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Animando nossa alma de vira-lata

Artesão maior da animação nacional, Otto Guerra se une a mais três cineastas na criação de um desenho sobre a busca da paternidade que arrebatou a Première Brasil por sua excelência

Por Rodrigo Fonseca - Especial para o Correio da Manhã

O cão Bacalhau (na voz de Matheus Nachtergaele) testemunha Ismael (Gabriel Martins) se safar de perigos de jeitos tortos em 'O Filho da Puta'

Mais surpreendente (e vigoroso) de todos os concorrentes de ficção apresentados na disputa oficial pelo Redentor de 2026 até agora, "O Filho da Puta", dobradinha criativa da lendária Otto Desenhos Animados com a Anaya Produções, é uma mistura de Chaplin com Glauber Rocha num sertão mineiro com cara de Nordeste, regado a Odair José. Egresso da seção Contrechamp (Contracampo) do Festival de Annecy, espécie de Cannes da animação, na França, essa joia foi dirigida a oito mãos, por Sávio Leite, Érica Maradona, Otto Guerra e Tania Anaya, sob o sólido pavimento do roteiro de Carla Guimarães.

Ganhou prêmio no AnimaFest Zagreb, na Croácia, uma das mais antigas mostras animadas do planeta, que está em sua edição número 54, em junho, e... devagarzinho... espalha-se planeta adentro, com uma direção de arte arrebatadora. O visual lembra xilogravura e o poster de "Deus e o Diabo na Terra do Sol" (1964). O clima é meio Graciliano, ainda que a ironia escrachada seja Otto puro, com direito ao gogó do cineasta Gabriel Martins como voz do protagonista.

"Passamos na Suíça já, também, estivemos no Cine BH... e, aos poucos, vamos ganhando tela", dizia Otto Guerra, que parece ter superado sua (até então) obra-prima, "Wood & Stock" (2006).

A trama de seu novo filme (erguido com Érica, Tania e Sávio) se passa na pequena vila de Veredas, onde fica a Casa Rosa, um famoso bordel administrado pela mãe do protagonista, Ismael. Por causa disso, ele é conhecido como o "Filho da Puta". Tentando deixar essa realidade para trás, Ismael se afasta dos laços maternos em busca das duas coisas que nunca conheceu: seu pai e o oceano. Um amigo vai com ele pelo caminho, o cachorro aleijado (que fala... pacas) Bacalhau, o personagem mais sábio - e encantador - do Festival do Rio nº 28, graças ao talento do eterno João Grilo, Matheus Nachtergaele. Esse campeão de bilheteria trabalhou com Otto antes, em "A Cidade dos Piratas" (2018).

A música de João Omar é um dos eixos mais elogiados da saga de Ismael, que pode valer um prêmio de coadjuvante a Nachtergaele. "Achei que é uma pequena obra de arte. Eu digo 'pequena' porque ela tem uma singeleza que condiz com o que eu acho que a gente é, lá no fundo: um país vira-lata, de um aspecto singelo comovente, correndo um perigo, sem uma pata, tipo o Bacalhau", diz Nachtergaele. "Vi o longa no dia seguinte à eleição. Fui ao cinema tristonho, mas pensando: 'vai ser bonito'. E foi. Saio dele numa outra animação".

Gabriel Martins, o Ismael, dirige o que promete ser o competidor mais forte de Otto, Érica, Tania e Sávio: o comovente "Vicentina Pede Desculpas", que passa na sexta.