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FGV se junta ao Festival do Rio como um 'point' - e para ficar

Por Rodrigo Fonseca

A movimentada projeção de "Aldir Blanc - Resposta ao Tempo", na sala da FGV

Sessões de “Especial Afronta!” - documentário de 87 minutos - às 18h45 - e “Medley” - ficção de 93 minutos, antecedida pelo curta de animação “Esperança” -, às 21h, são as atrações desta quinta-feira no mais novo endereço do Festival do Rio: o Centro Cultural FGV, na Praia de Botafogo. Em 2026, a Fundação Getúlio Vargas passa a integrar oficialmente o circuito da maratona cinéfila carioca, que segue até domingo, com uma programação totalmente gratuita. A entrada da instituição no mapa da 28ª edição da micareta cinematográfica da cidade amplia não apenas a oferta de lugares para espectadores – são 281 assentos no auditório projetado por Oscar Niemeyer –, mas abre uma frente acadêmica para discussões acerca do audiovisual.

“A FGV acrescentou forte à nossa programação a sua marca, que traz uma dimensão acadêmica para nossas atividades”, explica o crítico Ricardo Cota, um dos curadores do Festival do Rio, em depoimento por telefone ao Correio da Manhã.

A aliança foi estabelecida com a FGV Arte, braço da Fundação que, nos últimos anos, ampliou sua atuação no campo das artes visuais, com exposições como “Chorei Rios” e ocupações da Esplanada da instituição. Há cerca de um ano, Cota foi convidado a desenvolver um projeto que envolvesse cinema. Sua resposta veio quase imediatamente: aproximar a FGV do Festival do Rio. “Eles acharam que seria a melhor chancela, porque divulga o Rio de Janeiro e divulga a FGV, tanto a FGV Arte quanto o trabalho acadêmico da FGV, além do compromisso com a formação de público e de plateia junto com o Festival do Rio”, diz Cota.

Num depoimento ao site do Festival do Rio, Maria Fernanda Baigur, coordenadora da FGV Arte, destacou o impacto da parceria, que tem programação 100% gratuita e dedicada ao cinema nacional. “Para a FGV, integrar a programação do Festival do Rio diz muito sobre o que queremos construir: formar públicos, aproximar pessoas e fazer a cultura ocupar cada vez mais espaços”, afirmou Baigur nas mídias do Redentor.

Uma espécie de ensaio para essa aproximação aconteceu em março, com o Cine Iniciado, evento de dimensões menores. O passo seguinte foi transformar o Auditório Niemeyer numa sala capaz de receber o Festival. O espaço, que originalmente não funciona como cinema permanente, ganhou estrutura tecnológica adequada às projeções.

“Estudamos toda a parte da tecnologia para adaptá-lo para uma sala de cinema. É uma sala que não é um cinema constante; é uma sala de cinema feita para determinados eventos”, explica Cota.

Divulgação - O crítico Ricardo Cota

Para receber a maratona, o Centro Cultural FGV foi equipado com tela scope, projeção Digital Cinema Initiatives (DCI) 4K e sistema de som 5.1. O acordo envolve ainda a Escola de Comunicação da FGV (FGV Comunicação). Cota assumiu a engenharia curatorial desse novo braço do festival com uma premissa definida: dar protagonismo à produção nacional e garantir acesso gratuito. “O objetivo da curadoria era ter filmes brasileiros, lançamentos, apenas filmes brasileiros, gratuitos, lançados no espaço da FGV, com tapete vermelho, com apresentação dos diretores, com uma valorização do cinema”, afirma.

O desenho, porém, ultrapassou as estreias. Entraram na programação séries, curtas-metragens e títulos históricos, caso de “Janela da Alma”, de Walter Carvalho e João Jardim, cuja trajetória de 25 anos foi celebrada no local. “Exibimos curtas-metragens, vai ter uma sessão especial de curtas no sábado, lançamentos de série, tudo voltado para o audiovisual brasileiro. Essa foi a curadoria”, resume Cota.

A parceria estende a experiência cinematográfica para fora do auditório. Neste sábado, a Esplanada da FGV será convertida em cinema a céu aberto. Para Cota, a própria posição geográfica do complexo, em Botafogo, funciona como uma vitrine para o evento. “Aquela Esplanada ali, não tem como: quem vai para o aeroporto passa por ali, vê o nosso banner, que ficou lindo, do Festival do Rio. Enfim, é um grande espaço de promoção.”

