Bruno Santamaría Razo: 'Quero acreditar que as interpretações são verdadeiras'
Trinta anos separam uma descoberta infantil de sua reconstrução pelo cinema em "Seis Meses no Prédio Rosa e Azul", longa-metragem com que o mexicano Bruno Santamaría Razo atravessou o Atlântico para desembarcar na Croisette. A produção nasceu em Cannes, na Semana da Crítica, que acolheu em concurso essa coprodução do México com o Brasil e a Dinamarca.
Inspirado nas memórias do realizador e rodado em 16mm, o filme volta à Cidade do México do início da década de 1990. No dia em que completa 11 anos, Bruno percebe que nutre sentimentos pelo melhor amigo, Vladimir, ao mesmo tempo que recebe uma notícia capaz de alterar a estrutura de sua família: seu pai foi diagnosticado com HIV. Como nas canções de salsa, todos cantam e dançam numa tentativa de afastar a dor. Três décadas depois, Santamaría Razo retorna àquelas lembranças para filmar e reinventar aquilo que, menino, não conseguiu compreender inteiramente.
Encerrado no domingo (11), o Festival do Rio ainda ganha uma espécie de prorrogação nesta terça-feira (13), quando "Seis Meses no Prédio Rosa e Azul" volta ao circuito carioca, às 16h45, no Estação Claro Gávea. O filme consquistou o Prêmio da Crítica da Federação Internacional de Imprensa Cinematográfica (Fipresci) e foi adquirido para exibição no Telecine.
Há muito de Brasil em suas imagens. A coprodução nacional é da Desvia Filmes, com participação das produtoras Rachel Daisy Ellis e Camille Reis, além de uma extensa frente brasileira no trabalho artístico e técnico, que passa pelo ator cearense Demick Lopes, pelos montadores Marília Moraes e Eduardo Serrano, pela desenhadora de som Miriam Bideram, pelo compositor Leo Chermont, pelo estúdio de efeitos especiais Aberração Kromatica Filmes, pela produtora executiva Amanda Luna e pelas pós-produtoras Bia Baggio e Ivich.
Autor dos documentários "Margarita" e "Cosas que no Hacemos", Santamaría Razo troca agora a observação da intimidade alheia por uma investigação da própria família. Ao Correio da Manhã, ele fala sobre os limites éticos desse movimento, a importância dos parceiros brasileiros e sua admiração por Eduardo Coutinho.
Em "Margarita" e "Cosas que no Hacemos", você investigava a intimidade de outras pessoas. Agora, volta-se para a própria infância e para as feridas de sua família. O que mudou em sua maneira de filmar quando você passou a ser também matéria-prima do filme?
BRUNO SANTAMARÍA RAZO - Sempre existiu uma pergunta que me incomodava quando trabalhava com Margarita ou com Dayanara, protagonista de "Cosas que no Hacemos": "Que permissão tenho para entrar nesta vida e depois compartilhá-la?". Entendo o valor disso, sei que faz parte do trabalho e que os vínculos criados durante os projetos são profundos e reais, mas sempre existe alguma coisa que me faz perguntar por que estou tendo tanto acesso. Durante a pandemia, por acaso, fechou o lugar onde eu estava fazendo outro documentário, por questões de saúde, morte e medo. Isolado, lembrei-me de outra pandemia que tinha afetado diretamente a minha família e provocado movimentos e lembranças sobre os quais não falávamos. Decidi entrevistar minha família e percebi que as mesmas perguntas voltavam: "Que direito tenho de chegar tão perto?". Mas alguma coisa mudou. Pensei que, se havia chegado tão perto de Margarita e Dayanara, deveria fazer exatamente o mesmo com meus pais. Não poderia haver uma diferença. Quando também entrei no filme, pensei da mesma maneira. O tratamento precisa ser feito com muito cuidado, sensibilidade e amor, mas com disposição para chegar tão profundamente quanto a história exigir. Portanto, meu método de aproximação da intimidade não mudou tanto. Entendi, porém, que essa pergunta estará sempre presente. É uma espécie de ferramenta de cuidado, uma ferramenta ética. Esteja eu trabalhando com outras pessoas, com a minha família ou comigo mesmo como matéria-prima, é preciso chegar até onde as pessoas e a história necessitem e permitam.
O Brasil não aparece apenas como coprodutor nominal de "Seis Meses no Prédio Rosa e Azul". Há uma participação brasileira extensa na construção artística do filme. O que essa colaboração trouxe para você?
Foi uma coprodução incrível. Rachel, Camille e Amanda formaram uma equipe que participou de maneira muito importante do filme. Houve participação brasileira na montagem, no som, nos efeitos, na coprodução. Foi uma colaboração artística realmente necessária. Rachel e Camille estiveram muito próximas, vendo os cortes e opinando desde o roteiro. Uma de nossas produtoras mexicanas também é brasileira e produziu a partir do México. Portanto, existe muita presença do Brasil no filme, mesmo no trabalho feito no México. E sinto que isso não é casual. O filme tem um espírito muito festivo, muito colorido, essa ideia da vecindad, de vizinhança, de crescer em espaços nos quais a intimidade é um pouco rompida, e sinto que há algo disso que também se compartilha com o Brasil. Tudo isso foi fundamental.
E o que conhece do cinema brasileiro? Existem cineastas daqui que dialogam diretamente com seu trabalho?
Conheço esse cinema que vem sendo projetado agora e que se tornou uma referência pela liberdade que possui, pelas vozes às quais permite existir. Eduardo Coutinho é uma referência incrível para muitas coisas que faço. "Margarita" tem muita inspiração no trabalho dele. Lembro também de ter visto "Marte Um", que tem essa questão da comunidade, de estar dentro de uma casa, acompanhando uma família, várias pessoas vivendo naquele espaço. Acho que existe muita relação entre os nossos cinemas e muita verdade, que é uma coisa que me interessa muito nos filmes: acreditar naquilo que estou vendo. Se existe artifício, que ele faça parte da proposta. Quero acreditar que as interpretações são verdadeiras.
Depois de mergulhar nas próprias memórias, para onde você pretende levar seu cinema?
Estou escrevendo um filme que também estabelece um diálogo a partir de memórias coletivas. Desta vez, não serão apenas as minhas. Estou fazendo uma pesquisa, reunindo acontecimentos ocorridos em escolas de ensino médio e que estão ligados a uma questão religiosa.