Estética para desarrumar vitrines
Valentina Maurel reafirma seu papel como porta-voz de uma nova (e menos machista) Costa Rica em 'Para Sempre Seu Animal Materno', premiado em Cannes
É duro carregar nos ombros a condição de voz autoral de maior projeção internacional de uma cinematografia quando o país que você representa prefere vender ao mundo outra imagem de si mesmo. Valentina Maurel não fecha com a Costa Rica de cartão-postal, embalada historicamente como paraíso tropical sem grandes conflitos, uma espécie de "Suíça centro-americana", nem com a docilidade cultural que transforma uma nação em vitrine confortável para interesses externos.
Depois de colecionar prêmios entre Locarno e San Sebastián com "Tenho Sonhos Elétricos", a cineasta volta a bater de frente com esse status quo em "Para Sempre Seu Animal Materno" ("Siempre Soy Tu Animal Materno"), atração do 28º Festival do Rio nesta segunda-feira, às 18h, no CineCarioca José Wilker 1 (Rua Leite Leal, 45). Há repeteco na sexta, dia 9, às 16h15, no Cinesystem Belas Artes Botafogo 5 (Praia de Botafogo, 316).
"É muito duro ser embaixadora de um país fazendo filmes como os que faço, que desmistificam uma imagem que a Costa Rica quer dar de si mesma", disse Valentina ao Correio da Manhã. "É a imagem de uma excepcionalidade branca, de uma Suíça centro-americana sem problemas, de um país tropical, exótico e turístico. É muito difícil representar um país que não quer ser representado dessa forma". Sua inquietação vai além da tela: durante a entrevista, em San Sebastián, a diretora manifestou preocupação com a redução dos recursos destinados à cultura e com o impacto que isso poderia produzir sobre as condições de existência de um cinema nacional. "É uma posição muito estranha. Mas é justamente por isso que quero continuar fazendo cinema como faço. Poder contar as coisas a partir da própria subjetividade é um luxo que não pode pertencer apenas aos países do Norte", afirmou.
Filha de pai e mãe poetas, Valentina encontrou dentro de casa uma espécie de vacina contra qualquer solenidade em torno da criação. Para ela, conhecer poesia significou antes conhecer poetas: seres humanos capazes de produzir versos profundos e, segundos depois, voltar às banalidades da vida cotidiana. Essa percepção orienta a dramaturgia de "Para Sempre Seu Animal Materno", deliberadamente mais aberta e menos linear do que a de "Tenho Sonhos Elétricos". Valentina escreveu o roteiro rapidamente, tornou o processo de filmagem mais experimental e chegou ao set sem saber exatamente como o longa terminaria. A maternidade atravessou esse processo: ela teve um bebê durante a escrita e, tomada pelo medo de não conseguir realizar o filme, decidiu avançar sem esperar por mais financiamento.
Seu interesse era também desmontar um vício da representação feminina. Em vez da mãe heroica, sacrificada, ou de sua contraparte monstruosa, Valentina buscou uma mulher contraditória, egoísta, artista e livre para errar. É daí que nasce a família em torno de Elsa, uma jovem de 28 anos que retorna da Europa à Costa Rica e encontra a irmã Amalia cada vez mais isolada e entregue a uma deriva esotérica e existencial. O pai procura segurança numa sucessão de conquistas amorosas, enquanto a mãe reedita os poemas eróticos da juventude. Elsa percebe a urgência do que acontece com a irmã, mas não sabe se é possível salvar quem não deseja ser salva. Marina de Tavira ganhou o prêmio de Melhor Atriz da mostra Un Certain Regard, em Cannes, por seu trabalho no longa, numa vitória coletiva com suas colegas.
A experiência dessa família não ficou apenas no papel. Daniela Marín, que vive Elsa, conta que o trabalho físico chegou a embaralhar ficção e realidade: "Sofri ansiedade de verdade nas cenas de busca. Eu estava realmente preocupada com uma pessoa que sabia perfeitamente que estava segura em casa. Quando você coloca o corpo nisso, você também se transforma".
É nessa carne exposta que Valentina procura sua Costa Rica. Não a nação domesticada para exportação, mas um país atravessado por desigualdades econômicas, tensões de classe, desejo, sexualidade e mulheres que se recusam a caber nas molduras destinadas a elas. Seu cinema quer desarrumar a vitrine. E, aos olhos dela, fazê-lo a partir da América Central é também reivindicar um direito elementar: o de um país contar a si próprio sem pedir autorização aos centros tradicionais de poder.
O 28º Festival do Rio segue até 11 de outubro.