Ginevra Elkann entre as pétalas da força feminina
Em cartaz no Festival do Rio, com novas sessões nesta quinta-feira, às 13h45, no CineCarioca José Wilker 2, e domingo, às 16h30, no Estação Claro Rio 4, “As Rosas de Marrakech” (“The Roses of Marrakech”) traz Ginevra Elkann de volta ao Brasil com uma reflexão sobre envelhecimento, memória e diferenças de classe embalada pela geografia marroquina. Aos cuidados da cineasta de “Magari” (2019) e “Te l’avevo detto” (2023), Marrakech deixa de ser mero cenário e assume função dramatúrgica, sobretudo no jardim da mansão onde vive Madame Isabelle, papel confiado à estrela francesa Fanny Ardant. Leila (Nisrin Erradi), governanta da propriedade, vê a ordem que construiu para si ser abalada pela chegada de uma pessoa de seu passado.
“O jardim é o lugar da natureza e, nesse sentido, pertence a todos. Dentro da casa, pelo contrário, existe uma hierarquia muito mais evidente. A senhora vive no último andar e as outras pessoas estão lá embaixo. Essa hierarquia é muito mais marcada dentro da casa. No fim, o jardim torna-se de todos”, explica Ginevra, numa conversa via Google Meet com o Correio da Manhã, lembrando que nasceu em Londres, passou parte da infância no Rio e em Paris e vive na Itália desde os 7 anos.
Nessa arquitetura de relações sociais, Fanny Ardant encarna uma mulher de outro tempo. A presença da atriz de “A Mulher do Lado” (1981) e “De Repente, Num Domingo” (1983), ambos de François Truffaut, permitiu a Ginevra confrontar sua própria memória cinéfila com a personagem que pretendia construir. A realizadora tem, desde seu curta de estreia, "Vado a Messa" (2005), um cuidado em abordar as doídas fronteiras entre o Ontem e o Agora.
“Fanny representava todo um mundo: uma elegância, uma voz e, sobretudo, uma graça que é absolutamente dela. Enquanto filmávamos, eu olhava para o monitor e via também todos os filmes com Fanny que vi durante a minha vida. Mas ela me deu muito de si mesma. Isabelle tem teatralidade, humanidade, raiva, carinho e humor. É uma personagem muito complexa. Fanny é uma grande atriz e podia ser essa grande senhora, essa personalidade enorme. Ela pertence também a um outro tempo”, diz a diretora, que desenvolve um longa a ser produzido pelo artesão autoral Marco Bellocchio sobre uma rainha da Itália.
Esse “outro tempo” de que ela fala é uma das matérias-primas de “As Rosas de Marrakech”. Ginevra enxerga a velhice menos como tema isolado do que como uma forma particular de relacionamento com o passado. “Este filme é também sobre o envelhecimento. O que significa envelhecer? O que significa a solidão? Significa viver das recordações, carregar consigo todo o seu passado e voltar a ele. As pessoas mais velhas sempre me fascinaram porque trazem tantas histórias de um mundo muito bonito e que agora está mudando profundamente. Este é um filme sobre uma passagem. Para mim, convivem nele duas forças muito importantes: a força da morte, que está chegando, e a força da vida.”
É pelo som que esse embate ganha cadência. As cinco orações diárias muçulmanas, os pássaros, aviões e ruídos vindos das ruas atravessam os limites da propriedade e funcionam como um relógio invisível.
Para Ginevra, a descoberta fundamental proporcionada pelo longa foi justamente a percepção do tempo como elemento da construção cinematográfica. “É o mundo exterior que invade a casa e lembra a seus habitantes que, por mais rígidas que sejam suas hierarquias, nenhuma ordem consegue permanecer intacta para sempre”, diz a diretora.
O 28° Festival do Rio termina neste domingo.