Yoon Dan-bi, novo veio poético para uma Coreia de artesanias autorais
Uma das vozes femininas da nova geração do cinema sul-coreano, Yoon Dan-bi volta a San Sebastián seis anos depois de passar pela mostra Perlak com seu longa de estreia, “Moving On” (2019). Agora, a realizadora disputa a seção New Directors com “The World Before”, coprodução entre Coreia do Sul, Japão e França, de 115 minutos, que teve sua première mundial na competição Platform, em Toronto. Protagonizado por Sim Su-bin e Kim Eo-jin, o filme acompanha Jin, uma jovem de 17 anos que nunca deixou a ilha onde nasceu e passa a enxergar de outra maneira aquele pequeno universo quando Dujae retorna ao local para o funeral da avó. O mar, o verão, o despertar do desejo e a percepção de que tudo pode mudar funcionam como motores de uma narrativa de formação conduzida por Yoon com delicadeza. Ao CORREIO DA MANHÃ, a cineasta falou sobre as escolhas visuais de seu segundo longa e revelou preocupação com os rumos comerciais da cinematografia que transformou a Coreia do Sul numa das grandes potências audiovisuais contemporâneas.
Existe uma unidade cromática muito forte em “The World Before”. Há algo da pele, da areia, da luz do verão. Como você chegou a essa paleta?
YOON DAN-BI — Quando pensava em como filmar este longa, imaginei uma cor que se aproximasse da pele e também da luz natural quando ela incide sobre a areia. Pensei que essa poderia ser a cor do filme. Não queria que fosse algo monótono nem trabalhar com uma cor muito evidente, como um vermelho vulcânico. Era outra coisa. Durante as filmagens e depois no processo de finalização, procurei trabalhar com as lâmpadas e, principalmente, com a luz natural para que tudo parecesse o mais natural possível e para não nos afastarmos muito desse tom. Não queria monotonia, mas desejava preservar essa proximidade com as cores da areia e da pele.
A protagonista vive um despertar afetivo e sexual, mas boa parte daquilo que sente não consegue ser verbalizada. Como você trabalhou o desejo e, sobretudo, a experiência da rejeição vivida por essa menina?
YOON DAN-BI — A sociedade coreana mudou muito em relação à maneira como as mulheres são tratadas. Evidentemente, houve muito machismo no passado, mas não queria que a relação mostrada no filme funcionasse simplesmente como uma representação da forma como homens e mulheres se relacionam hoje na Coreia. Essa foi uma escolha minha para a personagem. A rejeição que essa menina sente não deve ser entendida como se aquilo representasse a maneira como os homens coreanos atualmente procuram ou vivem o amor. Interessa-me aquela experiência particular e aquilo que ela provoca nela.
O título “The World Before” parece conter a chave do filme: existe um mundo antes do despertar de Jin e outro depois dele. O que significa esse “antes” para você?
YOON DAN-BI — O mais importante para mim era justamente pensar no que existia antes daquilo que aconteceu. Queria que a história tivesse a sensação de uma lembrança, de alguma coisa que olhamos a partir de um momento posterior. Isso também tem relação com “Moving On”. Existe a ideia de recordar um tempo anterior. O “before”, o “antes”, é importante porque estamos diante de uma história que pertence ao passado da personagem, antes de uma mudança. É como se estivéssemos observando aquele mundo no instante anterior à sua transformação.
O cinema sul-coreano tornou-se uma referência mundial, com cineastas como Bong Joon-ho e Lee Chang-dong. Como você enxerga essa cinematografia hoje e para onde acha que ela está caminhando?
YOON DAN-BI — Existe muito talento na Coreia. Temos muitos profissionais, inclusive montadores, que poderiam trabalhar internacionalmente e assinar filmes em qualquer lugar. Mas, neste momento, tenho um pouco de medo de que o cinema coreano esteja ficando comercial demais. Gosto muito do cinema japonês porque sinto que ali ainda permanece muito forte uma dimensão artística. Evidentemente, realizadores como Bong Joon-ho e Lee Chang-dong têm enorme reconhecimento mundial e ajudaram a liderar a indústria cinematográfica coreana. Mas eu própria ainda não estou tão inserida nesse universo industrial para conseguir dizer para onde tudo isso vai caminhar.