Grace Passô: "A gente no Brasil tem uma produção que é necessária"
Num intervalo de cerca de seis horas desta quinta-feira, entre 11h30 e 18h30, Grace Passô colocou no bolso o Festival de San Sebastián (hoje na reta final de sua 74ª edição) por duas vezes, e em um par de frentes distintas. De um lado a competição oficial, onde integra o elenco do colossal "Vicentina Pede Desculpas", de Gabriel Martins, no papel da filha de uma quase nonagenária vítima de um desastre rodoviário. Do outro, na mostra Horizontes Latinos, a atriz, dramaturga e (a partir deste ano, com o êxito global do longa "Nosso Segredo") cineasta das Gerais assume o papel título do sinuoso thriller de suspense (com ecos de horror) "A Professora de Francês", de Ricardo Alves Jr. Vive uma educadora que, em meio à decrepitude física do pai, começa a ser enredada por uma seita que não lida bem com seu namoro com uma europeia. No papo a seguir, a estrela faz um balanço de um dia de glória para o CORREIO DA MANHÃ.
Já em sua reta final, 2026 parece ser um daqueles anos em que várias partes da sua trajetória estão se encontrando: Berlim com "Nosso Segredo", o teatro, agora dois filmes em San Sebastián. O que este ano representa para você?
GRACE PASSÔ: Muitas primeiras experiências para mim, muito lindas. Começou com Berlim, lançando um filme na minha primeira direção. Estou fazendo peças de teatro também, como a gente já conversou. E agora tem esse projeto, que tem uma história muito grande com o Ricardo também, de muitos anos. E tem essa história que eu tenho com a Filmes de Plástico, que é tão importante. Quer dizer, a Filmes e o Ricardo são duas instâncias muito decisivas na minha vida em relação ao cinema. Então, acho que é um ano de convergência. Um ano que dramaturgicamente explica muita coisa e chega a alguns lugares de uma construção de muito tempo. Sobretudo de parcerias, Rodrigo, sobretudo de parcerias. "Nosso Segredo", com aqueles atores todos, e aqui também. É um ano de convergência.
Você voltou também à direção teatral depois de um intervalo grande. Existe a sensação de que todas essas vertentes da sua carreira estão desembocando num mesmo lugar?
GRACE PASSÔ: Dirigi uma peça de teatro depois de dez anos em que eu não dirigia. É um ano meio louco, em que as coisas vão... estão todas chegando. Os braços do rio estão todos chegando num marzinho aí. É um ano de muita água. A fonte está jorrando.
Seu rosto já vinha circulando pelas telas do mundo, mas em 2026 essa exposição internacional ganhou outra dimensão. Depois de Berlim, BAFICI e agora San Sebastián, o que você percebe da maneira como o cinema brasileiro está sendo recebido lá fora?
GRACE PASSÔ: Sinceramente, estou sentindo que a gente, no Brasil, tem uma produção que é necessária. Uso a palavra "necessária" nesse sentido. Não sinto que a gente esteja fazendo filmes só para serem reconhecidos. Acho que isso também existe, essa vontade de reconhecimento pela galera de fora. Mas acho que estamos fazendo filmes que, nos circuitos internacionais, são muito diferentes. Muito diferentes. E essa identidade, claro, a gente quer que seja reconhecida lá fora, mas as pessoas a recebem de um jeito muito diferente. As pessoas estranham. Eu sempre fui uma romântica e continuo sendo uma romântica de achar que existem, sim, linguagens que nascem no Brasil. E sinto isso aqui também.
Depois de um ano de tamanha circulação internacional, já apareceram novos convites para atuar no cinema, dentro ou fora do Brasil? E o que vem agora?
GRACE PASSÔ: Não, ainda não tenho. No ano que vem vou fazer um filme com o André Novais, com ele dirigindo. Por enquanto, é isso. Tenho projetos de teatro e também os meus próprios projetos. Estou começando a trabalhar neles, mas ainda estão todos numa fase muito inicial. Isso é bom também.