Brasilidades para iluminar o Presente
De olho no futuro, a Première Brasil celebra titãs de outrora, convida novas vozes autorais e aposta em talentos estreantes a fim de dar ao Festival do Rio um projeto de cinema vivo
Nenhum dos 14 títulos escolhidos ao longo de um contingente de 118 produções nacionais se posiciona nas raias da competição pelo troféu Redentor, mas contam com a benção do nosso Cristo, o símbolo do Festival do Rio, e da estética de invenção deste país. Um dia depois de ter elencado as bossas estrangeiras da maratona carioca, o Correio da Manhã atraca no píer da Première Brasil, com sugestões de iguarias imperdíveis.
FEITO PIPA, de Allan Deberton: Terça que vem, às 21h15, o Centro Cultural FGV, em Botafogo, que passa a fazer parte do circuito festivaleiro do Redentor, vai explicar aos cariocas o porquê de uma "Sessão da Tarde" tão politizada ter se tornado o nosso representante para o Oscar, à força de Yuri Gomes. Esse baiano recém-saído dos dentes de leite vive Gugu, craque de bola de orientação queer, órfão de mãe, que precisa viver com o pai conservador (Lazinho Ramos) ao ver sua avó amada, Dilma (Teca Pereira), ser maculada pela demência. A Berlinale deu o Urso de Cristal a esta história de amores, que passa no dia 8 no Kinoplex.
MR. WONDERFUL, de Susanna Lira: Como fazer um festival brasileiro de cinema bom sem ter um .doc da Susanna? Laureada faz pouco em Gramado, com um longa arranca-lágrimas sobre o cancioneiro de Gonzaguinha, ela volta agora, com roteiro de Simone Melamed, para falar de Luiz de Freitas, o primeiro estilista negro do Brasil. Nascido em Pau Grande, no interior do Rio de Janeiro, ele desafiou convenções. Revolucionou a moda masculina brasileira com sua bossa.
AMOR E FÉ - CHICA XAVIER, de Clementino Junior: Francisca Xavier Queiroz de Jesus (1932-2020) é viva. Vive na saudade da gente, na memória das lutas decoloniais do Brasil, nos acervos da TV, nas recordações das batalhas do povo preto deste país para ser respeitado e... agora... viverá lindamente na programação do Festival do Rio 2026. Atriz do mais alto quilate dramático, Chica nasceu em Salvador, em 22 de janeiro de 1932. É baiana de Oyá. Mudou-se para o Rio de Janeiro em 1953, onde se tornou um ícone do teatro, cinema e televisão, consagrando-se como símbolo de representatividade para gerações de atores e atrizes negros. Seu filho conta seu périplo pelo sucesso.
OVERMAN, de Tomás Portella: Talento que ainda desfruta do prestígio merecido, o diretor de "Desculpe O Transtorno" (2016) e "Operações Especiais" (2015) se embrenha pelas HQs da Laerte a fim de dar ao nosso cinema um super-herói que seria reprovado pelos Vingadores e faria o Deadpool passar vergonha. Assim mesmo, o Overman de Caco Ciocler é chamado pelo governador do Rio para a Secretaria de Segurança Pública. Diante do talento magistral de seu protagonista, essa convocação é justificável. E dela há de brotar um mar de risos.
SE EU FOSSE VOCÊ 3, de Anita Barbosa: Neste momento de espocar rojões pelos quase 4,7 milhões de pagantes de "Minha Melhor Amiga", um potencial novo blockbuster avança atrás de espaço em circuito, retomando uma franquia que vendeu cerca de 10 milhões de tíquetes na primeira década deste século, em 2006 e 2009. Duas décadas após a última troca de corpos, Helena e Cláudio (Gloria Pires e Tony Ramos) vivem uma nova fase ao lado da filha, a chef Bia (Cleo Pires), agora adulta e casada com o guia de um parque turístico (Rafael Infante). Tudo parece em equilíbrio até que ela troca de consciência com seu amado, da mesma forma como se passou com seus pais. O roteiro de Leandro Soares é hilário.
AMADEO E O HIPOTÉTICO MUNDO NOVO, de Brenda Lígia, Edu Felistoque e Everton Amorim: Revelado mundialmente em concurso no Festival Internacional de Cinema de Xangai, esta delícia de animação apresenta uma fantasia histórica ambientada no Brasil de 1830 e acompanha Amadeo, jovem negro de origem africana, sensível e genial, que inventa a câmera fotográfica antes dos europeus. Com sua criação, ele passa a auxiliar a libertação de pessoas escravizadas enquanto vive uma paixão impossível pela filha de um poderoso barão.
