Natureza autoral
Estruturado numa toada que as narrativas de alta voltagem da contemporaneidade não sabem decantar, pavimentado sob um contexto individual de dor ligado ao inferno da guerra, "Heart of The Beast" (mal traduzido no Brasil com o mesmo título do longa-metragem pelo qual David Lynch ganhou a Palma de Ouro) pertence a uma linhagem narrativa conectada à literatura de sobrevivência de origem anglo-saxônica.
Esse espetáculo florestal contagiante está mais para a prosa de Jack London (1876-1916) e seus "Caninos Brancos" (1906) do que para Rin Tin Tin. Há nele um cão, Uber (batizado na tela de Odin), e o animal carrega um (co)protagonismo elegante, no que diz respeito a um enredo sobre reencaixe de seres abalados na Natureza.
Contudo, o esplendor de vetores dramatúrgicos que vincula um filme tão lúdico a um pretérito - literário - mais que perfeito é o soldado fraturado encarnado por um Brad Pitt que lembra o Robert Redford de "Jeremiah Johnson" (chamado "Mais Forte Que a Vingança" em telas nacionais).
Quem oferece eixo ao astro, nesse projeto rodado na Nova Zelândia, é um artesão da ação gore (thrillers de pancadaria sangue-e-tripas), David Ayer, que, projeto após projeto, sobretudo depois de "Beekeper" (2024), firma-se como um dos mais criativos realizadores da zona B de Hollywood. Agora, passa ao lado A, onde esteve há uma década, com "Esquadrão Suicida" (2016). A escalação de Ayer para a seleção oficial de San Sebastián, numa vaga fora concurso do festival, assegura sua consagração autoral.
Ayer é uma figura controversa no Olimpo hollywoodiano. Depois de uma firme colaboração com Keanu Reeves no hoje esquecido "Os Reis da Rua" (2008), ele despontou como promessa em "End of Watch" ("Marcados Para Morrer", de 2012, no qual retratava a ronda de dois policiais (Jake Gyllenhaal e Michael Peña) sob ângulos inusitados. Repetiu o feito com Schwarzenegger em "Sabotagem" (2014). Não só ele vinha com propostas de enquadramento incomuns, como torcia os limites de "caráter" de seus protagonistas, transpondo o limite do bom-mocismo. Fez o mesmo em "Corações de Ferro" (também de 2014), ao levar Brad Pitt, de tanque, até a II Guerra, chegando ao apogeu de seu escárnio com a ética do Bem no seu já citado "Suicide Squad", a maior bilheteria de 2016. Foi trucidado pela crítica (e pela correção política) em parte por não ter podido levar aos fãs do quadrinho homônimo da DC seu corte final. Acabou caindo em desgraça por isso.
Dali em diante, abraçado a seu rancor, passou a fazer um cinema ainda mais livre, vide o ótimo "O Cobrador de Impostos" (2020). Agora, em "Coração Selvagem", apoiado na sabedoria para o trato da luz do fotógrafo Mauro Fiore ("Dia de Treinamento"), ele volta maduro, mais atento às cicatrizes que colecionamos pelo caminho (e ainda doem) do que a derramamentos de sangue. Pitt, no apogeu de seu ferramental dramático, a reviver um desenho arquetípico com que lidou em "Sete Anos No Tibet" (1997), investiga as zonas cinzentas de seu personagem. Vive um sargento que lutou em muito front ao lado do cão Odin, e aposentou a farda ao ver o animal se encher de machucados, em nome das Forças Armadas dos EUA. A paz que busca no mato vira perigo. O perigo, na mão de Ayer, vira educação sentimental. San Sebastián ovacionou a fita.