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Priscilla Kellen: 'A metáfora do sonhar voar, com o querer ser livre, sempre me toca'

Por Rodrigo Fonseca - Especial para o Correio da Manhã

A animadora Priscilla Kellen diretora de 'Papaya', longa animado

Depois de zanzar por alguns dos mais prestigiosos festivais do Brasil (como a Mostra de Tiradentes) e do mundo, incluindo a todo-poderosa Berlinale e o argentino BAFICI, "Papaya", o poema animado da cineasta Priscilla Kellen, enfim encontra espaço em circuito exibidor nacional, cerca de um ano depois de sua jornada por maratonas cinéfilas. O filme, ultra colorido, acompanha uma pequena semente de mamão apaixonada pela ideia de voar, que precisa seguir em movimento para evitar criar raízes. Ao longo da jornada, porém, a semente descobre a força transformadora de suas raízes, capazes de conectar vidas por caminhos profundos e misteriosos e de provocar uma verdadeira revolução em seu mundo. em diálogos em seus 74 minutos de duração, a animação mistura formas bidimensionais, colagens e uma paleta visual inspirada em grafismos latino-americanos e nas obras "paper-cutout" do pintor francês Henri Matisse, estilo que, ao longo da produção, Priscilla passou a definir como "tropicalismo pós-apocalíptico". No papo a seguir, Kellen explica sua verve existencialista e ecológica.

Seu filme é quase um curso de Arte para pequenos e um curso sem didatismos sobre ecologia para nós, marmanjos. De que forma as aprendizagens tantas que estão ali te tocaram, ou seja, de que forma "Papaya" reeducou teu olhar sobre natureza e sobre cor?

Priscilla Kellen - Eu sou graduada em Design Gráfico e fui parar nesse curso justamente porque, desde criança e adolescente, sempre gostei muito de desenhar e de me expressar artisticamente por meio das artes visuais. Eu já desenhava, pintava a óleo sobre tela e tinha essa vontade de explorar outras técnicas e possibilidades de expressão. Do outro lado, o contato com o verde e com a natureza, principalmente com a jardinagem e a horticultura caseira, também sempre fez parte da minha vida, muito por influência dos hábitos familiares e dos meus pais. Então são duas coisas que, de maneiras diferentes, sempre me acompanharam. Mas essa pergunta, na verdade, fez com que eu voltasse para uma sensação muito específica da minha infância, de quando eu estudava na Escola Quintal, onde fiz o maternal, dos cinco anos aos seis anos de idade. Era uma escola muito livre. Além das aulas de natação, o restante do tempo que passávamos, tanto na sala quanto no parquinho, normalmente estávamos descalços. E os conceitos que as professoras apresentavam para a gente vinham sempre de uma forma muito natural, sem separação entre as disciplinas.

Como era esse processo?

Os conceitos científicos, por exemplo, apareciam junto com as práticas artísticas. Eu me lembro de fazer uma cola de farinha no fogão, com a professora explicando como preparava e como saber quando ela tinha chegado ao ponto. Depois, pegávamos a areia do próprio parquinho e colávamos em uma folha de papel sulfite para fazer uma espécie de lixa usando essa cola. Com a lixa, lixávamos pedaços de madeira e outras coisas. E, nessa mesma escola, havia uma tartaruga e um coelho. Cada criança tinha a responsabilidade de levar comida para o coelho em um determinado dia da semana. Então, com quatro ou cinco anos, você já tinha a responsabilidade de cuidar de um outro ser vivo, de cuidar da natureza que existia naquele espaço. E eu acho que isso ficou muito marcado em mim. Hoje, vendo o meu filho, fico pensando muito sobre como as crianças absorvem o mundo. Elas aprendem no sentido mais etimológico da palavra: apreendem, absorvem o aprendizado à medida que vivem, experimentam e observam outras pessoas fazendo as coisas. Talvez essa seja uma das formas mais orgânicas e naturais de aprender: não necessariamente alguém parar diante de você e dizer "agora você vai aprender isso", mas você estar inserido em um ambiente em que o conhecimento acontece, em que as coisas se misturam e fazem sentido a partir da experiência.

E como essa vivência te marcou?

Acho que essa experiência da infância acabou deixando em mim uma compreensão muito profunda de que aprender pode ser justamente isso: colocar o corpo no mundo, experimentar, observar, cuidar, fazer com as próprias mãos e, a partir dessas experiências, construir conhecimento. E, em termos práticos, isso aconteceu no processo de desenvolvimento visual do "Papaya", onde precisei aproximar meu olhar ao de um ser minúsculo num ambiente geometrizado, quase abstrato.

No percurso que já fez, em especial na Berlinale, como se deu a (re)educação de sua visão sobre a recepção do público? Que retorno mais tocante teve das crianças?

Tem me tocado muito que, em quase todas as sessões, eu olho para a plateia e vejo que, entre as crianças pequenas, de sete, oito anos, sempre tem alguma fazendo um movimento com os braços, como se fossem asas. E eu fico com a sensação de que talvez esse sonho da Papaya não seja tão aleatório, né? Essa metáfora do sonhar voar, com o querer ser livre, sempre me toca muito. Mas os adolescentes também me emocionado muito, principalmente pelas perguntas que eles fazem sobre transformação. No filme, a gente tem algumas coisas que são mais científicas, mas elas estão o tempo todo misturadas com a fantasia. E eu acho tão bonito porque a gente tem o hábito de olhar para os adolescentes, principalmente ali entre os 12, 13, 14, 15 anos, como se eles já fossem muito crescidos. A gente começa a tratá-los quase como adultos. E, na verdade, eu acho que eles continuam precisando, talvez mais do que a gente imagina, de inspiração para a fantasia, para a imaginação, para as possibilidades que eles podem enxergar nas próprias vidas.

Que novas Papayas ou que novos filmes você desenvolve agora?

Tenho alguns projetos em estágios embrionários de desenvolvimento. Uma das ideias é um "animadoc" mais voltado para o público adulto. Outra é uma série bem infantil, para bebês. E tem também uma outra ideia de longa para a mesma faixa etária da "Papaya". Enquanto essas ideias germinam, sinto que preciso desse respiro para criar sem tanta pressão, tenho preferido colaborar em projetos de terceiros em etapas mais avançadas de pré-produção.