O CINEMA POSSÍVEL, de Luiz Carlos Lacerda: Cada vez mais inquieto na raia documental, o poeta e diretor que o cinema brasileiro aprendeu a respeitar (e a amar) com o apelido de Bigode registra de forma engenhosa - e divertidíssima - os feitos de Carlos Vinícius Borges, o Cavi, espécie de Netflix humana, que veio do judô e virou produtor, cineasta e agitador cultural.
MARIO CARNEIRO - GRAVURA FEITA DE LUZ, de Beth Formaggini: Produtora de artesãos (do naipe de Eduardo Coutinho e Paulo Cezar Saraceni), a diretora de "Pastor Cláudio" revisita o histórico do artista plástico, diretor de fotografia (magistral) e realizador que iluminou "A Casa Assassinada" (1970) e "500 Almas" (2004). A montagem de Flavia Celestino aproxima sequências dos filmes que dirigiu ou fotografou de sua obra como pintor expressionista e gravador, revelando transdisciplinaridades.
VIVO 76, de Lírio Ferreira: No primeiro semestre, o É Tudo Verdade e a CineOP serviram de ribalta a este óvni de DNA pernambucano que se vende como documentário, mas parece uma ficção científica, daquelas que o quadrinista Moebius fazia nas HQs, como "O Rola-Doida" e "Arzach" Aparentemente, seria um resgate dos bastidores do LP lançado por Alceu Valença há 50 anos, só que seu diretor não se aguentou e, num faniquito de invenção, transformou em performance a massa de recortes de época que tinha e o próprio músico. Faz do rapsodo lisérgico Alceu o seu Major Grubert (o herói psicodélico e psicotrópico de Moebius). O resultado dessa metafísica de Lírio é um bicho indomável que "avoa" nas telas avesso a rótulos.
PITICO - HERMES AYRES AZEVEDO (1881-1959) - HISTORIADOR DA PROVÍNCIA, de Julio Bressane: Hoje octogenário, o mestre da realização que nos deu "O Anjo Nasceu" (1969) e "Filme de Amor" (2003) levou ao Filmfest München, na Alemanha, este ensaio poético (com Paulo Betti) sobre Hermes Ayres Azevedo (1881-1959), historiador apaixonado por sua cidade do interior. Leitor de cartas e documentos do passado de sua província, ele colhe na escritura a mão a emoção, o sentimento, a cultura, as forças obscuras e trágicas, o sentir dos que haviam gravado. Pitico, como é chamado, lê, estuda e decifra as configurações particulares do Tempo.
FLORA & AIRTO: O SOM REVOLUCIONÁRIO, de Jom Tob Azulay: Mestre da realização com cults como "Os Doces Bárbaros" (1977) em seu currículo, Jomico dá de presente aos tímpanos e aos olhos da gente um estudo sobre o célebre casal de músicos Flora Purim e Airto Moreira, que marcou o panorama da música brasileira e mundial a partir dos anos 1970 como pioneiros da jazz-fusion. Durante uma gravação fonográfica nos dias de hoje, o .doc entrelaça as vidas pessoais e profissionais dos dois artistas no passado e no presente.
PAI DE PRIMEIRA VIAGEM, de Mariana Youssef: Lito Mendes da Rocha é o fotógrafo deste road movie cujo combustível é a força da natureza chamada Murilo Benício. Numa trama em fricção, um comediante fora de forma (Murilo) e seu filho de 17 anos (Kevin Vecchiato) partem em uma viagem de última hora. Incapazes de se entender, esses dois modelos opostos de masculinidade colidem em um carro apertado.
SEDUÇÃO, de Zelito Viana e Marcos Palmeira: O astro dos remakes de "Renascer" (1993) e "Pantanal" (1990) estreia na realização de longas em parceria com seu pai, um bamba do Cinema Novo, para narrar a saga de um ator em crise que vai aos confins da região Norte a fim de enterrar uma figura paterna controversa e desenterrar um novo caminho para seus afetos. Dira Paes vive uma cantora que vai iluminar sua reinvenção.
FLOR DE FOGO ("Hanabi"), de Ana Vaz: Rodado no Japão ao longo de dez anos, a produção observa um país submetido a uma ameaça mortal, sob o trauma de um terremoto e as instabilidades oriundas a uma catástrofe nuclear. Atravessando uma série de testemunhos e experiências, há um livro diário, "Journal of a Radioactive Brain", da escritora Yoko Hasuke. Suas páginas nasceram na esteira do tsunami e do desastre atômico que se seguiu ao terremoto de Tohoku. Dele nasceu esta sensação do Festival de Locarno.