'Tender Loving Care': Excelência à inglesa
Mike Leigh ganha a Concha de Ouro, aos 83 anos, decidido a se aposentar, por um drama tocante
Está confirmada a presença de "Tender Loving Care" no Festival do Rio 2026, que abre as portas nesta quinta-feira, no Cine Odeon. É ímã de suspiros, mesmo quando passa pela dolorosa seara da erosão da saúde (e da lucidez). É um Mike Leigh para sempre.
Há dois anos, o cinema estrangeiro, em especial o europeu, vive encantado pelo tema dos cuidados paliativos, examinando estratégias médicas, governamentais e parentais de amparar doentes e idosos com a dignidade acima da farmacologia. O tema encontrou seu apogeu em "O Quarto ao Lado", que deu o Leão de Ouro de Veneza ao manchego Pedro Almodóvar, em 2024. Naquele mesmo ano, o franco-grego Costa-Gavras tratou do assunto sob a perspectiva de um médico e de um filósofo em "Uma Bela Vida", sucesso no Brasil. Sua passagem pelo Festival de San Sebastián nº 72 terminou sem prêmios. Aliás, passou-se o mesmo com o ótimo "Hard Truths", que marcou a estreia do octogenário artesão britânico Mike Leigh no certame basco, após cinco décadas e meia de carreira. Este ano, ao se afinar com a discussão da finitude no cirúrgico "Tender Loving Care", ele voltou a Donostia — nome da região ibérica nos dialetos locais, como a língua euskara — e fortaleceu uma tendência conteudística do audiovisual. Com ela, numa toada das mais afetuosas, ganhou a Concha de Ouro e a láurea de Melhor Roteiro, além de render um troféu de atuação para sua afiada estrela, Kate O’Flynn.
A atriz interpreta Amy, trabalhadora da proteção de menores que passa os dias ouvindo, acolhendo e tentando amparar vidas quebradas, ao lado da amiga Rosie (Alice Bailey Johnson), também assistente social. O cuidado, porém, deixa de ser apenas profissão quando Amy retorna para casa e encontra os próprios pais, Birdie (Marion Bailey) e Geoff (Paul Jesson), entrando na fase em que a autonomia já não pode ser tomada como uma certeza. Mike Leigh constrói vasos comunicantes entre a assistência social e a assistência familiar: a mulher que cuida de crianças e de famílias vulneráveis precisa aprender a cuidar também dos idosos que a criaram. É nesse cruzamento entre Estado, trabalho e afeto que "Tender Loving Care" encontra sua força, sem transformar Amy em santa do serviço público nem em mártir da assistência. O desgaste existe, mas também existem amizade, vinho, canções populares e pequenas alegrias, enquanto cada gesto revela o custo emocional de fazer da empatia um ofício. A música surge como extensão dessa gente que tenta preservar alguma normalidade diante do que já não pode ser normalizado.
Há, contudo, uma precisão visual que impede que "Tender Loving Care" se reduza à delicadeza de seu tema. Leigh trabalha os enquadramentos com esmero, encontrando na organização do espaço uma maneira de falar sobre abandono, envelhecimento e espera. Isso se torna especialmente agudo na maneira como filma um paciente já muito velho, um homem que se recusa a falar e parece condenado a uma existência à margem, quase fadado às ruas. Leigh não precisa transformar sua situação em discurso nem lhe conceder uma explicação melodramática: basta enquadrá-lo, deixá-lo existir diante da câmera, para que a vulnerabilidade ganhe peso. O filme entende que cuidar também significa olhar demoradamente para quem quase deixou de ser visto. E é justamente aí que a aparente simplicidade da escrita do diretor — feita de frases corriqueiras, encontros banais, conversas que parecem não carregar nenhuma solenidade — revela sua delicadeza. O extraordinário nasce da acumulação de gestos, de pequenas hesitações, de corpos que já não respondem como antes.
É uma maneira coerente de sair de cena. Mike Leigh, aos 83 anos, realiza "Tender Loving Care" sob a força de uma doença que lhe limita os movimentos, circunstância que torna inevitável a leitura do filme como possível despedida, embora ele próprio recuse qualquer solenidade de testamento. Não seria a primeira vez que Leigh encerraria um ciclo deixando a vida ordinária falar mais alto que os grandes discursos. Vencedor da Palma de Ouro de Cannes por "Segredos e Mentiras", em 1996, e do Leão de Ouro de Veneza por "Vera Drake", em 2004, o cineasta chega agora à Concha de Ouro com uma obra que parece resumir sua fé no cinema como observação do outro. Sai por cima não porque transforme sua despedida em espetáculo, mas porque mantém intacta a escrita impecável de quem sabe que uma frase aparentemente corriqueira pode esconder uma imensa delicadeza. Em "Tender Loving Care", cuidar é continuar olhando, mesmo quando o corpo já começa a pedir para parar.