Eternamente Tendler
'Pontos de Partida', canto de cisne do papa da História no documentário nacional, estreia no Rio, num tributo póstumo à sua obra
Um ano e um mês depois da morte de Silvio Tendler (1950-2025), seu legado volta ao Festival do Rio nesta terça-feira, agora pelas imagens que deixou como herança. "Pontos de Partida", último projeto do realizador consagrado como o "papa do documentário histórico brasileiro", integra a Première Brasil, na seção O Estado das Coisas, com projeção nesta noite, às 18h15, no Estação Claro Gávea.
Funciona como um adeus particularmente coerente para um cineasta que transformou memória, cidadania e indignação política em matéria audiovisual. Tendler deixou o longa inconcluso ao morrer, em 5 de setembro de 2025. Coube ao produtor Cláudio Kahns finalizar esse experimento geopolítico, que passa nesta quarta, às 19h, no Estação Claro Rio, e na quinta, às 18h, no CineCarioca José Wilker.
Há dois anos, Tendler apresentou no Festival do Rio "Brizola - Anotações para uma História" (2024), um de seus últimos mergulhos nos personagens da política brasileira. Em 2017, viveu ali uma de suas consagrações mais emocionantes: "Dedo na Ferida" recebeu o prêmio do júri popular e Tendler, já numa cadeira de rodas, foi levantado para chegar ao palco e receber a láurea, sob uma ovação.
"O Rio é minha cidade. Copacabana é meu país", disse ao Correio, lamentando a miséria nas ruas e defendendo o neorrealismo como ferramenta para expor as contradições da cidade: "A cidade é bonita. Feia é a miséria e o destrato a que submetem nossa população".
Com 101 minutos, "Pontos de Partida" recupera uma iniciativa nascida em 2004, quando a política cultural brasileira deu origem ao Cultura Viva e à rede de Pontos de Cultura, que alcançaria cerca de 3,5 mil núcleos espalhados pelo país. O olhar se concentra sobretudo nas periferias de São Paulo e na tentativa de descentralizar o acesso à produção cultural, levando protagonismo a manifestações distantes das instituições tradicionais.
"Nenhum outro país do mundo é tão generoso em juros para os bancos quanto o Brasil", dizia Tendler. "São as taxas mais altas do mundo, mesmo considerando o capitalismo financeiro não produtivo, especulativo. Ele é uma chaga internacional que vive quebrando países e circulando pelo mundo de forma predatória".
A resiliência da rebeldia estudantil e artística parece funcionar como uma derradeira profissão de fé de um diretor que nunca separou cinema de intervenção social.
"Acredito na construção de uma economia solidária, que respeite os seres humanos, o meio ambiente, os animais, a diversidade cultural, sem se preocupar se um dia ela será chamada de socialismo ou humanismo", dizia o documentarista de maior sucesso popular da nação, graças aos blockbusters "Os Anos JK - Uma Trajetória Política" (1980), "Jango" (1984). "Morrerei otimista".