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'Vicentina Pede Desculpas' leva a excelência mineira a San Sebastián

Indicado à Concha de Ouro do Festival de San Sebastián, posto que raramente o cinema brasileiro ocupa, "Vicentina Pede Desculpas" se posiciona a léguas de "Marte Um" trabalho anterior, de 2022, de seu realizador, o mineiro Gabriel Martins.

Por Affonso Nunes e Rodrigo Fonseca - Especial para o Correio da Manhã

Rejane Farias brilha em 'Vicentina Pede Desculpas

Indicado à Concha de Ouro do Festival de San Sebastián, posto que raramente o cinema brasileiro ocupa, "Vicentina Pede Desculpas" se posiciona a léguas de "Marte Um" trabalho anterior, de 2022, de seu realizador, o mineiro Gabriel Martins, que já havia encantado Sundance, Gramado e o circuito nacional, com uma média de público próxima dos 90 mil pagantes. O que fez agora é um assombro de bom. É... de longe... o melhor dos concorrentes de uma competição que corre no mais alto nível.

O novo longa-metragem de Gabito (apelido de Martins) está previsto para estrear na Netflix no dia 20 de novembro, depois de passar pela competição oficial da Première Brasil, no Rio de Janeiro. Esteve antes no TIFF, o Festival Internacional de Cinema de Toronto, onde recebeu um tratamento aquém de sua excelência. Sua atriz principal, Rejane Faria, dá uma aula de contenção dramática. Espanta como seu ferramental cêncico é empregado com destreza.

O desempenho de Regiane no papel-título é comovedor, como comprova a onda de aplausos que varreu sua sessão ao término de 148 minutos crepusculares de uma odisseia de perdão. Teve choro na plateia em múltiplas sequências

Trata-se de um ensaio sobre acolhimento e empatia que poderia ser definido, alegoricamente, como o soco no estômago — ao mesmo tempo mais possante e delicado — dado pelo audiovisual brasileiro, tendo Minas Gerais como perímetro e o mundo como horizonte. É o trabalho de maior maturidade da Filmes de Plástico.

Há que se destacar ainda um elenco de apoio notável, com especial relevo para Maíra Azevedo (como a amiga Joanna), a gigantesca Grace Passô e Giovani Venturini. Rimenna Procópio também aporta vigor à direção de arte.

A trama acompanha uma septuagenária, Vicentina, com dificuldades de locomoção nos membros inferiores, dependente de uma bengala. Caminhando com esforço, ela vai atrás das vítimas de um acidente rodoviário envolvendo seu filho, motorista de um ônibus que despencou de um viaduto.

É na aproximação com essas pessoas, nos encontros e nas conversas sobre as coisas simples da vida, que o filme encontra sua força. Há uma forma de narrar que remete ao cinema do italiano Gianni Amelio, particularmente a seu "La Stella Che Non C'È" (2006), pela maneira como depura estratégias do naturalismo sem jamais cair em curvas de excessos afetivos melodramáticos.

Ainda assim, "Vicentina Pede Desculpas" comove do início ao fim, sobretudo nas sequências em que o olhar de Regiane traduz, com extraordinária economia de gestos, as inquietações da maternidade.

A atriz desponta como um dos nomes de destaque na disputa pelo prêmio de melhor atriz em San Sebastián. Sua composição confere ao filme uma dimensão íntima que ultrapassa a narrativa de luto e transforma a busca da personagem numa jornada de acolhimento, culpa e possibilidade de perdão.

Mais do que um drama sobre as consequências de uma tragédia, "Vicentina Pede Desculpas" é uma narrativa sobre o que permanece depois dela: os vínculos, as perguntas sem resposta e a necessidade humana de encontrar algum sentido quando a vida parece ter perdido qualquer explicação.

San Sebastián termina neste sábado.