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O Evangelho segundo Cruise

Entre o delírio, o escárnio e o épico, 'Digger' chega às telas com a promessa de reinventar a carreira de um astro que é sinônimo de salas lotadas desde a década de 1980

Por POR RODRIGO FONSECA

Tom Cruise caracterizado como o matreiro velho de 'Digger'


Dirigido por Stanley Kubrick, Francis Ford Coppola, Martin Scorsese, John Woo, Paul Thomas Anderson, Steven Spielberg e tantos outros gigantes em quatro décadas de uma carreira consagrada com a Palma de Ouro Honorária de Cannes, em 2022, Tom Cruise volta às telas na quinta-feira com "Digger". Fala-se em Oscar para o desempenho dele. Há quem fale num novo êxito de público e há quem arrisque a previsão de fiasco. O mexicano Alejandro González Iñárritu ("Babel") é o realizador dessa provocativa mistura de épico e de comédia.

Na trama, do qual pouco se sabe o homem mais poderoso do mundo, o tal Digger (Cruise), embarca em uma missão frenética para provar que é o salvador da humanidade antes que o desastre que ele mesmo provocou destrua o planeta. Cruise estrela o filme ao lado de Riz Ahmed, John Goodman, Sandra Hüller, Michael Stuhlbarg e Jesse Plemons. Sumido desde "Bardo" (2022), Iñárritu escreveu o roteiro ao lado dos vencedores do Oscar, Alexander Dinelaris s Nicolás Giacobone, e de Sabina Berman, a partir de um argumento dele e de Sabina Berman. O cineasta também assina a produção, em parceria com Mary Parent e seu astro-rei, com produção executiva de Joshua Grode.

A equipe criativa inclui colaboradores de longa data do cineasta, como o diretor de fotografia Emmanuel Lubezki; os designers de produção Dennis Gassner e Richard Johnson; os editores Conor O'Neill e Stephen Mirrione; a figurinista Jacqueline West; o designer de maquiagem e cabelo Alessandro Bertolazzi; o designer de maquiagem protética Kazu Hiro; a diretora de elenco Francine Maisler e o compositor Cosmo Sheldrake.

As filmagens de "Digger" começaram em 7 de novembro de 2024, no Reino Unido, com Lubezki no obturador. Iñárritu optou por rodar o longa em película de 35mm, utilizando o formato VistaVision. A produção sofreu uma breve interrupção, de dois dias, em março de 2025, quando John Goodman machucou o quadril e precisou ser hospitalizado. O trabalho no set chegou ao fim em 3 de maio de 2025, depois de seis meses de filmagens. Durante a produção, o projeto circulou sob o título provisório de "Judy". Ainda naquele mês, o diretor confirmou que seu novo longa seria uma comédia, registro pouco habitual em sua filmografia.

O título definitivo, "Digger", foi anunciado oficialmente em dezembro de 2025, acompanhado pela divulgação de um primeiro teaser de um minuto. Naquele mesmo mês, o jornalista Matt Belloni informou que a Warner Bros. havia dado sinal verde ao projeto com um orçamento de produção de US$ 125 milhões.

O investimento estaria alinhado à estratégia dos chefes da Warner, Michael De Luca e Pamela Abdy, de apostar em superproduções conduzidas por cineastas de forte assinatura autoral, sobretudo após a repercussão crítica alcançada em 2025 por "Pecadores" ("Sinners") e "Uma Batalha Após a Outra" ("One Battle After Another"). "Digger" coloca, assim, Iñárritu diante de uma escala industrial pouco comum mesmo para sua carreira, combinando um orçamento de blockbuster, a fotografia analógica de Lubezki e uma incursão declarada pela seara da ironia.

Cruise assumiu pra si a tarefa de não deixar as salas de cinema esvaziadas à sombra dos estragos culturais deixados pela pandemia. Aos 64 anos, ele faz de "Digger" a nova epístola de um evangelho para o regresso do público (em massa) às salas de projeção, apoiado num empenho de protagonizar sequências perigosas sem dublê e de produzir imagens que os fãs de filmes de ação nunca viram antes. Encantado pela Brasil, que tem visitado com frequência desde 2009, tornando-se praticamente "da casa", ele contou à Croisette, em 2022, ao exibir o campeão de bilheteria "Top Gun: Maverick" as razões que o levam a desafiar a legislação da gravidade - e os limites da arrecadação na venda de ingresso.

"Eu me lembro que, aos 4 anos, eu já queria fazer filmes, pilotar aviões e viver aventuras. Era menino ainda quando comecei a escrever minhas primeiras histórias, já criando personagens. E, nessa época, adorava brincar escalando árvores bem altas", disse o ator, numa palestra em Cannes. "Trabalhei em muita coisa quando era menino, para ajudar a família. Cortei grama. Limpei neve. E a cada dinheiro que ganhava e economizava, tirava uma parte para gastar indo ao cinema".

Desde que fundou sua produtora, a Cruise/Wagner em meados dos anos 1990, hoje transformada numa outra razão social, Cruise configurou-se como um chamariz infalível e contínuo de grandes receitas a partir do êxito de "A Firma" (1993). Já havia brilhado antes, nos anos 1980, mas sempre à sombra de realizadores como Tony Scott, Ridley Scott e Oliver Stone. Na década de 1990, sobretudo depois de "Jerry Maguire - A Grande Virada" (1996), seu nome vira uma grife de Midas.