'Fui aprendendo a dirigir ator com atores'
Rodrigo Fonseca Especial para o Correio da Manhã
Graças ao Festival do Rio enfim chegou a hora de o Brasil entender, in loco, o tanto de polêmica que o cearense Karim Aïnouz gerou na Berlinale, em fevereiro, ao disputar o Urso de Ouro com "Rosebush Pruning", uma espécie de "Dallas" cheio de tesão. Sua primeira sessão no país rola neste sábado, às 19h45, no Odeon, com repeteco na terça (dia 6), às 14h15, no Cinesystem Belas Artes Botafogo 6, e na quarta (7), às 16h40, no Reserva Cultural Niterói 1.
Incesto, traição e ataques de lobos desenham essa releitura que o diretor de "Motel Destino" (2024) fez (com elenco internacional classe AA) do cult italiano "De Punhos Cerrados" (1965), de Marco Bellocchio. A fotografia da francesa Hélène Louvart é seu trunfo. O desempenho do dramaturgo e ator Tracy Letts como um patriarca cego assombra.
"Rosebush Pruning" estreia comercialmente no Brasil no dia 15 de outubro, com distribuição da MUBI e da Filmes do Estação. O roteiro é de Efthimis Filippou (de "A Lagosta"). A trama é narrada por Edward Taylor (Callum Turner), um jovem rico que vive despreocupadamente com sua família em uma mansão, em meio a inúmeros privilégios, na ensolarada região da Catalunha. Seu pai (Letts) e seus irmãos Jack (Jamie Bell), Robert (Lukas Gage) e Anna (Riley Keough) buscam amor e validação uns nos outros, em suas roupas de grife e na música pop após a morte misteriosa da mãe (papel de Pamela Anderson). Quando Jack apresenta sua noiva Martha (Elle Fanning) a seus parentes, tensões reprimidas vêm à tona. Karim fala delas aqui.
"Rosebush Pruning" retrata uma família profundamente fraturada, mas você evita apresentá-la visualmente como algo repulsivo. Ao contrário, há beleza, moda, sensualidade e desejo. Por que revestir essa violência de tanto verniz?
Karim Aïnouz - Eu nem acho que eles sejam uma família disfuncional, porque "família", por definição, já é uma construção cheia de disfunções. Você é obrigado a conviver com pessoas com quem não necessariamente tem afinidade simplesmente porque existem laços de sangue. Acho que o adjetivo que o filme aplica à ideia de família é "fraturada". E como você conta essa fratura? Para mim, era importante contar a fratura com verniz, e não literalmente em pedaços. Não acho que o feio precise ser narrado de uma maneira esteticamente feia. Para dar acesso ao feio, preciso mostrá-lo de outra maneira. É uma lição que venho aprendendo desde "A Vida Invisível" (produção de 2019, coroada com o Prix Un Certain Regard de Cannes), que também tinha uma história muito dura. Aqui existe ainda uma sensualidade que passa pela relação entre as pessoas, pelo desejo. Às vezes, esse desejo passa pelo perverso; outras vezes, pelo carinho. Nunca quis olhar para essas pessoas como personagens abjetos. Eu adoro esses personagens. O desejo intrafamiliar é sufocante, mas o desejo extrafamiliar é transformador.
O roteiro de Efthimis Filippou remete à tragédia grega, mas você parece deslocar a origem da monstruosidade dos personagens para o sistema que os produziu. Com construir um filme sobre poder e privilégio diante de todas as patrulhas que hoje assolam a arte?
Este é um filme o mundo do acúmulo, do capitalismo tardio, da naturalização da concentração de renda e do isolamento que surge como consequência disso. É um acúmulo de poder que vai deformando e transformando as coisas. Tracy falou isso de maneira muito eloquente quando o filme foi apresentado em Berlim: o acúmulo de poder e o abuso do corpo do outro são traços do fascismo. Eu olho para multimilionários e, às vezes, parece que não estou vendo um ser humano. Mas nunca consegui julgar o personagem do pai do "Rosebush Pruning". Seria muito fácil fazer um julgamento de valor e dizer simplesmente que ele representa um patriarcado venenoso. Ninguém nasce assim. A gente se torna isso. Existe um sistema no qual isso é naturalizado. Há até uma brincadeira no filme com as unhas dos personagens: todos têm uma unha dourada. É um privilégio que parece vir quase pelo sangue. Isso me lembrava Henrique VIII, alguém que acredita ter sido colocado naquele lugar por Deus. O pai foi colocado dentro daquela estrutura, e aquela estrutura o transformou. Isso era muito importante para mim. E existe também o absurdo, algo com que me diverti muito neste filme. Às vezes ele é desconfortável, às vezes engraçado. Não acho que esses personagens sejam monstros.
Tracy Letts é um dos grandes nomes do teatro americano. "A Vida Invisível" também tinha uma forte presença de atores vindos do palco. O que o teatro oferece ao seu cinema?
Sempre me interessei muito pela maneira como se manufatura o teatro. O cinema tem um perigo de se tornar protocolar: o ator chega, passa por maquiagem e figurino, vai para o set, a câmera está ali. Adoro cinema, é o que faço da vida, mas o teatro me intriga desde o meu primeiro filme. Quando fiz "Madame Satã", eu não tinha a menor ideia do que estava fazendo, com muita honestidade. Fui aprendendo a dirigir ator com atores. Tenho a sensação de que o ator de teatro tem muito a ganhar quando se arrisca. Ele possui uma espécie de apetite por estar presente, porque o teatro exige presença. E existe uma artificialidade que me interessa. Você acredita naquilo, mas sempre existe algo um pouco a mais, e isso cria certa magia. Talvez meus filmes mais naturalistas tenham sido "O Abismo Prateado" e "O Céu de Suely". Depois, fui me interessando cada vez mais por esse outro lugar. É quase como tomar um ácido e ir ao cinema. A interpretação teatral permite uma espécie de transe.
Depois de "O Jogo da Rainha" ("Firebrand"), "Rosebush Pruning" amplia sua inserção num sistema internacional, agora com Callum Turner, Riley Keough, Elle Fanning, Jamie Bell e Tracy Letts. O filme muda a percepção que você tem do seu lugar no cinema mundial?
Não tenho muito essa noção. Claro que não sou louco, percebo o que está acontecendo, mas gosto é de fazer filmes, de montar histórias. Tenho coisas que quero dividir com o mundo. Depois deste filme, quero muito fazer um filme em língua portuguesa. O que esse projeto permite é levar o nosso jeito de fazer cinema para outros lugares.