1969) e "Filme de Amor" (2003) levou ao Filmfest München, na Alemanha, este ensaio poético (com Paulo Betti) sobre um historiador apaixonado por sua cidade do interior. Fez um "Invocação do Mal", mas misturado com "Gasparzinho, o Fantasminha Camarada", em tom semiótico. Nem seu Pitico, nem o vigilante dirigido por Portella estiveram em concurso, na briga pelo troféu Redentor. São sui generis demais para o desenho que a curadoria, sob direção de Ilda Santiago previam para 2026, numa celebração transcendente de narrativas de gênero. É gritante o pavimento de suspense (com ecos sobrenaturais) sob "O" ganhador do ano, na ficção: "A Margem do Rio". É um épico. Um épico queer. Trouxe consigo, de Pernambuco, seu polo produtor, um refinamento dramatúrgico inerente a filhas/os de sua terra (como Kleber Mendonça Filho, Renata Pinheiro, Lírio Ferreira) e, de Locarno, na Suíça, o Prêmio do Júri.
Calca-se numa fotografia estonteante (mérito de Luciana Baseggio) para erguer saga sobre desejo e resistência às hipocrisias de igrejas conservadoras com foco no tesão voraz de dois homens num mangue.
Diretores de "A Margem do Rio", o casal Enock Carvalho e Matheus Farias (que trabalharam com Kleber em "Bacurau") expôs, no palco do Odeon (onde houve a entrega dos troféus Redentor, no domingo), a necessidade de a arte brasileira combater o fundamentalismo religioso no flanco neopentecostal. Aliás, durante toda a cerimônia, teve gente a estourar rojões pela virada de Lula nas urnas. Matheus, que cresceu num credo evangélico, diz clamar por "justiça", frente as segregações que vê, balizadas na Palavra (nunca dita, nem escrita) do Senhor.
Numa forma de narrar sinestésica de flerte com o mistério, "A Margem do Rio" segue os passos de Izaquiel (Caique Copque), um auxiliar de serviços gerais do Recife. Num recorte dessa cidade com foco em rotas fluviais e manguezais, o rapaz se aventura perigosamente, noite após noite, em encontros secretos com outros homens. Numa dessas investidas em busca de goza, tromba com o pescador de ar sedutor Jeremias (Ítalo Martins, ator em fase de apogeu em sua arte). O flerte entre eles deixa o jovem zelador magnetizado pelo querer. Durante o dia, contudo, a encantaria do sexo vai embora e dá vez a uma rotina laboral capitalista opressora, no momento em que Izaquiel é escalado para trabalhar na sede de um culto evangélico cujo líder é um pastor boquirroto, que não aceita ver piercings na orelha de seu funcionário, nem tolera ver unhas pintadas nas mãos de seus serviçais. Essa figura, com ares de senhor feudal, que lembra o bispo mau de "O Feitiço de Áquila" (1985), é vivido com brilhantismo por Robério Diógenes, o delegado "imperfeito" de "O Agente Secreto" (2025). Coube à produção ainda as estatuetas de fotografia, de som e de atriz coadjuvante, dividida por Renna Costa, Artia e Ísis Broken, além da láurea LGBTQIAPN+, o prêmio Félix.
O júri da disputa principal do Festival do Rio, chefiado pela espanhola Esther García (produtora da El Deseo, matriz dos filmes de Almodóvar) contou ainda com a compositora Flavia Tygel, a programadora da Berlinale Jacqueline Lyanga; a diretora de elenco Marcela Altberg; e a produtora Sophie Erbs. Eles coroaram Matheus e Enoch ao mesmo tempo em que fizeram festa para um dos documentaristas de maior prestígio das Américas, Eryk Rocha, pelo esplendor de seu "Elza". O novo exercício de não ficção do realizador de "Cinema Novo" (Prêmio Oeil d'Or em Cannes, em 2016) persegue os rastros fonográficos e biográficos de Elza Soares (1930-2022), para entender como ela virou porta-voz das pautas identitárias das mulheres pretas do país. "Nas eleições, vamos decidir se o Brasil prefere ser uma nação ou uma colônia", provocou Eryk. "A Elza é um corpo coletivo. Esse prêmio vai para todas as Elzas espalhadas Brasil afora".
Foram decisões que subvertem normas e celebram a ancestralidade que rejeita grilhões coloniais, corporificando (e espiritualizando) a resiliência das populações pretas do país.
Foi um Festival do Rio mal calibrado nos curtas, com a exceção da pílula vencedora, "Santo", só que perspicaz no tráfego por filões clássicos (como o faroeste) nos longas-metragens, vide o western "Maria de Maria", de Luiza Shelling Tubaldini, e suspense horrorífico "A Professora de Francês", que premiou a atriz Grace Passô dois meses depois de ela vencer Gramado, só que como diretora, com "Nosso Segredo", sua estreia na realização.
Saímos da maratona com um personagem encantador: o cachorro falante Bacalhau. Interpretado por Matheus Nachtergaele, o cão é a medida de brasilidade de "O Filho da Puta", desenho cujo protagonista foi vivido pelo cineasta mineiro Gabriel Martins, ganhador da estatueta de Melhor Direção por "Vicentina Pede Desculpas". É o périplo de uma septuagenária a pedir perdões às vítimas de um desastre rodoviário ao qual seu filho, chofer de lotação.
Terminado o Festival do Rio, chegou a hora e a vez da Mostra de SP, que abre suas atividades na quarta, recebendo (lá dos EUA) James Gray e seu "Tigre de Papel".