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Uns chamam de amor. Yukiko Sode chama de liberdade

'Todos os Amantes da Noite', sensação japonesa de Cannes, chega ao Festival do Rio nesta quarta, com Tadanobu Asano e Yukino Kishii numa delicada história sobre duas solidões

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'Todos os Amantes da Noite' brigou pelo troféu Un Certain Regard de Cannes

Rodrigo Fonseca

Especial para o Correio da Manhã

Udos filmes que levaram o Palais des Festivals de Cannes a se engatar, em coro, naquele sonoro "Ownnnn!!!" reservado às histórias capazes de gerar ternura, "Todos os Amantes da Noite" ("All The Lovers In The Night") chega nesta quarta-feira ao Festival do Rio. A sessão está marcada para as 13h30, no CineCarioca José Wilker, com repeteco no domingo, às 20h30, no Estação Claro Rio. Selecionado para a Un Certain Regard na Croisette, o longa da cineasta Yukiko Sode redesenha códigos do romantismo ao aproximar duas pessoas que encontram uma na outra não a promessa de completude, mas a possibilidade de preservar singularidades.

No dia de sua apresentação em Cannes, seu astro mais conhecido, Tadanobu Asano, celebrava também o êxito de sua mais recente investida em Hollywood, "Mortal Kombat 2". Intérprete de Lord Raiden, o Senhor dos Relâmpagos, na franquia inspirada no videogame que marcou os anos 1990, o ator brincou com o Correio da Manhã na Croisette ao evocar a expressão nerd "Fatality", típica do jogo. Em "Todos os Amantes da Noite", porém, seu registro é outro. A direção de Sode constrói um pavimento de lirismo para uma quase "love story" feita mais de aproximações, silêncios e pequenos gestos do que das convenções tradicionais do romance.

"A forma como vejo as relações amorosas não tem lugar para perdas de individualidade. Se tenho duas pessoas, tenho duas singularidades e quero que ambas possam correr livres, sem depender uma da outra, respeitando o espaço alheio", disse Sode ao Correio, em Cannes, ao lado de Asano e Yukino Kishii.

Adaptado do romance de Mieko Kawakami, "Todos os Amantes da Noite" acompanha Fuyuko (Yukino), uma revisora freelancer cuja existência é pautada pelo isolamento. Quase sem contato com outras pessoas, ela preserva um ritual particular em seus aniversários: caminhar sozinha pela cidade à meia-noite. Essa rotina começa a se transformar quando conhece Mitsutsuka (Asano), um reservado professor de Física que a convida a conversar sobre a luz. Os encontros tornam-se frequentes e, pouco a pouco, os dois permitem que segredos e feridas venham à superfície. "Quando descobri a obra do já falecido Edward Yang, encontrei um retrato delicado da sociedade de Taiwan, mas esse olhar aparecia sempre por meio da observação das trocas entre indivíduos. O centro da obra dele eram as pessoas. O meu também é, embora elementos culturais do Japão e marcas do melodrama apareçam neste filme", explica Sode. "Sigo os desejos de Fuyuko e Mitsutsuka e acompanho os sentimentos deles antes de me prender a qualquer parâmetro da nossa sociedade".