Nanda Costa roga a Deus e manda bala em 'Maria de Maria'
Desde que sua diretora, Ilda Santiago, homenageou Sergio Leone (1929-1989) com uma mostra completa, lááááááá em 2004, o Festival do Rio abriu suas portas para o faroeste e acolheu os bons exemplares do gênero que lhe foram oferecidos, mas não teve eco no cinema brasileiro nessa busca, dada a quantidade microscópica de expressões nacionais do gênero. Vez por outra, há uns efeitos Denorex (parece, mas não é), como (o tal do) “Oeste Outra Vez” (2024) na área, mas são apenas fogachos, embora o Rio Grande do Sul tenha alguns épicos gauchescos que bebem com elegância em John Ford – caso de “A Cabeça de Gumercindo Saraiva”, de 2018. Entretanto, na noite de 7 de outubro de 2026, a Première Brasil viu um western entrar em campo atrás do troféu Redentor. “Maria de Maria” é seu nome. Quem cresceu vendo “Trinity” (Bud Spencer e Terence Hill) sabe que essa questão de nomenclatura conta nas pradarias fedidas a chumbo do far west. Luiza Shelling Tubaldini, a realizadora da fita, entendeu as lições que aprendeu vendo um bangue-bangue atrás do outro no perímetro paulista onde cresceu, sobretudo em uma sessão às terças-feiras.
No Rio, a TV Globo tinha a “Sessão Western”, nas tardes de sábado, e a gente lia “Estefânia”, bolsilivros com historinhas de xerifes e pistoleiros impressas em papel-jornal, sem contar as HQs de Tex, Judas e Bella & Bronco. SP tinha seus próprios ritos com caubóis na tela grande. Nesses rituais cinéfilos e em sua vasta cultura audiovisual, Shelling fez jus a uma máxima que o titã espanhol Pedro Almodóvar disparou ao levar a Cannes o curta-metragem “Estranha Forma de Vida”, em 2023: “Os melhores faroestes do mundo hoje são feitos por mulheres”.
O manchego por trás de “Fale Com Ela” (2002) se referia a “The Rider” (2017), de Chloé Zhao, a “First Cow” (2019), de Kelly Reichardt, e a “Ataque dos Cães” (2021), de Jane Campion, somando a essa turma o desempenho de Kelly Reilly na série “Yellowstone”, engolindo Kevin Costner. Talvez Almodóvar não tenha tido a chance de ver “Maria de Maria”, mas, quando o fizer, trará Shelling para esse seu panteão, não tanto por suas destrezas técnicas (que existem... e são muitas), mas por sua maneira de dilatar o cânone e celebrar o espaço (o território geográfico) como um eixo de reinvenção de morais.
Um ano depois de “Love Kills”, um longa de vampiros, Luiza Shelling Tubaldini regressa à briga pelas láureas do Festival do Rio calcada, uma vez mais, num diálogo com o quadrinista Danilo Beyruth (“Bando de Dois”). Ele entra como inspiração para o argumento, mas alimenta, em certa medida (consciente ou não), uma imagética muito próxima da linguagem gráfica das HQs. Os enquadramentos da diretora, sobretudo nos closes, lembram os “quadrões” das revistinhas da Sergio Bonelli Editore, como (o já citado) Tex Willer e o Ken Parker de Ivo Milazzo e Giancarlo Berardi – faroestes territoriais, nos quais a Natureza é coprotagonista. Jacob Solitrenick, o diretor de fotografia de Shelling, parece brincar com uma sensação de artificialismo (em especial em sequências noturnas), como fazem os ilustradores de graphic novels, alcançando com isso um de seus exercícios visuais mais criativos. É como uma noite desenhada em papel couchê.
Mais do que o traço quadrinístico, Luiza Shelling Tubaldini avança, sem travas, por códigos pop de outras artes, não apenas pelo próprio cinemão de gênero, mas também pelo épico televisivo, no qual se conversou um bocado com os tropos do faroeste, em especial em folhetins das seis (da Globo) e nas novelonas de Benedito Ruy Barbosa (como o “Renascer” original, de 1993), com toques do Jayme Monjardim de “Ana Raio e Zé Trovão” (1991). Acredite: essa analogia, aqui, não é um demérito; é um sinal de personalidade. “Maria de Maria” tem suas imperfeições, mas é uma expressão estética genuína. E tem uma Nanda Costa com sangue no olho.
Sua trama e sua narrativa papeiam frontalmente com “Os Homens Querem Paz” (1991), telefilme em forma de especial de TV (a primeira “Terça Nobre” do Plim-plim), baseado num roteiro de 1957 do paraibano Péricles Leal (1930-1999). Péricles conta a cruzada revanchista de um cangaceiro do bando de Lampião que regressa a uma cidadezinha onde foi alvejado pela Volante (as forças da lei) e acabou por ser linchado em praça pública, numa humilhação a céu aberto. Anos depois da coça e de uma temporada na prisão, o bandido social (vivido por Paulo Betti) volta em busca de sangue. Caberá a uma virgem (Letícia Sabatella) deter sua fúria.