Segundo ele, a Fundação assumiu a infraestrutura necessária à empreitada: “A FGV bancou toda a parte tecnológica, toda a parte dentro da FGV de material, e parte dos seus funcionários esteve com a gente. A FGV ofereceu o espaço e a tecnologia, e o festival entrou com a curadoria.” O caráter formador da aliança aparece também fora das sessões. Paralelamente às projeções, a Fundação promove encontros acadêmicos inspirados pelos títulos exibidos, dentro da programação “Cinema e Cultura Visual”. “É um espaço que oferece também a possibilidade de debates acadêmicos. A FGV está realizando programas, paralelamente à projeção de filmes, de debates acadêmicos para seus alunos, inspirados nos filmes que estão sendo exibidos”, explica Cota.

Em declaração publicada no site oficial da FGV, a diretora do Festival do Rio, Ilda Santiago, destaca justamente o impacto da incorporação de uma nova sala ao circuito.
“O Rio de Janeiro precisa de novos equipamentos culturais que levem o cinema para outros públicos. O que a FGV Arte traz para o festival é uma nova sala, com projeção de alta qualidade, onde filmes brasileiros inéditos serão exibidos. Sessões com a presença de equipe e elenco em uma programação totalmente gratuita para o público, um luxo que os cariocas merecem”.

Também em depoimento publicado no site oficial da FGV, Patricia Werner, professora da Escola de Comunicação da instituição, associa a iniciativa à democratização do acesso. “Receber o Festival de Cinema do Rio reforça nosso compromisso com a formação de novos públicos e a democratização do acesso à arte e à cultura”, afirma.

Ela ressalta ainda a estreia das projeções na Esplanada, reunindo crianças atendidas pelo Programa Educativo da instituição, organizações sociais e público em geral. Desde o início da programação, em 3 de outubro, o endereço recebeu atrações como a première mundial de “Aldir Blanc – Resposta ao Tempo”, de Marcus Fernando e Hugo Sukman, e a sessão de gala de “Feito Pipa”, de Allan Deberton, escolhido pela Academia Brasileira de Cinema para representar o país na disputa por uma vaga no Oscar 2027 de Melhor Filme Internacional. Passaram ou passam ainda pela programação “Vitória da Paz”, sobre Joana Zeferino da Paz, e “No Passo da Cobra”, registro autobiográfico de Estevão Ciavatta sobre seu processo de regeneração após um acidente. Mais do que uma ocupação restrita a 2026, Cota vê a experiência como o início de uma relação permanente. “Essa parceria veio para ficar. Tudo bem que a gente não sabe, com esse Brasil, o que vai ficar e o que não vai, mas, enfim, é uma parceria que veio para ficar, com um espaço novo para o Festival do Rio”, afirma Cota.

O curador destaca tanto o acréscimo de quase 300 lugares ao circuito quanto as possibilidades abertas pelo encontro entre universidade e audiovisual. “Estão todos satisfeitos. A diretoria da FGV está satisfeitíssima, o Festival do Rio está satisfeitíssimo, e eu espero que, pelo menos, a gente continue realizando essa parceria nos próximos anos com o Festival do Rio e também realizando mostras. Acho que isso está de bom tamanho para o que a FGV pretende nessa sua aliança: cinema, mas principalmente cinema brasileiro.”

Depois da programação desta quinta, a tela da FGV recebe, na sexta-feira, “Amadeo e o Hipotético Mundo Novo”, às 18h45, e “No Passo da Cobra”, às 21h15. No sábado, a programação inclui “O Capitão Engarrafado”, às 14h; nova sessão de “Amadeo e o Hipotético Mundo Novo”, às 16h; “Por Que Não?”, acompanhado do curta “Tanaru”, às 18h45; e, às 21h15, o “Panorama de Curtas Cariocas”, formado por “Amor Inteligente”, “A Casa do Pai”, “Pique-Pega” e “Revelação”. No domingo, último dia do Festival do Rio, o Cinema Circulação leva à FGV os documentários “Milton Bituca Nascimento”, às 18h45, e “Ritas”, às 21h15.