Com a palavra (e a imagem), o Paraguai
Premiado em Berlim, 'Narciso' encerra Horizontes Latinos de San Sebastián num ano de força paraguaia e de destaque brasileiro na disputa
A vitória de "Narciso" no Prêmio da Crítica da 76ª Berlinale, em fevereiro, colocou o Paraguai novamente nos radares cinéfilos internacionais e agora leva Marcelo Martinessi a fechar, nesta semana, a competitiva Horizontes Latinos do 74º Festival de San Sebastián. São 12 concorrentes ao prêmio da seção, num canteiro latino-americano em que se destacaram o mexicano "Moscas", de Fernando Eimbcke, hoje disponível na plataforma MUBI no Brasil, e o chileno "La Perra", de Dominga Sotomayor, coproduzido pelo brasileiro Rodrigo Teixeira e com Selton Mello no elenco, a cantar "Agora Aguenta, Coração", sucesso de José Augusto.
Coroado no Festival de Berlim de 2018 com "As Herdeiras", Martinessi voltou à capital alemã este ano com "Narciso" (a ser lançado aqui com o nome "Quem Matou Narciso") e saiu de lá com a láurea da Federação Internacional de Imprensa Cinematográfica (Fipresci). Ambientado em 1959, sob a ditadura de Alfredo Stroessner, o filme acompanha um jovem que regressa de Buenos Aires com o rock'n'roll nas veias, torna-se astro do rádio e símbolo de liberdade até aparecer morto depois de sua última apresentação. "Esta história combina memória e política, pois o cinema não pode se afastar do que se passa ao nosso redor, sendo um caminho para construirmos pontes", disse Martinessi na Berlinale. "Sinto que falamos de um passado necessário para que se possa pensar o presente".
Seu longa estará no Festival do Rio. O avanço paraguaio não começou agora. No ano passado, "Sob as Bandeiras, o Sol" ("Bajo Las Banderas, El Sol"), de Juanjo Pereira, também passou pela Berlinale e tornou-se uma das produções do país de maior circulação internacional recente. Nesta quarta-feira, dia 23, o documentário volta ao Rio de Janeiro como filme de abertura do Filmambiente, às 21h, no Estação Claro Botafogo. Construído a partir de imagens de arquivo raras ou esquecidas, o longa remonta os 35 anos da ditadura de Stroessner e investiga como propaganda, transmissões televisivas e imagens oficiais ajudaram a construir e conservar um regime autoritário.
"O cinema paraguaio vive um grande momento graças à criação da Lei do Cinema no Paraguai, oficialmente chamada Lei nº 6.106, de Fomento ao Audiovisual. A partir daí, tornou-se possível começar a pensar em fazer cinema de maneira mais profissional", disse Juanjo Pereira, por e-mail, ao Correio da Manhã. "Culturalmente, acredito que este país seja um lugar de enorme força narrativa. São muitos anos de repressão que agora começam a vir à luz. No entanto, não é a primeira vez que o Paraguai aparece no cenário latino-americano. Graças ao trabalho dos primeiros realizadores do nosso cinema, hoje os novos cineastas também podemos ocupar outros espaços, tanto nacional quanto internacionalmente. Acredito ainda que a presença de filmes paraguaios no panorama latino-americano venha preencher uma peça que faltava no quebra-cabeça da nossa região".
Em 2022, nos rastros da pandemia, o Paraguai emplacou outra de suas vitórias internacionais com "Eami", de Paz Encina, em Roterdã. O filme, posteriormente exibido no Rio pela Cinemateca do MAM, trança mitologias indígenas ao abordar as lutas dos Ayoreo-Totobiegosode, habitantes do Chaco. "Eles são uma população que quase não se toca, ao contrário de nós. O coração deles está na palavra", disse Paz ao Correio, por e-mail, naquela ocasião.
Foi justamente ela quem, há 20 anos, ajudou a colocar definitivamente o Paraguai no mapa da cinefilia mundial. Em 2006, "Hamaca Paraguaya", delicada experiência narrativa sobre um casal de lavradores à espera do filho, chegou a Cannes e saiu da Croisette com o Prêmio da Crítica da Fipresci. "Ficamos três décadas sem filmar antes do 'Hamaca' e aquele filme chegou quase como um milagre, até para mim", lembrou Paz. Depois vieram títulos capazes de ampliar esse terreno, como "7 Caixas" (2012), de Tana Schémbori e Juan Carlos Maneglia, e "Luna de Cigarras" (2014), de Jorge Díaz de Bedoya.
O desfecho de Horizontes Latinos, porém, pode reservar espaço de honra ao Brasil neste sábado. A recepção em San Sebastián ao thriller mineiro "A Professora de Francês", de Ricardo Alves Jr., colocou o longa entre os títulos brasileiros de maior repercussão da seção. Grace Passô interpreta Graça, professora particular de francês em Belo Horizonte que, após uma emergência de saúde do pai, volta à casa onde cresceu e cai na órbita de vizinhos que comandam uma congregação religiosa disposta a devolvê-la "ao seu lugar". O cotidiano vai adquirindo contornos de pesadelo sob o peso do fanatismo.
Produzido por Thiago Macêdo Correia, Justin Pechberty e Damien Megherbi, "A Professora de Francês" tem roteiro de Germano Melo, a partir de argumento escrito com Ricardo Alves Jr., e põe Grace em cena ao lado da francesa Jehnny Beth, de "Anatomia de uma Queda", no papel de sua namorada, Clara. Elisa Lucinda, Bárbara Colen, Rômulo Braga, Eduardo Moreira, Italo Laureano, Rodger Rogério e Pedro Goifman completam o elenco. Neste sábado, quando o Horizontes Make & Mark distribuir seu prêmio, o cinema mineiro terá, portanto, a possibilidade de fechar com sotaque brasileiro uma competição que "Narciso" encerra reafirmando o Paraguai como uma das cinematografias em expansão no continente.