O enredo de Shelling, escrito por ela com Pablo Padilla (sob engramas de Beyruth), bebe da mesma sede. Nele, vamos ao Brasil de 1940, onde Maria (Nanda, atordoante a cada cena), uma jovem cangaceira, descobre-se grávida e, após o extermínio de seu bando, foge para o Centro-Oeste para dar à luz e recomeçar sua trajetória neste mundaréu. Ingressa no programa governamental Marcha para o Oeste, de Getúlio Vargas (1882-1954), que prometia 30 hectares de terra a pequenos agricultores. Conta com a ajuda de um jovem recém-formado, estudioso de minérios (João Campos, infalível), cujo sonho é encontrar ouro. Eles se unem por necessidade, embora ele a admire, embevecido pela verve de valquíria da mulher diante de si. Aos poucos, algo mais vai nascer, conforme a dupla luta para que o solo dê frutos e o rio traga pepitas em suas veias auríferas. Aos poucos, contudo, a figura de um coronel de cabresto, encarnado por um Antonio Grassi com pinta de Tommy Lee Jones, ameaça trazer o pior do pretérito imperfeito de Maria.
Vemos, ao longo de uma hora e meia, uma estrutura fordiana de western de desbravamento, à luz de vetores românticos movidos a falas sagazes. Uma conversa sobre o conceito de “família” é o ápice dramatúrgico do script. A ação... essa diva tão esperada... demora a chegar. Quando chega, é pra ficar na memória, sobretudo pela artesania dos enquadramentos de Solitrenick e pela destreza de Nanda, que parece a Cat Ballou de Jane Fonda, em “Dívida de Sangue” (1965).
Sem vergonha alguma de estilizar o que vemos, Luiza Shelling Tubaldini fez a gente acreditar no desejo de ter um faroeste nacional. E olha que tivemos “Rogo a Deus e Mando Bala” (1972), de Osvaldo de Oliveira, com o diretor Carlão Reichenbach no elenco, e “Gregório 38” (1969), de Rubens da Silva Prado. Vale lembrar as influências dos caubóis de Howard Hawks e John Ford em “A Herança” (1970), a versão de Ozualdo R. Candeias para “Hamlet”, de Shakespeare, com David Cardoso de Hamlet e Aguinaldo Rayol de Fortimbrás. Investe-se nesse “formato” lá fora desde o alvorecer do século XX.
Dirigido por Edwin S. Porter, “O Grande Roubo do Trem”, de 1903, é considerado uma das pedras fundamentais do western. Em 1909, com a estreia de “O Caubói Milionário”, Thomas Hezikiah Mix, ou apenas Tom Mix, tornou-se o primeiro ídolo da linhagem do bangue-bangue na telona, abrindo precedentes para heróis pistoleiros como John Wayne, Gary Cooper e Henry Fonda.
Tratado como uma variável das histórias de aventura, o termo western foi aplicado ao cinema pela primeira vez em 1912, na revista Motion Picture World, para caracterizar narrativas voltadas para o desbravamento das fronteiras americanas. A julgar pela reflexão feita pelo pesquisador B. A. Botkin, no livro “A Treasury of American Folklore”, filmes como o de Porter surgiram porque “os americanos, por falta de mitos e de tradições, tiveram de conceber seus próprios heróis, saídos estritamente de seus mundos. Eles escolheram ou criaram heróis à sua semelhança. O western, assim, evoca a epopeia dos pioneiros que conquistaram e colonizaram a nação, satisfazendo no coração de seu povo (leia-se os espectadores) os anseios de uma consciência mítica ancestral. Esta consciência nasceu de uma revisão dos causos narrados em baladas de menestréis nas ruas e nas dime novels ou pulps, vendidos a centavos nas bancas”.
Segundo Paulo Perdigão (o maior crítico que este país já teve), em “Western Clássico – Gênese e Estrutura de ‘Shane’” (Porto Alegre, L&PM, 1985), a encarnação ideal do westerner (o caubói) é “a imagem do homem que, vindo do horizonte, porta uma aura de mistério, condenado à solidão dos degredados”. Perdigão segue: “Com a majestade dos cavaleiros andantes, os caubóis debatem-se entre a honra e o dever, fazendo toda uma nação (os EUA) e seus demais consumidores pelo mundo entenderem que o mito é sempre uma história acompanhada de um ritual. E existem quatro antinomias centrais na mitologia do faroeste: Bem/Mal; Força/Fragilidade; Dentro/Fora da Sociedade; e Selva/Civilização. Soma desses quadrantes num cabo de guerra de sentidos, o herói do Oeste clássico é sempre um herói de excepcional habilidade em busca de ingressar em um grupo social, mesmo sendo de fora dele, e alcança seu objetivo impondo sua força e sua virtude”.
Todos esses saberes estão em “Maria de Maria”, com singeleza. A montagem de Danilo Lemos e Larissa Armstrong é plenamente integrada ao projeto artístico da diretora e coerente com as gramáticas do faroeste dos anos 1940 e 1950, num dinamismo exemplar.
O Festival do Rio 2026 segue até domingo.